Mais trabalho, aulas digitais e falta de contato: a rotina dos professores na pandemia

Em meio a um ano atípico imposto pela pandemia do novo coronavírus e aos impasses sobre o retorno das aulas presenciais, professores de Santa Catarina vivem novas experiências e enfrentam desafios inéditos em suas carreiras. Para ouvir suas histórias e mostrar um pouco da vida desses profissionais, o ND+ conversou com docentes de diferentes regiões do Estado para refletir neste 15 de outubro, Dia do Professor, acerca desta nova realidade.

O ensino por meio de telas

“Ouvir alunos dizendo que a aula foi muito boa é o que me move para continuar”. A declaração é da professora voluntária do curso de Psicologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Suzana da Rosa Tolfo, 58 anos. Mesmo durante a pandemia, ela, que já é aposentada, segue firme no compromisso acadêmico com estudantes e colegas.

Professora aposentada Suzana da Rosa Tolfo mantém o compromisso de ensinar seus alunos – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND

Sem aulas presenciais desde março, Suzana e a maioria dos professores do País tiveram que se adaptar a uma nova vivência: ensinar por meio de telas. Segundo ela, foi muito estressante ter de se adequar às novas plataformas digitais em tão pouco tempo e foi preciso aprender a usar quatro canais online simultaneamente. No entanto, relata que a maior dificuldade foi a falta de interação com os estudantes, fundamental para a aprendizagem.

“Complicado ter que falar e olhar os quadradinhos das câmeras com as luzes apagadas, sem saber sequer se o aluno está acordado”, destaca Suzana .

Para continuar a lecionar, a professora acredita que buscar o equilíbrio é indispensável. “É necessário se desligar, há uma sobrecarga. Teremos sequelas. Temos esse sofrimento e reconhecê-lo torna-se o mais importante”, pontua, especialmente em relação ao período da pandemia.

Realidade parecida é a enfrentada pelo professor de química Lauro Clasen, de 56 anos, que também reclama da falta de contato com as turmas. Ainda assim, acaba respondendo os estudantes fora do seu horário, o que contribui para uma carga horária ainda mais pesada.

“O mais grave, em minha opinião, é a falta de participação dos alunos. De 90, seis ou oito estão ali. Se chegar em 20% em uma aula a gente fica contente”, lamenta.

Professor do ensino médio na rede estadual em São José, na Grande Florianópolis, Clasen não tinha uma estrutura preparada em casa para dar aulas virtuais. Por isso, apesar de ter um notebook e acesso à internet, investiu do próprio bolso em uma mesa digitalizadora de
R$ 500 para escrever melhor as resoluções dos exercícios.

Suporte nas aulas

Lauro ressalta que, aliado à pouca interação dos estudantes, outro grande problema na nova rotina é a falta de apoio da escola na instrução dos professores para utilizarem de maneira mais eficiente os recursos oferecidos nos meios digitais.

“Eles disponibilizaram alguns sites, plataforma do Google Classroom e montaram todas as salas, mas não há nenhum apoio a casos específicos”, diz o professor Lauro Clasen.

Para tornar o conteúdo mais dinâmico e manter o aluno interessado, a rotina de preparação das aulas ficou mais intensa e exaustiva. Ele se dedica a fazer quizes e a encontrar vídeos que tenham relação com as matérias para despertar e manter a atenção dos alunos.

O professor conta que apesar de ter tido uma semana de treinamento para se familiarizar com os recursos disponíveis, ainda há dificuldade para lidar com muitos deles. “Utilizo três: o quiz, a postagem de material e os formulários. Mas tem coisas que acontecem que não sei ainda o porquê e nem tenho  para quem perguntar”, afirma.

Já a experiência vivida por Elizabete Dal Piva, de 52 anos, professora da rede municipal de Chapecó, no Oeste do Estado, é um pouco diferente. Ela afirma que nunca sentiu dificuldade em acessar as plataformas virtuais, mas, se tivesse, poderia contar com o apoio do grupo pedagógico disponibilizado pelo município para o auxílio dos docentes em caso de dúvidas.

