Laudo da perícia sobre ‘Caso Flávio’ com versão da morte do engenheiro é entregue à Justiça do Amazonas


Em depoimento, o policial Militar Elizeu Da Paz conta que planejava ‘”dar um susto” em Valeiko, e que convidou Mayc Parede para o acompanhar na missão, mas, a situação teria fugido do controle. Flávio Rodrigues dos Santos
Arquivo pessoal
O laudo da perícia científica do Amazonas sobre a morte do engenheiro Flávio Rodrigues, ocorrida em outubro de 2019 na casa de Alejandro Molina Valeiko, em Manaus, foi entregue à Justiça. Em depoimento, o policial Militar Elizeu Da Paz conta que planejava ‘”dar um susto” em Valeiko, e que convidou Mayc Parede para o acompanhar na missão, mas, a situação teria fugido do controle. No dia do crime, todos participavam de uma festa no local.
Ao G1, a defesa de Elizeu da Paz afirma que o caso está em fase de resposta à acusação e qualquer manifestação ocorrerá nos autos do processo. Já a família de Flávio disse não ter conhecimento do teor dos dados. A defesa de Valeiko declarou que o laudo aponta que ele não teve participação no crime. A reportagem tenta contato com a Mayc Parede.
Pouco mais de um ano após a morte de Flávio Rodrigues, dois dos cinco réus acusados pela Justiça estão presos. Mayc Paredes está em uma unidade prisional e o Policial Militar está no Núcleo Prisional da Polícia Militar. Alejandro Valeiko está fora da cadeia e, segundo a Justiça, cumpre medidas cautelares. Os três foram acusados de homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e tentativa de homicídio.
Também são réus e estão em liberdade: a irmã de Alejandro, Paola Valeiko, denunciada por fraude processual, por ter limpado a casa antes da chegada da perícia e José Edvandro Júnior, que responde por denúncia caluniosa, por conta de uma primeira versão, de invasão à casa, contada em boletim de ocorrência.
Alejandro Molina Valeiko
Alailson Santos/PC-AM
Em depoimento à Delegacia Especializada em Homicídio e Sequestro (DEHS), segundo consta no laudo, Elizeu e Mayc relatam terem invadido a casa de Alejandro, onde acontecia uma reunião entre amigos. A intenção, segundo Da Paz era assustar Alejandro.
“Tipo assim, praticando, né, consumo de drogas excessivo, dando esse transtorno que ele sempre dá (…) fui eu que tomei atitude do susto, aí eu pedi pro Mayc me acompanhar (…) eu acho que recebendo um susto, ele não tomaria mais essas atitudes (…) De tanto gostar dele que eu tomei essa atitude, para ele ter na consciência dele que ele tava errado. Quando um pai ou uma mãe tem na consciência um filho tem a intenção de corrigi-lo, eu acho que esse foi meu sentimento naquele momento”, contou Da Paz em depoimento.
Segundo o resultado pericial, Elizeu Da Paz entra na mansão por volta das 22h26, armado e utilizando uma espécie de gorro para cobrir a cabeça. Mayc permanece na área externa, próximo à porta de entrada.
Ainda de acordo com os depoimentos narrados, José Edvandro Júnior percebe a chegada dos invasores, avisa os demais e foge para a suíte localizada no setor anterior da casa e entra no banheiro, de onde pede ajuda por meio de um aplicativo de mensagens. Ele permanece no local até a chegada da Polícia Militar.
Magno sentado no sofá da sala, vê a chegada do invasor encapuzado (Da Paz) e foge em direção à rua, mas, ao passar pela porta, é ferido por Mayc, com arma branca. Ele conseguiu se desvencilhar do agressor e seguiu até a portaria, de onde pediu ajuda e ficou até a chegada da equipe médica.
Ao entrar na casa, Da Paz afirma ter visto Alejandro na sala, sentado em uma cadeira, ao lado de Flávio, que estava em outra cadeira.
Elizeu Da Paz verbaliza “cadê teu amigo?” ou “cadê a droga?” ou “cadê meu dinheiro?” e desfere golpes com a arma na cabeça de Alejandro.
Alejandro permanece de cabeça baixa e vê Flávio ser levado à força pelos invasores para a garagem. Os depoimentos coincidem que houve luta corporal entre Flávio e os invasores, antes de Flávio ser colocado no carro.
