Mourão e outros governistas que já acenaram à Coronavac

O vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, provocou grande repercussão ao afirmar, em entrevista a VEJA na edição desta semana, que tomaria a vacina Coronavac, contra a Covid-19, que será produzida pelo governo de São Paulo em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, e que o governo federal vai comprar o imunizante se ele for aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A fala de Mourão foi a mais importante de um membro do governo até agora a fazer um contraponto ao presidente Jair Bolsonaro, que vem afirmando que não comprará a vacina mesmo que ela seja aprovada pelos órgãos sanitários.

Outros membros do governo – ou aliados – já haviam, no entanto, sinalizado a favor da Coronavac, mesmo que de forma menos incisiva do que Mourão. O primeiro foi o próprio ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, no dia 20 de outubro, após uma reunião com governadores sobre o tema. “A vacina do Butantan será a vacina brasileira’, disse depois de assinar um protocolo de intenções para a compra do produto e sua inclusão  no Programa Nacional de Imunização. No dia seguinte, no entanto, foi desautorizado pelo presidente Bolsonaro.

O presidente da própria Anvisa, Antônio Tostes Barra, que participou da reunião, foi na mesma linha ao dizer que a população poderia confiar em uma vacina autorizada pelo órgão. “Espero que a população continue confiando pelo menos na instituição que presido, que é quem tem a responsabilidade de dizer a um pai de família: ‘Vacine sua família’. Dizer a uma mãe: ‘Vacine seus filhos, tome sua vacina’. Espero que a população nunca perca a confiança na Anvisa, justamente por isso me agarro e não abro mão da ciência, e deixo a política para os políticos”, afirmou em entrevista ao jornal O Globo na quarta-feira, 28.

Na quinta-feira, 29, durante uma tumultuada audiência online na Câmara dos Deputados, o ministro Paulo Guedes (Economia), defendeu a importância de haver uma vacina – ele não citou a Coronavac, mas afirmou que o próprio governo de São Paulo teria de pagar por ela. “Só estaremos livres quando a vacina surgir, enquanto isso continuaremos vulneráveis e ameaçados (…). Agora, nós já mandamos bastante dinheiro para São Paulo. Tomara que São Paulo encomende, pague a vacina e vacine a sua população”, disse. “Pede dinheiro para fazer vacina, agora pede dinheiro para eu pagar, para mandar para São Paulo de novo. Já mandamos dinheiro de saúde para São Paulo”, completou.

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Ao ser questionado se tomaria a vacina, Guedes disse que é contra a obrigatoriedade e que tomar ou não é uma decisão pessoal. “Eu sou um liberal, acredito que a vacina é uma decisão voluntária de cada um. Se o sujeito prefere ficar trancado em casa seis anos, não trabalhar, não tomar vacina nenhuma, problema dele. Se ele sair e quiser tomar três vacinas, ele toma”, afirmou.

Governadores

Dois dos pouco governadores aliados do presidente também defenderam a Coronavac logo após participarem da reunião desautorizada por Bolsonaro. “A melhor notícia do ano, sem nenhuma dúvida! A vacina contra a Covid-19 vai estar disponível a partir de janeiro em todos os estados brasileiros. Primeiramente, serão 46 milhões de doses da vacina Butantan – Sinovac/Covid-19”, afirmou Ronaldo Caiado (DEM), de Goiás, em vídeo postado no Twitter logo após o encontro. Romeu Zema (Novo) também publicou um vídeo no mesmo dia dizendo que Minas Gerais estaria pronto para distribuir a vacina e fornecê-la a todos os mineiros.

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), diz que a Coronavac é ‘a melhor notícia do ano’Reprodução/Twitter

Candidato a prefeito de São Paulo apoiado por Bolsonaro, Celso Russomanno (Republicanos), de São Paulo, também manifestou, em sabatina do projeto VEJA E VOTE, opinião discordante do seu padrinho político. “Com relação à vacina, seja ela chinesa ou qualquer outra, precisa passar pelos testes e pela Anvisa. Não vejo problema nenhum, desde que a vacina seja comprovadamente bem-sucedida, aí não teria problema nenhum em ter a vacina na cidade de São Paulo, inclusive com campanha de orientação para que as pessoas se vacinassem”, declarou. “Quanto à procedência da vacina não tenho problema nenhum, tem vários laboratórios trabalhando em relação a isso, estamos torcendo para que o mais rápido possível termos uma vacina que seja realmente eficaz”, completou.

Mourão x Bolsonaro

Na entrevista a VEJA, no entanto, Mourão foi o mais enfático de todos os governistas na oposição ao que pensa o presidente Jair Bolsonaro. “Essa questão da vacina é briga política com o Doria. O governo vai comprar a vacina, lógico que vai. Já colocamos os recursos no Butantan para produzir essa vacina. O governo não vai fugir disso aí”, afirmou. Questionado se teria algum receio de tomar alguma vacina que venha da China, respondeu: “Não, desde que esteja certificada pela Anvisa. Não tem problema nenhum”.

No dia 21 de outubro, Bolsonaro foi muito claro, em entrevista à Jovem Pan, que o governo não comprará a vacina nem se ela for aprovada pela Anvisa. “Da China nós não compraremos. É decisão minha”, disse. (…). “Há outras vacinas mais confiáveis. Então, está encerrado esse assunto”, completou. Na quinta-feira, 29, durante a tradicional live semanal nas redes sociais, ele chegou a dizer que a vacina era do governador João Doria (PSDB), seu desafeto político. “Eu que sou governo, o dinheiro não é meu, é do povo, não vai comprar a sua vacina também não, tá ok? Procura outro para pagar a tua vacina aí”, declarou.

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