O médico e o presidente


Ataques de Trump ao principal epidemiologista dos EUA sinalizam desespero por avanço da pandemia no país a duas semanas das eleições. Anthony Fauci, médico conselheiro da Casa Branca, usa máscara em junho de 2020
Al Drago/Pool via Reuters
Como o maior especialista em doenças infecciosas dos EUA, o epidemiologista Anthony Fauci trabalhou diretamente com seis presidentes americanos, a despeito da crença política de cada um. Saiu ileso da convivência com cinco — Ronald Reagan, George H.W. Bush, Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Mas não com Donald Trump.
A duas semanas das eleições, Fauci virou alvo de ataques diretos do presidente, que se referiu a ele e outras autoridades de saúde como idiotas. A relação entre presidente e médico se desgastou com a pandemia do novo coronavírus, mas em público ambos tentavam manter um tom de respeito mútuo. Agora, tornou-se insustentável.
Vídeo de campanha cria crise entre Donald Trump e Anthony Fauci
No centro da discórdia, estão visões diametralmente opostas na gestão da doença, que infectou 8 milhões de americanos e matou 220 mil. Uma nova onda de casos e internações deixa distante a realidade propagada por Trump — a de que a luz no fim do túnel está próxima e que o país está pronto para sair da crise da saúde a mudar de assunto.
Baseado nas reações das plateias que incita em seus comícios eleitorais, o presidente atesta que “as pessoas estão cansadas da Covid, de ouvir Fauci e esses idiotas.”
Fauci dirige há 36 anos o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas e é membro da Força-Tarefa da Covid-19 da Casa Branca. A campanha republicana tentou pegar carona em seu prestígio junto aos americanos, exibindo um anúncio de TV em que o infectologista aparentemente louvava as ações do presidente sobre a pandemia.
Mas o médico reagiu indignado, alegando que não autorizou a propaganda e que suas declarações foram tiradas do contexto. Em quase quatro décadas, Fauci nunca se envolveu em campanhas políticas. Não começaria agora, com Donald Trump.
E mais: numa entrevista ao “60 Minutes”, no domingo, o epidemiologista revelou ter se surpreendido com a doença de Trump. “Eu estava preocupado que ele adoecesse quando o vi numa situação precária. Um evento lotado, sem distanciamento e máscaras”, explicou, referindo-se à cerimônia para anunciar a nomeação da juíza Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, que acabou infectando mais de 30 pessoas.
Foi o suficiente para Trump voltar-se contra o especialista e vinculá-lo à campanha de Joe Biden. “Se Biden for eleito, ele ouvirá os cientistas”, afirmou em tom de denúncia, num comício em Nevada, no fim de semana. “Sim, eu ouvirei”, confirmou o democrata.
Numa conversa telefônica na segunda-feira com assessores de campanha, o presidente expressou frustração e deboche, dizendo que o epidemiologista é um desastre que poderia ter causado a morte de mais de 500 mil americanos, caso ele não interviesse. Mais tarde, justificou aos repórteres que não o demitiria porque está na Casa Branca há 350 anos e não pretende machucá-lo.
Enquanto Trump atacava Fauci, ele era condecorado pela Nacional Academy of Medicine. A tática parece ser um tiro no pé, sobretudo para quem está 9 pontos atrás de seu adversário na média das pesquisas nacionais e se vê assombrado pelo avanço da Covid-19.
A proporção dos que confiam no especialista em doenças infecciosas é três vezes maior em relação aos que seguem as orientações do presidente americano. Zombar de Fauci, quando a doença volta a avançar no país, sinaliza desespero e não o fará recuperar a credibilidade.
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