Da Paz entra no veículo, no banco da frente. Mayc fica no banco traseiro, onde imobiliza Flávio, com um golpe de artes marciais. O engenheiro foi amordaçado com fita adesiva silver tape por Mayc.
O veículo sai pela portaria em direção à estrada do Turismo e às 22h47 alcança o terreno baldio. A ideia, segundo os depoimentos dos dois, era deixar Flávio com vida fora do condomínio, pois ele estava “muito agitado”.
Em um determinado ponto, que não sabem dizer onde, Elizeu Da Paz pediu para Mayc soltar Flávio. Da Paz teria, então, descido do carro com o engenheiro e em uma distância de cinco metros do veículo, já no terreno baldio, tentou cortar a fita adesiva de Flávio e, neste momento, o engenheiro teria reagido. Os dois entraram em luta corporal. Mayc afirma que desferiu golpes de faca em Flávio. O engenheiro correu mais para dentro do terreno, enquanto Mayc voltou para o carro, passou para o banco da frente e jogou a faca no terreno.
Em suma, os dados sugerem que Flavio Rodrigues, antes de ser morto, sofreu sufocação direta por obstrução das vias orais, provavelmente com uso de fita adesiva, e, ainda sufocação indireta, possivelmente com compressão do toráx.
O laudo também aponta que exames realizados no veículo e nas amostras de sangue coletadas no interior de veículo sugerem que Flávio foi ferido e/ou transportado ferido sobre o assento traseiro, o que foi objeto de procedimento de limpeza.
Entenda o caso
O homicídio do engenheiro Flávio Rodrigues dos Santos ocorreu no dia 29 de setembro de 2019, após uma festa na casa de Alejandro Molina Valeiko, filho da primeira dama, Elizabeth Valeiko.
Na época, José Edvandro Júnior registrou boletim de ocorrência dizendo que durante a madrugada, um homem invadiu a festa, realizada no condomínio, agrediu duas pessoas, esfaqueou Magno e teria sequestrado Flávio.
O corpo da vítima foi encontrado somente no dia seguinte no bairro Tarumã, na Zona Oeste de Manaus. A descoberta do corpo em um terreno baldio no bairro Tarumã, relativamente próximo ao condomínio, pôs fim às buscas por um desaparecimento e abriu o inquérito de um assassinato.
A versão de invasão do condomínio foi descartada pela polícia por conta de depoimentos contraditórios. Uma perícia realizada na casa e imagens do circuito de câmeras do local ajudaram a derrubar a versão. Dias depois, a prisão dos suspeitos foi decretada.
De acordo com as investigações, o policial militar Elizeu da Paz de Souza, que estava lotado na Casa Militar da Prefeitura de Manaus e, conforme investigações, seria segurança de Alejandro. Na ocasião do crime, o policial estava dirigindo um carro alugado da Prefeitura.
Em setembro deste ano, o Ministério Público do Amazonas instaurou um procedimento preparatório para apurar se houve ato de improbidade administrativa praticado pelo Prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, e outros servidores da Prefeitura no caso do homicídio do engenheiro Flávio Rodrigues.
Por meio de nota, na época, a Prefeitura de Manaus disse que todas as providências administrativas necessárias à apuração dos fatos foram tomadas à época e que as informações serão levadas ao conhecimento do MPAM.
Das sete pessoas envolvidas, apenas cinco foram consideradas rés pela Justiça:
Alejandro Valeiko, de 29 anos; que vai responder por homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio, omissão penalmente relevante e ocultação de cadáver;
Elizeu da Paz de Souza, 37, policial militar que estava lotado na Casa Militar da Prefeitura de Manaus e, conforme investigações, seria segurança de Alejandro; responde por homicídio triplamente qualificado, fraude processual, tentativa de homicídio e ocultação de cadáver;
Mayc Vinicius Teixeira Parede, 37 – que confessou o crime e responde por homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio e ocultação de cadáver;
Paola Valeiko Molina deve responder por fraude processual.
José Edvandro Martins de Souza Junior, 31; que responde por denúncia caluniosa;
Elielton Magno de Menezes Gomes Junior, 22; que depois passou a ser vítima, pois foi ferido com um golpe de faca.
Vitorio Del Gatto, cozinheiro de Alejandro e que morava na residência. Em novembro, ele teve liberdade concedida por problemas de saúde.
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