Novas divas, techno x rock, som de arena: como ‘Laços de família’ explicou a música do ano 2000


Diálogo entre Edu e Camila sobre Britney, Christina Aguillera e Bon Jovi viralizou com reprise. Cena pouco sutil ajuda a relembrar e entender as mudanças que aconteciam no pop da época. Em cima, Vera Fischer (Helena), Reynaldo Gianecchini (Edu) e Carolina Dieckmann (Camila). Embaixo, os temas da conversa em ‘Laços de família’: Britney x Christina Aguilera, Bon Jovi e o techno de artistas como Aphex Twin
Reprodução TV Globo / MTV EUA e Divulgação
Uma nova era de ouro se abria para as cantoras pop, ídolos de meia-idade voltavam a ganhar moral no rock, mas defensores do estilo alertavam para uma perigosa ameaça: o techno.
Uma cena de “Laços de família” que citava Britney Spears, Christina Aguilera, Bon Jovi e música eletrônica no ano 2000 ajuda hoje a entender em que pé estava a cultura pop de 20 anos atrás.
O diálogo viralizou nas redes nos últimos dias com a reprise da novela. Ela mostra de forma nada sutil a desconexão entre Helena e o namorado mais jovem Edu, que falava a língua da filha dela, Camila.
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O papo também ajuda a explicar a personagem Camila através de referências musicais. Ela preferia Christina a Britney. Na época, a primeira ascendia como uma estrela teen menos inocente.
Camila e Edu se encontravam no gosto por Bon Jovi, um rock mais adulto que retomava espaço, e no desgosto pelo techno, vertente eletrônica que florescia e era vista como ameaça à canção tradicional.
Ou seja: eles eram antenados, mas moderados. Se na época a conversa marcava as personalidades da novela, hoje ela explica três movimentos do pop do ano 2000 que têm consequências ainda hoje:
1 – Novas divas e embate Britney x Christina
Britney Spears no clipe de ‘Sometimes’, música lançada em abril de 1999
Divulgação
Hoje é fácil falar sobre cantoras pop para entender a personalidade do interlocutor. As paradas são cheias de jovens divas de todo tipo. O estouro de Britney na virada do milênio preparou esse terreno fértil.
Claro que Madonna e outras já tinham feito revoluções, mas em 1999, o pop descarado de “…Baby One More Time” e “Sometimes”, faixa citada por Edu e Camila, mostrou um novo potencial deste mercado.
Britney, porém, ainda era a cantora “boazinha”, e concorrentes vieram ocupar outros espaços. Christina Aguilera lançou “Genie in a bottle” em 1999 e despontou como uma opção mais apimentada.
Se Britney representava os Beatles naquele universo, Christina era os Rolling Stones. Surgiram opções à direita (a comportada Kelly Clarkson) e à esquerda (a criativa Pink) e se firmou outro nome central: Beyoncé. A porta para novas divas pop nunca se fechou.
Vieram Taylor Swift, Katy Perry, Rihanna, Lady Gaga, Ariana Grande, Miley Cyrus, Lana Del Rey, Billie Eilish… O papo de 30 segundos de Edu tentando definir Camila como um single de cantora pop poderia tranquilamente durar meia hora se fosse hoje.
2 – Rock para as arenas
Bon Jovi no clipe de ‘It’s my life’, música definida como ‘linda’ por Edu na novela ‘Laços de família’
Divulgação
“Prefiro Bon Jovi”, diz Camila a Edu, após falar das divas. Foi um acréscimo ao perfil “antenada, porém madura”: além de preferir a cantora pop mais ousada, ela gostava mesmo era de rock.
É provável que, pela idade, Camila tenha gostado do Bon Jovi de cabelos armados e canções ultra-românticas que era fenômeno adolescente entre o fim dos anos 80 e início dos 90.
Mas o vocalista Jon Bon Jovi estava em nova fase: carreira solo mais madura e de surpreendente sucesso. Após a ascensão e a queda da geração grunge e alternativa, ele voltava a ter espaço.
Além disso, o tal “hard rock suave” era perfeito para um movimento forte nos anos 2000: o show como elemento central da indústria, em vez dos discos, com a venda afetada pela pirataria.
Falar de Bon Jovi e outros veteranos voltou a ser legal para certo público.
Talvez Camila e Edu não soubessem na época, mas ir a um show do Jon Bon Jovi de área VIP, mesmo por preço salgado, seria um programa perfeito para eles anos depois.
3 – A ameaça do techno
Clipe de ‘Come to daddy’, do Aphex Twin
Divulgação
“Hoje em dia só se ouve techno”, diz Camila. “Uma pena, porque a música vai perdendo a identidade”, responde Edu. Era um papo super comum que deve ter acontecido em muitas mesas de restaurante em 2000.
Artistas de big beat como Prodigy e Chemical Brothers estavam no auge da criatividade e do sucesso, mas também da rejeição por quem defendia a tal “identidade” da canção tradicional.
O techno era um fantasma que ia matar o rock. O clipe de “Come to daddy”, do DJ Aphex Twin, lançado três anos antes, dá o tom de terror a essa ameaça.
Mas, ao contrário dos dois pontos anteriores, essa conversa ficou datada no ano 2000. Os DJs não mataram ninguém e a música eletrônica foi incorporada pelo rock e pelo pop. Do techno à EDM, a eletrônica deixou de assustar virou mainstream.
De U2 a Lady Gaga, de Radiohead a Ariana Grande – e Britney -, muita gente foi buscar a tal “identidade” na música eletrônica. Num remake atual, é difícil pensar em Edu dizendo uma coisa dessas, e fácil imaginar ele e Camila curtindo um technozinho.
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