O fã-clube autoritário de Trump no exterior


Entenda por que líderes populistas e de extrema direita torcem pela reeleição de presidente americano. Imagem de 2017 com os premiês Prayut Chan-o-Cha (Tailândia) e Nguyen Xuan Phuc (Vietnã), presidentes Donald Trump (EUA) e Rodrigo Duterte (Filipinas), premiê Lee Hsien Loong (Cingapura) durante encontro da cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN)
Manan Vatsyayana/ Reuters
Em quatro anos no comando da Casa Branca, o presidente Donald Trump reduziu a liderança dos EUA no cenário mundial, retirando o país de acordos multilaterais como o do clima e o do Irã. Cortou verbas que patrocinavam programas sociais e científicos, rebaixando a importância de organizações internacionais como a ONU, a OMS e a Otan. É natural que os aliados que torcem por sua reeleição sejam líderes de estirpe populista, nacionalista ou extrema direita.
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Aliados tradicionais europeus demarcaram distância dos EUA durante a presidência de Trump, cederam vez a líderes que compartilham o culto à personalidade, o desprezo por opositores e uma máquina que propaga teorias da conspiração.
Na lista dos cabos eleitorais estrangeiros de Trump, estão o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, os primeiros-ministros de Israel, Benjamin Netanyahu, da Índia, Narendra Modi, e da Hungria, Viktor Orbán. Todos saem perdendo como o eventual retorno dos democratas à Casa Branca.
O presidente americano se gaba de ter a preferência de ditadores como Kim Jong-un, da Coreia do Norte ou o rei saudita Mohammad bin-Salman, por ser mais durão com eles do que seus antecessores.
“Posso afirmar com certeza que os presidentes Xi Jinping, Putin, Kim Jong-un e outros 40 líderes não querem lidar com o Joe Dorminhoco”, bradou esta semana num comício de campanha, ao referir-se a seu adversário democrata, o ex-vice-presidente Joe Biden.
Traduzindo: na lógica de Trump e seus seguidores, ser admirado por líderes autoritários dá a ele as credenciais necessárias para ser reeleito. Em seu terceiro mandato consecutivo, o premiê húngaro minou as instituições democráticas, reprimiu meios de comunicação, perseguiu minorias e opositores, tornando-se alvo frequente de advertências e processos da União Europeia. Ele não esconde a admiração pelo presidente americano.
“Torcemos pela vitória de Trump porque conhecemos bem a diplomacia dos governos democratas dos EUA, construída sobre o imperialismo moral”, declarou Viktor Orbán em setembro.
Acusado por grupos de direitos humanos por impor a cultura da impunidade na sua guerra contra as drogas nas Filipinas, o presidente Duterte, que já mandou Obama ir para o inferno, convocou os filipinos com nacionalidade americana a votarem em Trump. “Ele é um bom presidente, merece ser reeleito.”
Réu em três processos por corrupção na Justiça e permanentemente em luta para assegurar sua sobrevivência política, o premiê Benjamin Netanyahu já definiu o presidente americano como o melhor amigo que Israel já teve na Casa Branca. Sabe que, assim como Barack Obama, Joe Biden não lhe fará a vida fácil.
Trump rompeu com políticas de mais de meio século, alinhadas por seus antecessores para o Oriente Médio, proporcionando benesses ao atual governo israelense: a mudança da sede da Embaixada americana para Jerusalém, o aval para anexação das Colinas do Golã e uma proposta de acordo de paz que beneficiava os interesses de Israel, em detrimento dos palestinos.
O presidente americano patrocinou, por outro lado, a normalização das relações de Israel com os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e o Sudão. Uma semana antes do pleito nos EUA, Trump foi adiante, prometendo aos israelenses que, se reeleito, promoverá a paz com mais dez países árabes.
Por fim, entre os brasileiros, não causa qualquer surpresa o prestígio que o presidente americano tem com seu homólogo Jair Bolsonaro, frequentemente referido como “Trump dos trópicos”. Ambos compartilham crenças calcadas no populismo, que durante a pandemia do novo coronavírus se expressaram vivamente no negacionismo e em desafios à ciência.
O alinhamento e a devoção fervorosa de Bolsonaro por Trump preocupam diplomatas, que preveem o Brasil mais isolado no cenário internacional, caso ele não seja reeleito no dia 3. No último debate presidencial, Biden cogitou uma ajuda de US$ 20 bilhões para o Brasil e ameaçou o país com sanções se a devastação da Amazônia não seja contida. Bolsonaro reagiu mal ao alerta.
A aproximação com líderes autoritários mereceu uma análise curiosa do próprio Trump ao jornalista Bob Woodward, do “Washington Post”: “É engraçado os relacionamentos que tenho. Quanto mais fortes e cruéis eles são, melhor eu me dou bem com eles.”
A lógica do presidente, contudo, foi desmascarada recentemente pelo antecessor Obama num comício em favor de Biden: “Você não deve se gabar porque alguns de nossos maiores adversários pensam que ficariam melhor com você no cargo. Pense, isso não é bom.”
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