Live histórica: transmissão vai mostrar ao vivo ninho de uma das aves mais raras do mundo


Pesquisadores vão compartilhar em tempo real abrigo descoberto da saíra-apunhalada; espécie exclusiva do Brasil é rara e está criticamente em perigo. Novo ninho de saíra-apunhalada foi descoberto em área particular no ES
João Prudente
É certo dizer que 2020 está sendo uma montanha-russa de acontecimentos bons e ruins. Não vem ao caso agora comparar o que sobressai, mas uma coisa é certa: entre tantas notícias negativas, surgem os fatores positivos que trazem esperança em meio ao caos. E um exemplo disso é a descoberta de um novo ninho da saíra-apunhalada (Nemosia rourei), uma ave exclusiva do Brasil que está ameaçada de extinção e é considerada uma das mais raras do planeta.
Essa espécie que não ultrapassa os 15 centímetros é conhecida pela raridade e também pela beleza. Apresenta o corpo em tom esbranquiçado, asas, cauda e máscara negras e uma mancha na região da garganta que se estende até o peito em tom vermelho vivo, que deu origem ao nome popular.
A saíra-apunhalada foi considerada um dos grandes enigmas da ornitologia. Após a descrição da espécie 1870 pelo alemão Jean Louis Cabanis, ela ficou desaparecida por mais de 100 anos. Relatos de ornitólogos como Hemult Sick e Derek A. Scott revelam avistamentos em anos distintos, mas a redescoberta e comprovação da existência dessa ave foi feita pelo ornitólogo Fernando Pacheco em 1998.
Saíra-apunhalada é uma das aves mais ameaçadas do mundo
Gustavo Magnago/ Arquivo pessoal
Os anos se passaram, mas ainda hoje essa parente das saíras e dos sanhaços continua sendo um grande mistério a ser desvendado pelos cientistas. Pouco se sabe sobre hábitos e comportamentos dela. Em 2018, pela primeira vez, pesquisadores do Instituto Marcos Daniel (responsável pela educação ambiental e por pesquisas científicas no Espírito Santo) encontraram e acompanharam o ninho da saíra-apunhalada na floresta Atlântica de Vargem Alta (ES).
Foi um feito inédito e surpreendente para todos, afinal, por meio do monitoramento os cientistas poderiam preencher lacunas sobre essa ave rara. O casal de saíras e o único filhote foram fontes ricas de informação sobre o ciclo reprodutivo, mas infelizmente não foi um caso de sucesso, pois não vingou. Neste ano, porém, os pesquisadores do Programa Saíra-apunhalada, encontraram um novo ninho. Localizado em um morro cerca de 1,5 km de distância do primeiro descoberto, dentro da área particular da Reserva Ambiental Águia Branca.
No local onde se encontra o ninho atual, funciona sinal de 4G e devido a esse fator o time vai conseguir transmitir em tempo real a rotina das saíras. “A ideia de fazer uma live surgiu do Guto Carvalho, organizador do Avistar Brasil (maior feira de observação de aves da América Latina) e juntos desenvolvemos um modelo de como será feita”, comenta Gustavo Magnago, um dos pesquisadores responsáveis pelos estudos das saíras.
Pesquisadores descobrem novo ninho de saíra-apunhalada
A transmissão vai ser feita em inglês com tradução simultânea para o português e contará com a participação de convidados especiais, como Tim Appleton, organizador da BirdFair, maior feira de observação de aves do mundo, Bennett Hennessey da ONG American Bird Conservancy e também dos ornitólogos Gustavo Magnago, Ciro Albano e Ben Phalan.
O time vai debater questões sobre a espécie e a importância de planos para conservação. O evento é uma oportunidade também de unir mais pessoas na luta para proteger a saíra-apunhalada.
“A gente quer aproveitar para divulgar o projeto e mostrar para o pessoal que está fora do país o que estamos fazendo. É importante mostrar, tanto para os brasileiros quanto para o pessoal de fora, a nossa preocupação com a espécie e quem sabe isso gere um apoio para que o projeto possa se perpetuar por mais tempo”, acrescenta Gustavo.
Ave rara leva o nome popular devido a mancha vermelha na região do pescoço
Gustavo Magnago/ Arquivo pessoal
Apesar de ser apenas o segundo ninho da saíra-apunhalada acompanhado pelos pesquisadores do Instituto Marcos Daniel, o caso já traz surpresas e novidades. “Esse ninho é diferente daquele outro, porque tem um grupo de cinco saíras cuidando. O primeiro que nós monitoramos era cuidado apenas pelo casal, então isso é uma novidade e uma grande surpresa para todo mundo”, aponta Magnago.
Dois filhotes de saíras nasceram no dia 11 de novembro e um terceiro ovo continua no ninho. De acordo com os pesquisadores, os filhotes devem ficar no máximo 15 dias no abrigo. O monitoramento está sendo feito com duas câmeras em ângulos distintos para mostrar detalhes e também a interatividade do grupo.
A transmissão inédita do ninho de saíra-apunhalada vai ser feita nesta quinta-feira (19/11) às 14h pelo canal do Avistar nas redes sociais com apoio do Instituto Marcos Daniel, Transmissora caminho do café S.A, Reserva Águia Branca, Últimos Refúgios e Parque das Aves.
Ninho encontrado pela primeira vez foi monitorado por ornitólogo
Gustavo Magnago/ Arquivo Pessoal
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