Professora de Chapecó lamenta angústia de não saber o porquê de os alunos não entregarem as atividades – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/ND

Elizabete aponta ainda que o professor pode ir até a escola preparar e ministrar as aulas se não tiver estrutura em casa. “Se não tem internet, a escola está aberta, então, poderia trabalhar de lá mantendo todos os cuidados que o momento exige”, assegura.

O que sentem os professores

Embora bem adaptada às aulas online, a professora  de Chapecó destaca que sua maior aflição dentro desse novo contexto é o fato de que muitos alunos não entregam atividades desde março. “São vários sentimentos, principalmente angústia, porque teremos que avaliar esses estudantes. Mas não sei as motivações do desinteresse, ou a falta delas, e não tenho como ajudar mais”, afirma.

Ela acredita ainda que 2021 será um enorme desafio do ponto de vista do acolhimento dos estudantes, visto que muitos não estão a par dos conteúdos. Mas apesar de todas as dificuldades que 2020 trouxe, a professora não se imagina em outra profissão.

“Sou apaixonada pelo que faço. Estou fazendo doutorado em Educação e amo isso. Não saberia fazer outra coisa, nem tenho vontade”, garante Elizabete.

O que dizem os alunos

Para o mestrando em Educação da UFFS (Universidade Federal Fronteira Sul de Chapecó) Vitor Sabbi, de 24 anos, os professores acionam poucos recursos porque realmente não sabem usá-los. “Mas isso não atrapalha o andamento das aulas”, diz.

Algo que chamou sua atenção é que os profissionais têm trabalhado mais. “Já recebi e-mails num domingo à noite. Vejo os professores respondendo mensagens na mesma hora, às vezes, nos finais de semana, trabalhando muito fora do horário”, destaca Sabbi, que começou o mestrado durante a pandemia.

Na graduação, a percepção sobre o trabalho extra feito pelos professores é a mesma. A estudante de Letras/Inglês da UFSC Amanda Casemiro, 26 anos, conta que já parabenizou muitas vezes suas professoras pela qualidade dos materiais.

“Acho que eles estão dando um show, não senti nenhuma diferença entre a sala de aula e o ensino não presencial. Tem gente que está indo além, trazendo palestrantes que não teriam como estar no ambiente escolar”, enaltece.

Aluna da graduação, Amanda Casemiro admira o empenho de suas professoras em planejar atividades durante a pandemia – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação ND

Amanda também é professora de inglês na rede privada de Florianópolis e também precisou gravar aulas e usar as plataformas digitais para ensinar. “No início me senti meio perdida, mas a escola em que leciono sempre me deu muito apoio. A vantagem é que eu já tinha conhecimentos de edição de vídeo”, aponta.

Apoio aos professores

De acordo com Luiz Carlos Vieira, coordenador estadual do Sinepe (Sindicato dos Profissionais da Educação de Santa Catarina), o governo deveria disponibilizar aparelhos como tablets e smarthphones, assim como acesso a redes de internet a todos os professores.

Outra preocupação da entidade é a saúde mental dos educadores. “Eles têm sofrido com a própria pandemia e o isolamento, e ainda trabalhado muito mais. Além disso, fazem as atividades dentro da rotina doméstica, o que dificulta o processo”, constata.

Pensando no retorno presencial das aulas, o coordenador destaca um estudo do sindicato, feito em parceria com a UFSC, sobre a saúde mental da categoria. A pesquisa Saúde Docente, realizada em junho de 2020, mostra que 93,3% dos entrevistados afirmam que aumentou o trabalho durante a pandemia e 44,3% não possuem local adequado para realizar as atividades virtuais.

Além disso, dos 1.361 entrevistados, 886 responderam que sentiram ansiedade e insegurança psicológica no trabalho durante a pandemia. Segundo Vieira, a intenção do estudo é “reivindicar apoio à saúde mental dos professores” para quando houver o retorno às atividades presenciais.

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