Imagens mostram lixo encontrado no estômago e corpos de animais marinhos no litoral de SP; VEJA


Institutos divulgaram fotos que mostram impactos da ação humana em ao menos 100 animais marinhos entre janeiro e agosto deste ano. Tartaruga foi encontrada já morta com grande quantidade de lixo no estômago
Divulgação/Instituto Gremar
Entre janeiro e agosto deste ano, os institutos responsáveis pelo resgate e recolhimento de animais marinhos no litoral de São Paulo somaram, juntos, mais de 100 animais com sinais de interação antrópica, ou seja, ingestão de lixo. Segundo o Gremar e o Biopesca, grande parte deles veio a óbito.
O Instituto Biopesca informou ao G1 que em 2020, até agosto, realizou aproximadamente 230 necropsias em animais marinhos encalhados em praias localizadas entre Praia Grande e Peruíbe, trecho do litoral paulista percorrido diariamente para a execução do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS). Desse total, quase 80 apresentavam interação com resíduos (presença de lixo no trato gastrointestinal ou preso de alguma forma ao corpo do animal).
Desses 80 animais, mais de 30 ingressaram vivos, mas debilitados, na maioria das vezes muito magros, e vieram a óbito. A maior parte dos animais mortos é de aves ou tartarugas marinhas.
O Instituto Gremar, por sua vez, aponta que, desde janeiro de 2020, teve 40 animais resgatados em ações pelo Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP/BS – Trecho 9) com sinais de ingestão de lixo. Cinco deles estavam vivos e outros 35 mortos.
Desses 40 animais, 23 foram encontrados com resíduo sólido identificado já em trabalho de campo (avaliação externa, preso ou próximo ao corpo): 17 répteis (5 vivos e outros 12 mortos); duas aves (mortas) e quatro mamíferos (4 mortos). Outros 17 tiveram resíduo sólido encontrado no trato gastrointestinal após exame de necropsia: oito répteis e nove aves (mortos).
Os répteis dividem-se entre tartarugas marinhas das espécies tartaruga-verde (Chelonia mydas) e tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta). As aves dividem-se entre as espécies atobá-pardo (Sula leucogaster), gaivotão (Larus dominicanus) e pinguim-de-magalhães (Spheniscus magellanicus). Já os mamíferos eram toninhas (Pontoporia blainvillei).
Veja exemplos de alguns casos:
Pinguins-de-magalhães
Pinguim foi resgatado mas veio a óbito; plástico foi encontrado em seu estômago
Divulgação/Instituto Biopesca
O primeiro pinguim-de-magalhães ingressou ainda vivo em junho para estabilização no Instituto Biopesca, depois de ter sido resgatado durante execução do PMP-BS, em Itanhaém. Ele estava extremamente debilitado e hipotérmico, o que reforça a orientação de que estes animais não devem ser colocados no gelo.
Conforme explica o Biopesca, caso essa espécie seja encontrada pela população, os procedimentos incluem improvisar uma sombra perto do pinguim, deixando um guarda-sol próximo, se possível, e logo depois manter distância a fim de não estressá-lo. Outra ação fundamental é acionar os órgãos ambientais o mais rapidamente possível. A necropsia revelou a presença de plástico em seu estômago.
Animal tinha corda em seu estômago
Divulgação/Instituto Biopesca
O segundo pinguim da espécie também foi resgatado ainda vivo, em Itanhaém, em julho, muito debilitado e hipotérmico. Em seu esôfago, foi encontrada uma corda dobrada que, esticada, tinha mais de 80 centímetros.
Pinguins recolhidos pelo Gremar neste ano
Divulgação/Instituto Gremar
Essa grande quantidade de pinguins-de-magalhães foi recolhida na área do Instituto Gremar, em Bertioga, e nos animais foram encontrados diversos resíduos (veja foto abaixo).
Resíduos encontrados nos pinguins
Divulgação/Instituto Gremar
Tartarugas
Tartaruga estava com estômago repleto de plástico
Divulgação/Instituto Biopesca
Essa tartaruga marinha foi recolhida pelo Biopesca já sem vida em Peruíbe, em maio, com o estômago repleto de plástico, e exemplifica a pesquisa ‘Ingestão de resíduos sólidos por tartarugas marinhas encalhadas no Litoral Centro-Sul do Estado de São Paulo’, realizada pelo instituto. Esse estudo comprova que cerca de 80% das tartarugas-verdes examinadas pela instituição ingeriram algum tipo de resíduo sólido.
