Evo assiste à vitória do partido dele um ano após deixar Bolívia sob acusação de fraude eleitoral

A Bolívia está acompanhando voto a voto a apuração da eleição que deve confirmar Luis Arce como o próximo presidente. Depois de um ano político turbulento, o chefe de campanha e ex-presidente Evo Morales conseguiu eleger o candidato do partido dele. Bolívia aguarda resultado oficial de eleição que deve confirmar Luis Arce como presidente
A Bolívia está acompanhando voto a voto a apuração da eleição que deve confirmar Luis Arce como o próximo presidente. Depois de um ano político turbulento, o chefe de campanha e ex-presidente Evo Morales conseguiu eleger o candidato do partido dele.
Com mais de 80% das urnas apuradas, Luis Arce aparece na frente com 53% dos votos. Carlos Mesa, o principal adversário, tem 30% e já reconheceu a derrota.
Arce disse que os bolivianos recuperaram a democracia e a esperança. Ele foi ministro da Economia do ex-presidente Evo Morales por 11 anos e voltou à vida pública no ano passado, com a missão de liderar o partido político fundado por Morales.
O primeiro presidente de origem indígena da Bolívia ficou quase 14 anos no poder, mas deixou o país no ano passado. Era um momento de tensão política e social.
A Bolívia estava dividida desde 2016, quando Evo Morales convocou uma consulta popular para mudar a Constituição e permitir que ele concorresse a um quarto mandato. A proposta foi rejeitada pela maioria dos eleitores. Apesar disso, em novembro de 2017, o Tribunal Constitucional determinou que o limite de mandatos era “uma violação dos direitos humanos” e autorizou uma nova candidatura.
Em outubro de 2019, Evo Morales foi reeleito em primeiro turno depois de uma apuração conturbada. Não houve segundo turno com Carlos Mesa por menos de um ponto percentual. A oposição afirmou que houve fraude na apuração e protestos contra e a favor de Morales tomaram as ruas do país, com dezenas de mortes de manifestantes.
O governo decidiu encomendar à Organização dos Estados Americanos uma auditoria da eleição, e a OEA afirmou que identificou irregularidades graves no sistema de apuração, questionou a integridade dos resultados, com a vitória apertada, e recomendou a anulação da eleição.
Evo Morales chegou a propor uma nova votação, mas acabou renunciando em 10 de novembro depois de um motim da polícia e sob pressão das Forças Armadas. Fugiu para o México e depois para Argentina, e o país passou a ser governado interinamente pela senadora de oposição Jeanine Áñez.
Meses depois, especialistas internacionais em economia e estatística contestaram o relatório da OEA. Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts classificaram o relatório como “profundamente falho” e afirmaram que não há evidências estatísticas de fraude na eleição do ano passado.
Mas como um político que deixou o país assim conseguiu eleger o seu sucessor menos de um ano depois? Os analistas dizem que uma das explicações está no discurso mais moderado adotado por Luis Arce durante a campanha eleitoral.
“Talvez ele seja realmente a pessoa ideal para tranquilizar a situação e para iniciar esse novo ciclo, de uma democracia mais estável e menos vulnerável ao tipo de distúrbio que a gente viu no ano passado na Bolívia”, diz Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV.

O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, aponta ainda um outro ingrediente: “Há um passado, uma tensão de políticas públicas voltadas para maioria do povo pobre, isso é importante. Essa travessia é a travessia da política. A política pressupõe diferenças, pressupõe conflitos, mas também pressupõe negociação. Então essa situação toda, essa reversão na situação da Bolívia, a meu ver é uma vitória da política, e não da intolerância.”
Depois da vitória virtual do partido dele, Morales disse que cedo ou tarde voltará para o país. Por enquanto, ele é alvo de vários processos na Bolívia. Entre outros motivos, pela acusação de fraude na eleição.

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