Ganhador do prêmio Educador do Ano conta como ensinou matemática ao desafiar alunos a projetar uma casa


Luiz Felipe Lins, que cresceu sem pai no Morro de Santa Teresa, no Rio, dá aulas na rede pública municipal e desenvolveu proposta que usou plantas de imóveis e maquetes na didática. O professor de matemática Luiz Felipe Lins e as plantas de imóveis, que usa para ensinar matemática e geometria.
Nidiacris Ribeiro/ Trupe Filmes
O professor de matemática Luiz Felipe Lins estava a caminho da escola municipal Francis Hime, em Jacarepaguá (Zona Oeste do Rio), quando recebeu folhetos de um conjunto de moradia popular. Ao bater o olho na planta baixa do imóvel apresentado, teve um estalo: isso poderia ajudar nas atividades que desenvolve em aula. “Vi que ali daria para trabalhar muitas coisas.”
Lins, de 48 anos e 25 de profissão, propôs então que os seus alunos da 7ª série do ensino fundamental na Francis Hime reproduzissem em sala o desafio de projetar uma casa e planejar sua construção.
“Peguei instrumentos de desenho geométrico, régua, compasso, e coloquei para trabalharem em grupo. A partir daí já deu para estudar um monte de conceitos.”
A estratégia de pensar matemática e geometria por meio de questões práticas levou Lins a ser escolhido o Educador do Ano de 2020. O professor de Jacarepaguá foi destacado entre os dez projetos de ensino vencedores do Educador Nota 10, premiação que teve 3.700 inscritos e é realizada pela Fundação Victor Civita em parceria com Abril, Globo e Fundação Roberto Marinho.
A planta baixa que veio no folheto foi usada por Lins para discutir a lógica das divisões de cômodos no imóvel. O professor também forneceu dados sobre a legislação do município para mostrar as regras que guiam uma construção.
“Depois, propus: quanto de piso gastaria para cobrir o chão de todos os cômodos? Como faz? Precisa saber o espaço. Alguém falou em metro quadrado, o aluno sabia que era uma unidade de medida, mas não sabia o que significava. Propus que fizéssemos com jornal a medida de um metro quadrado, que é um quadrado de um metro de lado. Colocamos no chão para ver o tamanho. Assim eles construíram o conceito do que é um metro quadrado, do espaço que ocupa.”
Houve pesquisa de custo de mão de obra, com pedreiros, ajudantes, arquitetos e engenheiros. A última etapa foi fazer maquete usando os tamanhos em proporções reais.
“No fim, teve aluno dizendo que agora entendia porque morava em casa tão pequena: era porque a mãe, sozinha, não tinha como pagar uma casa maior. Eles entenderam o custo de uma moradia.”
“Quando você desenvolve o raciocínio lógico, você faz uma matemática que tem sentido na vida deles. Você vê que a matemática é uma arma de empoderamento, que permite fazer conexões com a realidade em que estão vivendo”, afirma.
O professor de matemática Luiz Felipe Lins, 48 anos, escolhido como “Educador do Ano” pelos jurados do prêmio Educador Nota 10 de 2020, usou plantas baixas de imóveis para ensinar conceitos de matemática e geometria
Nidiacris Ribeiro/ Trupe Filmes
O professor premiado cresceu em uma comunidade no morro de Santa Tereza, no Rio. “Da minha foto de jardim de infância, todas as crianças morreram ou entraram para o crime.”
A mãe teve que criá-lo sem a ajuda do pai, que não assumiu a responsabilidade. Aos 8 anos, sob temor da violência local, Lins foi morar com a tia em Curicica, bairro da Zona Oeste carioca.
“Minha tia era solteira, fazia faxina, tinha dois filhos. Ela não conseguiu dar uma atenção escolar como nós deveríamos ter, mas sempre falava que a gente tinha que ter os professores como referência. Eu dei sorte, tive grandes referências e grandes professores.”
Seus primos também conseguiram se formar: um em engenharia e outro em assistência social.
“O conhecimento é um instrumento de transformação”, afirma Lins, que teve toda a sua formação sempre em escolas e instituições públicas. Depois de passar pela educação básica, ele se formou em matemática pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e fez mestrado na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).
Um olhar diferente
Para Lins, a educação precisa acontecer com um “olhar” específico já que a aprendizagem é diferente em cada estudante. “Todo mundo aprende, mas cada um tem um ritmo.”
“É preciso pensar as ações e replanejar o tempo todo, porque cada turma é uma. Isso dá trabalho, eu saio esgotado. Precisa estar atento e pensando o tempo todo”, afirma.
Um exemplo foi um garoto autista para quem Lins deu aula por quatro anos (do 6º ao 9º ano do ensino fundamental). “A mãe disse que ele estava ali para socializar, eu disse que não, que ele iria aprender”, relembra.
O professor montou um sistema feito com isopor e fundos de garrafa pet, com materiais que representavam dezenas e unidades, para o aluno entender o mecanismo do cálculo. “Para ele, não adiantava explicar a teoria, ele tinha que experimentar, mexer.”
O professor de matemática Luiz Felipe Lins, 48 anos, escolhido como “Educador do Ano” pelos jurados do prêmio Educador Nota 10 de 2020.
Nidiacris Ribeiro/ Trupe Filmes
Agora, ele tem 10 alunos com deficiência. Em apenas uma das turmas são quatro. “Eu falo para a turma que aqueles alunos não pediram para nascer com essas condições. Explico que não consigo fazer nada sozinho e, então, pergunto: quem está comigo? Que levante a mão. E eles levantam. Ali nasce um pacto e eles aprendem também sobre a inclusão”, afirma.
Outro caso foi o de uma aluna que havia reprovado em matemática e, no ano seguinte, caiu na turma de Lins. Com incentivo e muito estudo, ela chegou a ser medalhista de prata na Olimpíada de Matemática do RJ no ano seguinte à reprovação.
“Vi que ela tinha habilidades e raciocínio apurado e mostrei a ele essa matemática que vinha ao encontro do que o mundo quer que as crianças tenham: raciocínio lógico, gosto pelo desafio, e pela resolução de problemas. Ela tinha tudo isso, só não decorava equação”, relembra.
No ano passado, a ex-aluna veio procurá-lo para dizer que iria fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para prestar pedagogia, inspirada nele.
“Eu vejo o olhar do professor. A gente poderia perder essas crianças da escola. Mas, aí a gente tenta desconstruir tudo aquilo que já foi dito para eles: que a pessoa é fracassada, que não vai conseguir. Que a escola transforma é um ponto que não há discussão nem dúvidas. Mas e o olhar para cada um individualmente? Cada um tem suas especificidades”, analisa.
Maquetes feitas por alunos do professor Luiz Felipe Lins, da escola municipal Francis Hime, no Rio de Janeiro. Linz foi escolhido ‘Educador do Ano’ em 2020
Nidiacris Ribeiro/Trupe Filmes
Lins, aliás, se destaca no “treinamento” de alunos para a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Entre as 15 edições (desde 2005), ele já recebeu 11 prêmios, e teve mais de 650 alunos medalhistas na competição. Em 2019, dois alunos de Lins receberam medalhas de ouro. Mais de 18 milhões de estudantes do país participaram da olimpíada.
Com os dois prêmios que recebeu — um por ser Educador Nota 10 e outro por ser Educador do Ano – Lins planeja viajar a Portugal para conhecer a Escola da Ponte, que tem uma estratégia de ensino focada na autonomia dos alunos. Ele também quer dar continuidade a um projeto de robótica voltado às alunas, para incentivá-las na carreira científica.
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