Tartaruga viva com amputação por petrecho e linha na boca
Divulgação/Instituto Gremar
Essa outra tartaruga-verde foi resgatada pelo Gremar em março deste ano, em Guarujá. Ela foi recolhida viva, com amputação por petrecho e linha na boca.
Tartaruga viva enroscada em pedaço de blusa e petrecho de pesca
Divulgação/Instituto Gremar
Também da espécie, essa tartaruga foi encontrada com vida na Ponta da Praia de Santos, mas estava enroscada a um pedaço de blusa e a um petrecho de pesca. Ela foi recolhida pelo Gremar.
Toninha
Toninha foi recolhida com câmara de ar de pneu de bicicleta presa à nadadeira
Divulgação/Instituto Biopesca
Essa toninha já sem vida foi recolhida em agosto em Praia Grande. Segundo o Biopesca, tratava-se de de um macho adulto, já em avançado estado de decomposição.
Uma câmara de ar de pneu de bicicleta, já desinflada, estava amarrada à nadadeira caudal da toninha, indicando que a ação é de natureza antrópica (resultado de ação humana). Embora a maioria dos animais com resíduos em seu corpo e necropsiados pelo Biopesca pertença aos grupos de aves e tartarugas marinhas, há, também, casos de golfinhos impactados por resíduos.
Uma outra pesquisa realizada pelo instituto, intitulada ‘Ingestão de resíduos sólidos por toninhas do Litoral Centro-Sul de São Paulo’, também indicou o achado de material plástico nos esôfagos ou estômagos dessa espécie de golfinho, ameaçada de desaparecer da natureza nos próximos 35 anos, caso nada seja feito em favor de sua conservação.
Conforme explica o Biopesca, de um total de 90 golfinhos dessa espécie, 13 apresentaram algum tipo de lixo em seu esôfago ou estômago, de diferentes origens, entre eles embalagens plásticas. Essa é mais uma ameaça a esse animal já em vias de extinção no Brasil. O instituto afirma que não é possível afirmar que essas toninhas morreram por causa da ingestão de lixo, mas que provavelmente esse problema colabora com a morte do animal.
Toninha também foi encontrada morta com petrecho e recolhida pelo Gremar em junho deste ano em Bertioga, SP
Divulgação/Instituto Gremar
Ação do homem
“Nos casos dos pinguins e tartarugas exemplificados, não temos dados suficientes para afirmar se a ingestão dos resíduos foi a causadora da debilidade dos animais”, explica a médica veterinária Vanessa Ribeiro, do Instituto Biopesca.
Em relação à toninha, a especialista aponta que não é possível determinar se esse material foi preso à nadadeira caudal antes ou depois da morte do animal, porque ele já estava em avançado estado de decomposição, o que dificulta qualquer conclusão. “No entanto, esse é mais um exemplo da interação antrópica com os seres marinhos”, relata Vanessa.
Os institutos Biopesca e Gremar são instituições executoras do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), uma atividade desenvolvida para o atendimento de condicionante do licenciamento ambiental federal das atividades da Petrobras de produção e escoamento de petróleo e gás natural na Bacia de Santos, conduzido pelo Ibama.
Esse projeto tem como objetivo avaliar os possíveis impactos das atividades de produção e escoamento de petróleo sobre as aves, tartarugas e mamíferos marinhos, por meio do monitoramento das praias e do atendimento veterinário aos animais vivos e necropsia dos animais encontrados mortos. O projeto é realizado desde Laguna (SC) até Saquarema (RJ), sendo dividido em 15 trechos.
O Instituto Biopesca monitora o Trecho 8, compreendido entre Peruíbe e Praia Grande. Já o Gremar monitora o Trecho 9, compreendido entre São Vicente e Bertioga.
Para acionar o serviço de resgate de mamíferos, tartarugas e aves marinhas, vivos debilitados ou mortos, a população pode entrar em contato pelos telefones 0800-6423341 (horário comercial para ambos os institutos) ou (13) 99601-2570 (WhatsApp e chamada a cobrar para o Biopesca), e (13) 99711-4120 (para contato com o Gremar).
Ave morta e encontrada com petrecho pelo Instituto Gremar em julho deste ano em Guaratuba
Divulgação/Instituto Gremar
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