Pode um ambientalista votar em Trump?

A sentença já foi proferida por analistas e pela imprensa. Se Joe Biden vencer as eleições de 3 de novembro, a taxa de juros deverá ser elevada, haverá cobrança de mais impostos, o déficit será reduzido e os investimentos ESG ganharão bíceps.

Tal como Abraham Lincoln assinou em 1862 os Pacific Railroad Acts e se tornou o presidente que rasgou o país com linhas de trem alimentados a carvão, Biden será o presidente que investirá US$ 2 trilhões para converter os EUA numa economia de baixo carbono. Um inquérito da Morgan Stanley mostrou que 51% dos investidores americanos creem que a eleição no país é o “evento mais impactante” do ano para os investimentos sustentáveis.

Mas este desassossego em torno da urna poderá ser infundado. Quando o tema são finanças sustentáveis, Trump e Biden não são típicas personagens bifrontistas da literatura barroca, o herói e o vilão.

Donald Trump durante comício no Arizona

Nos últimos meses de Barack Obama no poder, a ONG Rainforest Action Network destacou que o presidente personificou a defesa da agenda climática em fóruns internacionais, mas, domesticamente, manteve-se comprometido com a defesa dos combustíveis fosseis, com cedência de centenas de milhões de hectares em propriedades federais para explorações de petróleo, gás e minérios e com a emissão de incentivos fiscais e regulatórios. O seu vice-presidente, Joe Biden, teve uma participação negligente nas negociações do Acordo de Paris, ao contrário da sua retórica eleitoral, e foi um dos exortadores, em 2014, de um plano de ajuda à Ucrânia que incluiu desenvolver a infraestrutura de gás de xisto do país. Biden não é Mike Bloomberg; a sua trajetória na área da sustentabilidade inspira acautelamento.

Trump, por outro lado, tem consistentemente desprestigiado as mais diversas dimensões da sustentabilidade. Simbolicamente, solicitou ao Departamento de Trabalho (U.S. Department of Labor) do seu governo que revisasse o Retirement Income Security Act of 1974 (ERISA) de forma a dificultar a integração de políticas e práticas ESG em fundos de pensão. Porém, a medida teve a vantagem de incendiar Wall Street em torno do princípio de que investimentos sustentáveis não sacrificam retornos e que tampouco promovem objetivos contrários aos interesses dos pensionistas. E dificilmente a medida será adotada porque os atalhos seguidos para apressar o processo poderão ter propiciado uma violação do Administrative Procedure Act, o manual de instruções da administração pública americana.

A verborreia de Trump teve pouco impacto no mercado. Como a performance das finanças sustentáveis é geralmente superior à das finanças tradicionais, o volume de ativos ESG no país tem crescido continuamente, passando de US$ 8,7 trilhões (último ano de Obama) para US$12 trilhões (gestão Trump).

Além disso, a reeleição de Trump, cinicamente, continuaria a atiçar os europeus a acelerar a agenda da sustentabilidade, perfurando camadas espessas de burocracia. Nestes últimos 4 anos, a Europa, por intermédio da Comissão Europeia, do Banco Europeu de Investimentos e do Banco Central Europeu tornaram-se a capital do império das finanças sustentáveis. Segundo um estudo recente da ShareAction, as 10 gestoras de ativos que melhoram incorporam ESG em estratégias de investimento são todas europeias. E o continente é o principal legislador sobre o tema. A semana passada, por exemplo, o Parlamento Europeu deu início a um processo legislativo que levará a que o mercado europeu esteja bloqueado para todas as empresas que não consigam provar que não desmatam florestas —uma lei europeia que deverá contribuir mais para a preservação da Amazônia do que dezenas de leis brasileiras.

Para antecipar o futuro da economia sustentável, a Faria Lima deveria lançar o olhar para Bruxelas e não para Washington.

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