Mais da metade das vítimas de bala perdida no Rio em 2020 são menores de idade; 20 tinham menos de 11 anos

Levantamento feito pela plataforma Fogo Cruzado mostra que mesmo a suspensão das operações policiais em favelas não foi suficiente para garantir a segurança de crianças e adolescentes. Vinte crianças foram atingidas por balas perdidas na Região Metropolitana do Rio em 2020
Das mais de cem vítimas por balas perdidas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro este ano, mais da metade eram menores de idade. É o que apontam um levantamento realizado pela plataforma Fogo Cruzado, obtidos em primeira mão pela Globonews.
De acordo com o levantamento, 51 crianças e adolescentes com até 17 anos de idade foram baleadas entre 1º de janeiro e 11 de outubro na Região Metropolitana do Rio. Destas, 20 tinham menos de 11 anos de idade.
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O número é idêntico ao registrado no mesmo período do ano passado, quando não havia restrição alguma para as operações policias nas comunidades do Rio. Das 20 crianças baleadas este ano, 14 ficaram feridas e seis morreram – uma morte a mais que em 2019.
Por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), as operações policiais estão proibidas nas comunidades do Rio de Janeiro desde 5 de junho. Os dados do Fogo Cruzado mostram, então, que a medida não foi suficiente para preservar a vida de crianças e adolescentes.
Apesar da redução de mais de 40% no número de tiroteios com a suspensão das operações policiais, as crianças não ficaram mais seguras. Três das 20 baleadas estavam dentro de casa quando foram atingidas.
“As crianças não são o alvo dessa violência, mas mesmo assim elas são vitimadas. Isso mostra pra gente que o problema, o ponto a ser atacado, é justamente o descontrole da circulação de armas”, apontou a gestora de dados do Fogo Cruzado, Maria Isabel Couto.
Ainda segundo o levantamento do Fogo Cruzado, o número de adolescentes baleados em 2020 diminuiu 60% em relação ao ano passado. Mas, essa estatística certamente não reflete a dor das 31 famílias que viram seus adolescentes mortos ou feridos.
A última delas foi a família do menino Leônidas Augusto da Silva de Oliveira, de 12 anos. Ele foi atingido por um tiro quando estava indo ao mercado, com a avó, na Avenida Brasil, Zona Norte do Rio. Uma tragédia que se repete e que evidencia um problema muito maior: o tráfico de armas, muitas vezes de guerra.
Para o antropólogo especialista em segurança pública Paulo Storani, o país precisa reforçar a fiscalização nas suas fronteiras, secas e molhadas, e pensar ações efetivas para combater a circulação de armamento no país.
“Um dia, quem sabe, nós poderemos pensar na retirada dos fuzis dos policiais, quando não houver mais fuzil nas mãos de criminosos. Porque precisa, necessariamente, haver uma equivalência bélica para a polícia poder enfrentar a letalidade tão grande que encontra nos centros urbanos, principalmente no Rio de Janeiro”, disse Storani.
A Secretaria Estadual de Segurança do Rio de Janeiro informou que a Polícia Militar apreendeu mais de 4,8 mil armas de fogo no estado este ano e que, diante da decisão do STF, houve a necessidade de um realinhamento estratégico das operações. Como consequência, segundo a pasta, foi observado um aumento nos confrontos entre criminosos rivais.
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