Profissionais dispensados pelo Hospital de Saracuruna acumulam dívidas e problemas de saúde

— Tenho outro emprego, mas lá só ganho um salário mínimo. Minha maior renda era do Saracuruna. Moro com meu pai, que é deficiente visual e tem 83 anos, e meu tio, de 70 anos e cardíaco. Eles consomem muitos remédios. Para comprar, tive que sacrificar algumas contas — afirmou Marta.

Mais de um mês após a Prefeitura de Caxias assumir a gestão do Hospital de Saracuruna, os cerca de 2.300 funcionários do Iabas — que geriu o hospital até 15 de julho — sofrem com a falta de pagamento e de respostas.

Marta conta que a bolsa de estudos de 80% para cursar Serviço Social foi presente de uma paciente. Marta, que era técnica de enfermagem no hospital, se formou e, há três anos, atuava como assistente social na unidade. Com as dificuldades financeiras, a profissional pensa em voltar a trabalhar como técnica:

— Choro todos os dias por ter saído, por não ter salário, de raiva e tristeza. Se o Iabas pagasse nossa rescisão e nossos direitos, daria para a gente se manter por um tempo. Arrumar emprego como assistente social em meio a essa pandemia é muito difícil. Como técnico de enfermagem, tenho mais campo de trabalho.

Marta tem tomado remédio para dormir. Mas a falta de pagamento também tem sido a causa de doenças em outros profissionais. O técnico de enfermagem Rodrigo Oliveira, de 34 anos, foi diagnosticado com depressão no fim do mês passado. Ele trabalhava há quatro meses e foi afastado por 60 dias da unidade:

— Trabalho desde os 19 anos e sempre paguei todas as minhas dívidas. As contas foram chegando, eu não queria mais sair de casa nem atender celular porque eram só ligações de cobrança. Eu só chorava. Até que decidi procurar ajuda médica.

Rodrigo Oliveira teve depressão após ficar sem receber o salário. Foto: Pedro TeixeiraRodrigo contou que os profissionais da unidade foram informados por suas respectivas chefias no grupo de WhatsApp que o pagamento seria feito até dia 17:

— Minha segunda conta de luz vence agora dia 20. E se cortarem? Olho minha conta pelo aplicativo do banco toda hora e nada. Tem outros funcionários em situação mais grave.

A técnica de enfermagem Dailane Guimarães Omonte, de 33 anos, trabalhava no hospital há três anos. Além disso, Dailane também vendia quentinhas. Depois de ter sido demitida no último dia 3, a técnica também viu as vendas diminuírem:

— Só trabalhava no hospital e vendia comida para complementar a renda do mês. Continuo com as comidas, mas diminuiu muito. Nessa crise, quase ninguém tem comprado.

Dailane conta que a prioridade são as contas mais essenciais e as necessidades de seus filhos, de 6 anos e de 1 ano e oito meses:

— A renda do meu marido não supre todas as nossas necessidades. A gente atrasa colégio, espera juntar duas contas para pagar uma. É uma sensação de impotência.

Em audiência com o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), foi definido o pagamento dos salários de junho e dos dias de trabalho do mês de julho diretamente na conta dos funcionários do hospital, por meio de depósito judicial. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES), questões contratuais prolongaram a definição sobre a forma de pagamento. A pasta disse ainda que aguarda o envio da planilha de custos por parte do Iabas nos próximos dias para realizar o repasse.

Sobre os salários de junho, a secretaria ressaltou que, no dia 6 de julho, repassou ao TRT-1 a verba para o pagamento diretamente na conta dos trabalhadores, sem passar pela conta do Iabas. Os pagamentos estão a cargo do Centro Judiciário de Métodos Consensuais de Soluções de Disputas (Cejusc).

O Iabas informou que já forneceu toda a documentação para que a Secretaria estadual de Saúde efetue o pagamento dos funcionários. Para o Iabas, “essa decisão demonstra que a SES deixou de cumprir suas obrigações contratuais e agora está sendo obrigada pela justiça a fazê-lo. Todos esses valores estão dentro dos quase 60 milhões devidos pela SES ao Iabas referente a custeio e investimentos.”

A Justiça do Rio de Janeiro determinou, na última sexta-feira, dia 14, que o governo do estado realize o pagamento dos profissionais de saúde que trabalham no Hospital de Saracuruna. A decisão da 7ª Vara Cível de Duque de Caxias atende a um pedido da Defensoria Pública do Estado (DPRJ) e se refere aos salários de aproximadamente 60 dias trabalhados pelos funcionários contratados na qualidade de pessoa jurídica.

Pela decisão, o Iabas foi intimado para apresentar os contratos sociais, a listagem dos funcionários e as notas fiscais dos serviços prestados por todos os profissionais contratados como pessoa jurídica. Os documentos serão adicionados aos autos do processo e devem ser entregues em até cinco dias. A decisão dá 15 dias, a partir da entrega da documentação pelo Iabas, para o Estado pagar os profissionais da saúde. Os valores devidos se referem aos últimos 10 dias do mês de maio, todo o mês de junho e os primeiros 15 dias do mês de julho. Este valor é equivalente ao que a OS vinha cobrando do Estado do Rio.

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