Martinho transita entre avenidas, ruas e terreiros nos contornos cariocas do álbum ‘Rio: só vendo a vista’


Com cinco músicas inéditas e sete regravações, o disco apresenta esboços da arquitetura da obra grandiosa do compositor fluminense de 82 anos. Capa do álbum ‘Rio: só vendo a vista’, de Martinho da Vila
Arte de Lan
Resenha de álbum
Título: Rio: só vendo a vista
Artista: Martinho da Vila
Edição: Sony Music
Cotação: * * *
♪ Dono de obra grandiosa que gravita em torno da cadência plural do samba, com incursões por outros gêneros musicais, Martinho da Vila é dos maiores compositores da música popular do Brasil. Alicerçado desde 2019, o álbum Rio: só vendo a vista – 55º título da farta discografia do artista fluminense de 82 anos – chega ao mercado fonográfico nesta sexta-feira, 20 de novembro, com capa que expõe os contornos cariocas do traço do caricaturista Lan (1925 – 2020) e com repertório que apresenta esboços da arquitetura da obra monumental de Martinho.
“O negócio é sambar de qualquer maneira / Até encontrar cadência”, avisa o partideiro de alta estirpe, em versos da letra que escreveu para a música Na ginga do amor, parceria com Moacyr Luz apresentada por Luz há dois anos no álbum Natureza e fé (2018) com a voz do próprio Martinho.
Temperado na regravação do álbum Rio: só vendo a vista com um toque sutil de maxixe e outro de calango, Na ginga do amor é samba cujo balanço manemolente evoca cadências seminais dos pioneiros bambas Donga (1889 – 1974), João da Baiana (1887 – 1974) e Pixinguinha (1897 – 1973).
O baixo teor de novidade do repertório desse disco inspirado pela cidade do Rio de Janeiro (RJ) – somente cinco músicas inéditas em 12 faixas – sinaliza que Rio: só vendo a vista é álbum quase revisionista, de entressafra. Contudo, dá para encontrar e reconhecer de imediato a cadência típica do compositor, acariocado fluminense de Duas Barras (RJ), no samba-enredo que abre o álbum, Vila Isabel, anos 30 (1985).
Composto por Martinho com o bamba Luiz Carlos da Vila (1949 – 2008), o samba-enredo foi preterido em eleição da Unidos da Vila Isabel, tendo sido apresentado em disco pelo parceiro há 35 anos em gravação feita por Luiz Carlos da Vila, com participação do próprio Martinho, para o álbum Pra esfriar a cabeça (1985).
Vila Isabel, anos 30 já tinha sido incluído por Martinho no repertório do recente CD e DVD Enredo (2014), o que corrobora a sensação de que o álbum Rio: só vendo a vista foi feito com rigor menor do que o visto na discografia do artista.
Cabe ressaltar que Luiz Carlos era da Vila da Penha, não da Vila Isabel incorporada por Martinho ao sobrenome artístico pelo amor à escola de samba Unidos de Vila Isabel. A propósito, a segunda faixa do álbum é outro samba-enredo preterido pela escola, O Rio chora, o Rio canta, até então inédito em disco. O enredo versa sobre a transferência da capital do Brasil do Rio para Brasília (DF) a partir dos anos 1960.
Pequeno diante das grandes contribuições de Martinho para o gênero, o samba-enredo foi gravado com arranjo que combina o toque do pandeiro, o ronco da cuíca e a pegada seresteira de violão destacado na primeira parte da faixa.
Martinho da Vila grava no disco dois sambas-enredos preteridos pela escola Unidos de Vila Isabel
Leo Aversa / Divulgação
Letrada pelo poeta Geraldo Carneiro, que cita soneto de Luís de Camões (1524 – 1980) em verso (“O Rio é um fogo que arde sem se ver”) da letra que mapeia o Rio com exaltação e alguma dose crítica (“O Rio às vezes é um grande abacaxi / De São Conrado a São João de Meriti”, diz verso que põe a Baixada Fluminense no mapa carioca em nome da rima), a inédita música-título Rio: só vendo a vista tampouco se impõe na obra de Martinho.
O toque sinuoso de baixo introduz Minha Preta, minha Branca, samba (também inédito) de cadência sensual em que Martinho celebra a mulher, Cleo. O compositor já se mostrou mais sedutor nessa seara.
Parceria de Martinho com Candeia (1935 – 1978) lançada na voz de Beth Carvalho (1946 – 2019) no álbum De pé no chão (1978), o samba Você, eu e a orgia é ambientado em clima rural na gravação em que Martinho dialoga com as filhas Analimar, Juliana, Maíra Freitas e Mart’nália, cujas vozes são recorrentes nos coros do disco. “Na minha casa, todo mundo é bamba / Todo mundo bebe, todo mundo samba”, acrescenta Martinho à letra, citando marotamente o sucesso inicial Casa de bamba (1968).
Inédito, o samba O caveira tem cadência mais lenta e a voz de Verônica Sabino, cantora carioca que montou recentemente show com o repertório de Martinho da Vila. Verônica bisa a participação no disco ao dividir com Martinho o canto de Pensando bem (1982), samba que expõe dilema moral. Com temática social infelizmente cada vez mais atual, Pensando bem é parceria do compositor com João Aquino apresentada por Martinho no álbum Verso… Reverso (1982).
Martinho da Vila em estúdio com os filhos na gravação do álbum ‘Rio: só vendo a vista’
Reprodução / Instagram Mart’nália
Na sequência do enredo do disco, Martinho prossegue em linha social ao lado de Mart’nália, que encarna a Menina de rua do título desse samba composto por Martinho com Rildo Hora e lançado em 1985 no álbum com a trilha sonora do musical infantil Você não me pega, idealizado por Rildo e Martinho, mas nunca encenado. No contexto do álbum atual, Menina de rua soa como alerta para o inaceitável retrato carioca do abandono de crianças ao relento nas ruas da cidade.
Outro samba de Martinho da Vila com Candeia, Eterna paz (1979) evidencia o viço do canto do bamba na regravação, em arranjo de voz e cavaquinho, desse samba que versa sobre a transcendência da existência através do sono da morte.
Afro-samba apresentado na voz matricial de Clementina de Jesus (1911 – 1987), em gravação de 1979 feita em dueto com o próprio Martinho da Vila, Assim não, Zambi traz o batuque mais ancestral para o disco, com a voz de Maíra Freitas, em sintonia com a faixa final, Umbanda nossa, em que ressoam os sons dos atabaques, saudando entidades da religião de inspiração africana criada no Rio.
Celebrando os alicerces musicais e espirituais da cidade, Umbanda nossa é a composição mais inspirada dentre as cinco músicas inéditas deste Rio: só vendo a vista, disco afetuoso em que Martinho, em essência, saúda pretos velhos e o batuque do samba, ritmo dos terreiros e da cidade da bossa nova.
É essa cidade plural que Martinho da Vila celebra ao transitar com intimidade por avenidas, ruas e terreiros nos contornos cariocas do álbum Rio: só vendo a vista.
Tags .Adicionar aos favoritos o Link permanente.