Estudo da UFMG aponta que profissionais brancos recebem em média 20% a mais do que negros na mesma função


Em cargos de chefia, a desigualdade é ainda maior, podendo chegar a 35%. Negros ocupam menos de 30% dos cargos de liderança
Profissionais brancos recebem, em média, 20% a mais do que os negros que ocupam a mesma função, têm a mesma escolaridade e origem familiar parecida. É o que aponta um estudo feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), baseado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em cargos de chefia, a desigualdade é ainda maior, podendo chegar a 35%. Um outro dado aponta que o aumento na contratação de profissionais negros reduz a desigualdade salarial: a cada 10% de funcionários pretos e pardos contratados, a diferença salarial cai 1,5%.
“O mecanismo que faz com que isso aconteça é a percepção de que os negros também pertencem àquele lugar, então merecem receber semelhante aos brancos”, disse o professor de sociologia da UFMG Jorge Alexandre Neves.
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O abismo social que separa os brasileiros pela cor da pele é imenso. No mercado de trabalho, apesar de fazerem parte da maior força de trabalho no país, pretos e pardos ocupam menos de 30% dos cargos de liderança.
Júlio César Camargos acabou de assumir o cargo de gerente de tecnologias digitais. Ele vai coordenar 30 funcionários e, só na mesma empresa, acumula 13 anos de muito estudo e dedicação.
Júlio César Camargos é gerente de tecnologias digitais
Reprodução/TV Globo
“Eu acredito que existe, dentro das organizações, o que é reflexo da sociedade, né? Realmente os negros estão, a grande maioria, não de forma pejorativa falando, mas numa camada mais baixa da sociedade, então precisa investir muito mais. Eles precisam muito mais de oportunidades para conquistar um lugar mais alto dentro das organizações”, afirmou Júlio Camargos.
A ausência de representatividade negra em cargos de liderança é comprovada. Segundo o IBGE, quase 73% desses lugares são ocupados por brancos. Essa é uma das marcas das desigualdades que estão desenhadas ao longo da história.
“O que nós temos hoje, no Brasil, é uma sociedade que herdou um passado escravista, exploratório da população negra, que se baseia no racismo sistêmico e estrutural. Durante esse período de experiência da escravidão a sociedade aprendeu que o trabalho das pessoas negras vale menos”, explicou a professora da Universidade da Pensilvânia Vanicléia Silva Santos.
‘Sociedade herdou um passado escravista’, diz professora da Universidade da Pensilvânia Vanicléia Silva Santos
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Grazi Mendes é mulher, negra e filha de uma empregada doméstica. Ela foi a primeira da família a entrar numa universidade e se tornou executiva numa empresa especializada em desenvolvimento de software. A profissional ainda é questionada sobre a posição que ocupa.
“Várias vezes eu recebo executivos de outras empresas ali, até com o movimento de cortesia dentro dos espaços para fazer troca e algumas vezes as pessoas falam: ‘Olha, você consegue acesso a alguém da liderança para poder estar presente ali com a gente?’ e eu tenho que fazer os apontamentos do tipo: ‘Olha, talvez você não esteja acostumada com uma mulher como eu, negra, trançada, numa posição de liderança, mas a liderança que vai receber as pessoas sou eu’”, relatou Grazi.
Grazi Mendes é executiva em uma empresa especializada em desenvolvimento de software
Reprodução/TV Globo
Para a empresária Dandara Elias, a transição capilar foi o gatilho para montar o próprio negócio. Dona de um salão de beleza para cabelos, a empresária enfrentou muitas barreiras, mas acabou virando referência no ramo. Atualmente ela é contratada para dar cursos e ensina como ser uma empreendedora negra.
“Uma coisa que ficou muito nítida pra mim é perceber que a única pessoa capaz de me parar sou eu mesma e que é por isso que tentam tanto entrar na minha cabeça e fazer a minha mente desistir. Pouca idade, tantos desafios, uma pandemia e a empresa está aqui. Poupem energia porque eu não vou parar”, disse Dandara.
Para a empresária Dandara Elias, a transição capilar foi o gatilho para montar o próprio negócio
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