Fogo no Pantanal atinge áreas de proteção ambiental na Bolívia

Até 2040, temperatura na região pode subir 2°C e chuvas terem redução de 15%, diz documento

Fogo consome áreas do Pantanal em Poconé (MT)

Com  22% de sua área queimada no Brasil, o Pantanal arde em chamas
também em sua porção na Bolívia. Segundo dados da Fundação Amigos da Natureza, ONG que atua no país vizinho, é comum a ocorrência de incêndios fronteiriços e, em média, de cada 10 registrados na fronteira entre os dois países, sete começam com queimadas do lado brasileiro.

Em documento produzido em agosto passado, a entidade afirma que o primeiro foco de 2020
surgiu no Brasil no dia 10 de março passado, a 5 km da fronteira com a Bolívia, e um dia depois afetou o Parque Nacional Otuquis, na divisa com o Mato Grosso.

O fogo durou quase 30 dias e destruiu uma área de 128 mil hectares
, dos quais 6.528 hectares dentro da reserva ambiental boliviana. Um segundo incêndio surgiu novamente em 2 de agosto, atingindo o parque Otuquis no dia seguinte, e ainda não foi debelado.

Outra reserva boliviana, a Área Natural de Manejo Integrado San Matías, na Bolívia, na altura de Corumbá (MS), já teve 40 mil hectares devastados
pelo fogo, que começou em julho passado a 500 metros da fronteira Até agora as chamas seguem consumindo a reserva em três diferentes pontos.

“Falta uma gestão integrada do território, de gestão de paisagem entre os países que abrigam o Pantanal. A região sofre com a pressão agrícola e de exploração madeireira
. O clima seco é apenas um dos fatores. Se nada for feito, a situação ficará cada vez mais catastrófica nos próximos anos”, diz Carlos Pinto García, gerente do projeto de manejo de fogo da Fundação Amigos da Natureza.

Chuvas no Pantanal podem diminuir 15% até 2040

Um relatório feito pela Wetlands International, organização dedicada à conservação de áreas úmidas ao redor do mundo, afirma que as previsões climáticas apontam para longos períodos de seca do Pantanal
, intercalados por períodos chuvosos que tendem ter menor duração, com precipitações mais intensas e concentradas – tanto geograficamente quando em espaço de tempo.

Os cenários mais realistas de mudança climática para a Bacia do Rio Paraguai até 2040, de acordo com o documento, estimam aumento de temperatura acima de 2°C
, com redução de aproximadamente 15% nas chuvas. Se isso ocorrer, os fluxos de água no Pantanal sofrerão uma redução de 13% no período, ameaçando o ecossistema.

O conjunto faz parte da Bacia do Prata, a segunda maior bacia hidrográfica do Brasil, atrás apenas da bacia Amazônica, e alcança, além da Argentina, também Uruguai e Paraguai. Inclui os rios Paraná e Paraguai se estende do Pantanal até o Delta do Paraná, na Argentina, num eixo fluvial de 3.400 km
. Cerca de 60% das hidrelétricas brasileiras estão instaladas nela.

“Estamos falando da maior área úmida de água doce
do mundo”, explica Rafaela Nicola, diretora da Wetlands International Brasil.

Rafaela afirma que falta preparo para as populações
dessas regiões para enfrentar um ciclo de eventos extremos, como o que se anuncia. Embora na década de 60 o Pantanal tenha sofrido um período de grande estiagem, naquela época a ocupação humana era muito menor e a capacidade de regeneração do meio ambiente, maior.

“Quem investe e vive na região do Pantanal precisa ter mais informações, metodologia e ferramentas para conter o fogo sem contar com a chuva. É preciso envolver os fazendeiros no trabalho de prevenção e encontrar consensos que reduzam os riscos. Esperar que a chuva apague as chamas é catastrófico
“, diz ela.

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