Micro e pequenas empresas se reinventam com a pandemia

Antes da pandemia, 50% das micro e pequenas empresas do país já usavam algum canal digital para vender; por causa da crise, 15% começaram a vender assim também. Micro e pequenas empresas se reinventam com a pandemia
Algumas das mudanças que a pandemia trouxe vieram para ficar. Muitas atividades que eram essencialmente presenciais migraram para as telas de computador e do celular. A gente vê na segunda reportagem da série especial que o Jornal Nacional apresenta nesta semana.
A pandemia silenciou muitas empresas. Umas, porque foram encerradas. Outras, porque se transformaram. Em vez de reabrir, mantiveram os funcionários trabalhando em casa. Muitos deles correram para internet para comprar cadeira de escritório. As vendas aumentaram 4.000% entre abril e junho. Investimentos para novos tempos.
Gente que andou comprando pela internet, e não só cadeiras, não parou mais. Estudos mostram que, mesmo com a reabertura das lojas, o comércio eletrônico continuou vendendo bem mais do que vendia antes.
“A tendência é que esse movimento realmente veio para ficar e que, mesmo com as alterações e reabertura das lojas físicas, o consumidor com certeza vai continuar comprando online”, avalia André Dias, presidente da Neotrust/Compre&Confie.
A gente está ansioso para que a vida possa voltar ao que era, para sair sem máscara, passear, fazer compras, não precisar mais ter medo de aglomerações. Voltar a ver, no comércio popular, aquela velha cena que lembra a de uma procissão, uma romaria, com centenas de milhares de pessoas fiéis a uma causa: comprar e pagar barato.
Mas será que tudo vai voltar a ser como era?
“Não volta. O modelo de comportamento de consumo já mudou”, analisa Alexandre Marquesi, professor de e-commerce da ESPM.
“O mercado não vai voltar mais a ser o que era antes. A transformação digital veio para ficar”, afirma Wilson Poit, diretor-superintendente do Sebrae-SP.
Transformou até o que era essencialmente presencial.
“A gente nunca tinha cogitado trabalhar com delivery, até porque nosso trabalho todo é em volta de reunião de pessoas, das pessoas vindo dividir um bom vinho. E a gente foi forçado a planejar de dia para a noite basicamente uma operação toda que a gente nunca esperava fazer”, explica o empresário Dominic Parry.
O bar de vinhos no Rio de Janeiro colocou o cardápio em redes sociais e passou a entregar na casa dos clientes. Agora, o bar já reabriu, mas diferente.
“O delivery a gente com certeza vai continuar, a gente vê que a gente tem clientes que são talvez apenas no delivery agora, que não são necessariamente pessoas que vão vir até a gente”, conta Dominic Parry, empresário.
“Quem não estava online, quem não vendia através do delivery tem que fazer agora. E vai ficar para sempre”, analisa Wilson Poit.
Só no estado de São Paulo, consultores do Sebrae, trabalhando em casa, estão atendendo 11 mil micro e pequenos empresários por dia. É três vezes mais do que antes da crise. Uma das principais dúvidas é sobre como colocar o pequeno negócio no mundo digital.
“Todo mundo quer aprender a vender, a se conectar ao delivery, a entregar as coisas em casa ou entender o que o cliente está precisando agora que ele está em uma nova rotina”, destaca Wilson Poit.
Antes da pandemia, 50% das micro e pequenas empresas do país já usavam algum canal digital para vender: aplicativos, mensagens, sites, redes sociais; 15% começaram a vender assim agora por causa da crise; 16% ainda não usam canais digitais, mas gostariam. Apenas 19% não pretendem usar.
Até um grupo de mensagens por aplicativo já é um caminho.
“Pode ser seu pai, sua mãe, seu filho, papagaio, vizinho, amigo. Se você tiver dez, já começou teu grupo de vendas. É assim que começa, pequeno, mas começa. Não espera quando voltar. Porque não vai voltar. O mundo já mudou”, avalia Alexandre Marquesi.
A Andrea faz, em casa, bolos e doces para festas. Já usava redes sociais para vender. Mas as festas mudaram e o produto dela precisou mudar também.
“Os bolos eram grandes, às vezes dois, três andares. Então diminuiu o tamanho do bolinho, fazer menos doces e aí a gente fez um pacotinho e esse pacotinho acabou virando esses kits que eu estou comercializando hoje”, explica a confeiteira Andrea Ballardin.
A pandemia que está transformando produtos e negócios também mudou a nossa relação com alguns serviços.
“Antes eu tinha uma rotina de semanalmente ir ao salão para fazer as unhas e, pelo menos uma vez por mês, ir para o salão para fazer o cabelo, para cuidar, hidratação, alguma escova”, conta Sabrina Aimee, publicitária.
Para não sair de casa, a Sabrina acabou se tornando sua própria cabeleireira e manicure.
“Comprei alguns esmaltes, alicate, lixa; comprei também bastante produto para cabelo vendo os vídeos na internet. Muitas coisas que eu não fazia, que eu não tinha noção, agora eu precisei aprender, a gente tem que se adaptar”, afirma Sabrina.
No comércio eletrônico, as vendas de alguns produtos para unhas e para depilação tiveram aumento de 2.000% entre abril e junho, comparando com o mesmo período de 2019. Alguns produtos de jardinagem e materiais de construção venderam 1.000% a mais.
A mãe da Sabrina precisava de uma pintura nas paredes de casa. Lá foi a filha aprender mais isso.
“A gente não ia chamar pessoas para fazer essa pintura por causa do isolamento, do período de pandemia. Foi um grande desafio, assim, é um trabalho bem pesado, digamos assim, mas a gente conseguiu ter um momento legal, uma história marcada, foi bem bacana e a pintura ficou boa, o que é o melhor, o mais importante”, conta Sabrina.
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“As pessoas sempre escolherão uma história que as ajude a sobreviver e prosperar.”