Irmão de rapaz preso em Niterói garante que ele é inocente: ‘Não é traficante’


Polícia afirma que jovem, preso no dia 16 deste mês, fugiu durante abordagem e estava com uma mochila onde foram encontradas drogas e uma arma. Rafael Santos Maciel, de 19 anos, está preso na Zona Norte do Rio
Arquivo Pessoal
A vida de três irmãos baianos que vieram ao Rio de Janeiro em busca de emprego sofreu uma mudança drástica quando, no dia 16 deste mês, um deles foi preso pela polícia em Niterói, na Região Metropolitana. Segundo os familiares, a prisão em flagrante foi forjada.
“Nós somos três irmãos. Viemos da Bahia há quatro anos, a trabalho, pra trabalhar mesmo, porque lá a vida é difícil… Sempre trabalhamos. Sempre. Nunca tivemos envolvimento com drogas, com tráfico de drogas muito menos”, afirmou Nilton Santos Maciel, de 21 anos, o irmão do meio.
Rafael Santos Maciel, de 19 anos, foi preso por policiais militares na Favela do Badu, suspeito de associação com o tráfico de drogas na comunidade. Após a prisão, Rafael foi levado para a Cadeia de Benfica e, depois, transferido para o Presídio Ary Franco, em Água Santa, na Zona Norte do Rio.
Desesperado, Nilton diz que o irmão tem bons antecedentes e garante que o jovem não é traficante. Uma reprodução da carteira trabalho de Rafael comprova que, desde março, ele trabalha como manipulador de alimentos na rede de supermercados Hortifruti, com salário R$ 1.387,49.
“Meu irmão, antes de entrar na empresa Hortifruti, foi uma luta, porque ele ficou um ano e pouco desempregado, fazendo biscate. Tinha semana que tinha biscate, tinha semana que não tinha, e o meu irmão não foi vender droga. Imagina, véi! Ele ia vender droga andando de carteira assinada?”, questionou Nilton.
No dia 16, uma sexta-feira, Rafael estava de folga e sozinho em casa. O jovem, que vive com os irmãos na Fazendinha, no Sapê, saiu de casa sem celular a caminho do Badu, onde foi preso. Dias depois, já no Ary Franco, o advogado Sérgio Figueiredo, que atua na defesa da Rafael, contou que o jovem assumiu que ia à comunidade vizinha para comprar maconha.
Segundo Nilton, a última vez que ele falou com o irmão foi por volta das 15h daquele dia. Depois, sem saber que o rapaz havia sido preso, Nilton e o irmão mais velho, Leandro, ficaram em pânico.
“Meu irmão mais velho, que também trabalha na mesma empresa que ele [Rafael] e eu, chegou em casa e me perguntou: ‘cadê Rafael?’ Porque lá a gente tem o costume de sair e avisar, né? Ou então levar o celular. Como ele deixou o celular carregando e deixou a caixa de som em casa, e não deixou nenhum bilhete, aí a gente começou a ficar preocupado.”
Irmão diz que prisão em flagrante do caçula foi forjada
Arquivo Pessoal
Até o dia seguinte, os irmãos não teriam notícias do caçula.
“Eu saí mais cedo do meu trabalho e passei em frente a um bar que o pessoal conhece a mim e à minha família. Inclusive, o meu irmão já trabalhou como ajudante de pedreiro pro dono desse bar. Eu comentei com ele o que tava acontecendo. (…) Aí, ele comentou: ‘cara, ontem a ‘barca’ passou com um aí.’”
Ainda em busca de Rafael, os irmãos foram à delegacia. Foi aí que souberam da prisão.
“Chegamos lá e trataram a gente super mal. Trataram a gente igual cachorro. Falaram que o meu irmão era bandido, vagabundo, vagabundinho. Ainda usou esse termo… Que tinha sido preso com droga e arma. Aí, a gente surtou. Surtou porque isso não faz o menor sentido.”
Passados 11 dias desde que Rafael preso, o que restou para Nilton e a família – inclusive os pais em Camacã, na Bahia – é o sentimento de revolta.
“É revoltante. É muito triste. Eu vou ser honesto, diante de Deus, com você. Antes de eu vir pra cá, pro Rio de Janeiro, eu tinha uma outra visão da polícia. Eu achava que quem era injustiçada era a polícia, mas na prática não é, véi. Minha família tá desesperada. Eu tô desesperado.”
O que diz a polícia
Em depoimento na 79ª DP (Jurujuba), um policial militar do Batalhão de Choque que participou da ação disse que ele e outros PMs foram alertados por moradores sobre criminosos armados na região. Ao entrarem na comunidade, o agente afirmou que a equipe viu seis criminosos armados na Rua Guilhermina Bastos.
O PM declarou que a equipe foi recebida a tiros e que houve confronto. Segundo o relato, Rafael estava com uma mochila nas costas e correu dos policiais até um beco, tentando em seguida fugir por telhados até cair e se machucar. Após ser pego, Rafael teria dito: “perdi!”
Na mochila que supostamente estava com rapaz, o PM declarou que havia uma pistola pequena de calibre indefinido e sem numeração. A arma, segundo o policial, não estava carregada.
Além disso, o policial contou terem sido encontrados R$ 45 e um rádio “ligado na frequência do tráfico”. Na versão dele, também consta terem sido apreendidas 215 unidades de “erva seca” e 150 unidades de cocaína, além de 26 pedras de crack. A droga, garantiu o agente, estaria ligada à facção criminosa Comando Vermelho.
Também consta no relato que, ao deixar a favela, uma viatura da PM foi atingida no teto do carro. O policial explicou nenhum agente ficou ferido e “que não tem como afirmar que o preso Rafael foi o autor do disparo”. Rafael, então, teria sido levado para o Hospital Azevedo Lima, em Niterói, para receber atendimentos médicos.
De acordo com a Polícia Civil, depois da prisão em flagrante pela PM, Rafael foi autuado por associação para o tráfico de drogas, tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo. O inquérito, informou a corporação, já foi encaminhado à Justiça.
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