Justiça livra réus de chacina de Colniza (MT) de irem a júri popular

 

Três anos e dois meses após a chacina em Colniza, a noroeste de Mato Grosso, na qual nove trabalhadores rurais foram torturados e assassinados, a Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) livrou três réus de irem a júri popular -outros dois estavam foragidos na época da denúncia e ainda serão julgados. Cabe recurso.
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Os desembargadores entenderam que não existem provas suficientes contra o suposto mandante do crime, o pecuarista Valdelir João de Souza, o funcionário dele, Pedro Ramos Nogueira, e Paulo Neves Nogueira. Já o acusado Paulo Neves Nogueira acabou sendo absolvido no mérito, uma vez que os magistrados avaliaram que ele estava em outro local no momento da chacina.

O pecuarista ja havia sido foi beneficiado com a revogação do seu mandado de prisão preventiva que estava em aberto desde 2017. Ele estava foragido, sob alegação de que estava sendo ameaçado de morte. Por isso o pedido de prisão nunca havia sido cumprido. Com o julgamento, os desembargadores revogaram essa prisão.

Segundo a Promotoria, por ordem do pecuarista, Pedro, Paulo e também Ronaldo Dalmoneck e Moisés Ferreira de Souza (agora presos, por outros crimes) foram até Taquaruçu do Norte, distrito de Colniza, para assassinar as vítimas. O motivo seria que os trabalhadores rurais ergueram barracos em uma área alvo de exploração de madeira e de minério, da qual o pecuarista teria interesse em atuar –o que a defesa dele nega.

A chacina ocorreu em abril de 2017. Nove homens com idade entre 23 e 57 anos foram assassinados. Eles estavam em barracos erguidos na área rural quando foram rendidos, torturados e mortos. Dois deles foram assassinados com golpes de facão e os outros sete, com tiros de espingarda calibre 12.

As vítimas foram identificadas como Francisco Chaves da Silva, 56, Izaul Brito dos Santos, 50, Ezequias Santos de Oliveira, 26, Samuel Antônio da Cunha, 23, Francisco Chaves da Silva, 56, Aldo Aparecido Carlini, 50, Edson Alves Antunes, 32, Valmir Rangeu do Nascimento, 55, Fábio Rodrigues dos Santos, 37, e o pastor da Assembleia de Deus Sebastião Ferreira de Souza, 57.

O corpo de Valmir Rangel do Nascimento foi achado muito distante do lote em que vivia com a mulher, Iolanda, e seus dois filhos adotivos. Tinha as mãos amarradas para trás e um profundo corte na garganta. “Eu somente peço que as autoridades façam Justiça por nós, porque sozinhos não vamos vencer”, disse a viúva à Folha, em 2017.

O relator do caso, desembargador Orlando Perri, havia proferido o seu voto pela despronúncia e a absolvição sumária dos réus, sob alegação de falta de provas, além de testemunhas que comprovariam que os acusados não estavam no local do crime, naquele fatídico 19 de abril de 2017.

Os demais desembargadores acompanharam o relator em relação à despronúncia. Porém, não acataram a absolvição de Valdelir e Pedro Ramos Nogueira, o “Doca”.

AS VÍTIMAS

Sebastião de Souza, 57
Pastor da Assembleia de Deus em Guatá, distrito de Colniza a cerca de 140 km de Taquaruçu do Norte. Era um dos posseiros da linha (picada) 15, alvo de disputa. Sua casa no local já havia sido incendiada em 2014. Foi encontrado com um facão enterrado na nuca

Fábio dos Santos, 37
Trabalhava principalmente como pedreiro. Foi contratado pelo pastor Sebastião de Souza para limpar o terreno -o dia de trabalho custa cerca de R$ 55 na região. Morava em uma vila próxima e não tinha terras. Evangelista da Assembleia de Deus, deixou quatro filhos

Ezequias de Oliveira, 26
Posseiro, tinha um lote fora da área em disputa e estava no local trabalhando como diarista. Fiel da Assembleia de Deus

Edison Antunes, 32
Outro posseiro que estava no local contratado como diarista. Era diácono da Assembleia de Deus. Tinha quatro filhos

Aldo Carlini, 50
Um dos que estavam no local trabalhando como diarista. Seu lote está fora da área em conflito

Samuel da Cunha, 23
Recém-chegado de Nova Brasilândia (RO), estava no local como diarista e também tinha lote fora da linha 15

Valmir do Nascimento, 55
Um dos três mortos que tinham lote na linha 15, área do assentamento em disputa. Foi encontrado com as mãos amarradas para trás. Tinha dois filhos

Izaul dos Santos, 50
Posseiro da linha 15, palco de disputa. Estava no local desde o ano passado, quando comprou cerca de 200 hectares por R$ 110 mil. Respondia a um processo por homicídio simples. O seu filho e a nora são dois dos quatro que estavam na área da chacina e conseguiram fugir

Francisco da Silva, 56
Também estava no local como diarista. Em agosto de 2015, foi multado em R$ 115 mil pelo Ibama por ter desmatado ilegalmente 22 hectares de floresta


Com Agências