Perfil médio dos candidatos à Prefeitura e à Câmara de Porto Alegre difere do público eleitor


Maioria das candidaturas são de homens autodeclarados brancos e com ensino superior completo. População residente tem maioria de mulheres e com menor grau de instrução. Prefeitura de Porto Alegre
Joel Vargas / PMPA
O perfil médio do candidato a uma vaga na prefeitura e na Câmara de Vereadores de Porto Alegre é homem, autodeclarado branco, com ensino superior completo.
No entanto, a maioria dos eleitores difere desta representação, já que a Capital tem mais mulheres e mais de 1/3 dos porto-alegrenses tem, no máximo, o ensino fundamental.
“A desconfiança e a rejeição a formas de participação política tradicional, como vem demonstrando as pesquisas de cultura política nas últimas décadas, têm distanciado essa população jovem, feminina dessas formas de atuação política e buscado outras formas de participação. Tudo isso reforça e agrava a chamada crise de representação política”, pontua a professora Patrícia da Cunha, coordenadora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
Número de candidaturas aumenta 40,8% em Porto Alegre
Para a professora, as estruturas partidárias são difíceis para promoção e garantia da representatividade de minorias políticas.
“Daí a implantação de leis como as de cota para mulheres, que até hoje encontra resistência dentro dessas estruturas. Afinal, ninguém quer perder poder, não é?”, questiona.
Para entender esta relação entre representantes e representados, o G1 cruzou as informações disponibilizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019.
Veja alguns pontos
Gênero
Até o último sábado (26), 587 homens (67,3%) e 285 mulheres (32,7%) apresentaram candidaturas ao executivo e ao legislativo. Embora a cota de gênero, em geral, tenha sido respeitada, ainda há mais do que o dobro de candidatos homens em relação a mulheres.
Isto é inverso à quantidade de mulheres em relação a homens na população da Capital. De acordo com o PNAD, no ano passado haviam 775 mil mulheres (52,2%) e 709 mil homens (47,8%) morando em Porto Alegre.
O choque é ainda maior em relação à representação eleita no Paço e na Câmara Municipal. Em 2016, a chapa vencedora era composta por dois homens, e, no legislativo, apenas quatro dos 36 eleitos eram mulheres — pouco mais de 11%.
“A escolha do representante pelas mulheres pode, ainda, ser influenciada pela cultura patriarcal, de ser o esteio da família tradicional e assim ser considerado mais capaz de administrar o que é público”, diz o cientista político e professor da UFSM, Matheus Müller. “Mas a eleição deles pode não ter nada a ver com o voto feminino. Não podemos afirmar essa causalidade sem dados a respeito”, observa.
Na eleição de 2020, apenas uma candidata a vereadora usou o nome social e se autodeclarou mulher — o que expõe uma representatividade ainda menor em relação aos transgêneros (0,11%).
Grau de instrução
Em relação à formação escolar, menos da metade (48,74%) dos candidatos tem ensino superior completo. Ainda assim, são 425 candidatos formados em alguma faculdade. Na população, em geral, este índice cai para 29,4% dos porto-alegrenses.
Ao mesmo tempo, 36,6% da população têm até o ensino médio completo, quase o equivalente (36,58%) entre os candidatos que têm ensino superior incompleto ou médio completo.
Além disso, 33,9% da população têm apenas o ensino fundamental ou menos instrução. Entre os candidatos, 14,7% têm baixo nível de instrução.
A quantidade de candidatos aumenta conforme o avanço no grau de instrução, mas mantém um equilíbrio em relação à escolaridade da população em geral.
População negra
Apesar do crescimento da população negra em Porto Alegre, o IBGE ainda aponta uma proporção de cerca de três vezes mais brancos (1,11 milhão) em relação a pretos ou pardos (365 mil).
Os dados são referentes ao PNAD de 2019. No entanto, demonstra que a razão entre candidatos e eleitores, em relação a cor ou raça, na Capital, é equivalente.
Cerca de 3/4 dos candidatos (649 pessoas ou 74,43%) são autodeclarados brancos, inclusive os 13 candidatos a prefeito. Outros 156 (17,89%) se declararam pretos (inclusive dois candidatos a vice) e 61 (7%), pardos. Três candidatos se autodeclararam amarelos e dois, indígenas.
Na população residente da Capital, o número de pardos é 1% maior do que de autodeclarados pretos: 190 mil e 175 mil, respectivamente.
A socióloga Cassiane Paixão, professora da Universidade Federal de Rio Grande (FURG), destaca que há um aumento nas candidaturas de negros e que trazem pautas voltadas à comunidade negra. Porém, ressalta que o avanço ainda é lento.
“Não é nenhuma benevolência dos partidos, mas uma luta de muito tempo dos movimentos sociais. Os partidos ainda não estão investindo em candidaturas desse grupo por uma série de discussões, entre elas sobre o racismo estrutural. Uma grande parte da sociedade ainda acredita que isso não importa, que o que importa é a pauta. E isso vai cair na população negra, que não se entende representada”, afirma.
Cassiane aponta, ainda, que só as discussões a respeito do critério de proporcionalidade no uso da verba do Fundo Partidário por candidatos brancos e negros já evidenciam o racismo estrutural, e conclama a uma reflexão.
“Os partidos estão dizendo que não sabem como fazer. Como não sabem? Talvez seja a ideia de que não querem fazer. Quando a pauta da negritude é discutida em cargos relevantes, como no espaço político, é dito que não sabe como fazer, melhor deixar pra depois. Não querem fazer a discussão racial, de gênero. Quem está no poder são homens brancos e ricos. Trazer a pauta de representatividade negra, de gênero, da classe trabalhadora é algo que ainda não querem fazer. A gente conseguiu avançar em algumas coisas, mas ainda não se avançou para cargos mais efetivos, como prefeito e vice-prefeito”, afirma.
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