Projetos que incentivam práticas antirracistas através da linguagem são desenvolvidos por professores baianos: ‘educação é racista’


Maurício Souza Neto e Gabriel Nascimento pretendem aprofundar o debate e promover transformações na sociedade. Maurício Souza Neto, professor, lançou uma série sobre Educação Linguística Antirracista na internet
Arquivo pessoal
Pesquisadores baianos têm desenvolvido projetos a respeito de uma educação linguística antirracista para aprofundar o debate e promover transformações na sociedade. Neste dia 20 de novembro, quando se celebra no Brasil o Dia da Consciência Negra, o G1 mostra alguns desses trabalhos.
No início deste mês, Maurício Souza Neto, professor de Línguas da Ufba e consultor de Linguagem, lançou a série on line “Educação Linguística Antirracista”. Com vídeos leves, didáticos e reflexivos, postados duas vezes por semana em redes sociais, ele fala a expressão do racismo na linguagem e propõe mudanças, individuais e coletivas. O acesso ao conteúdo é gratuito e o ambiente virtual foi escolhido justamente para que alcance o maior número possível de interessados, de acordo com ele.
Maurício explica que a educação linguística é o aprendizado de/sobre a língua, que se faz a todo momento. “Se uma pessoa do sul chega em Salvador e ouve alguém falar que o show que assistiu foi ‘barril’, ela não tem como saber imediatamente se foi bom ou ruim. Aí esse sulista conversa com um baiano, que vai explicar o sentido da palavra. Nesse momento ocorre a educação linguística”, exemplifica.
Maurício Souza Neto defende a literatura como forma de empoderamento do povo preto
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“Quando a gente fala que a educação linguística é racista, a gente é levado a pensar nas palavras que não podem ser usadas, como ‘denegrir’,’ mulata’, ‘black list’, no caso da língua inglesa, entre outras. Mas apenas não fazer uso dessas expressões não é suficiente. É necessário mudar a nossa atitude contra o racismo e a educação linguística faz parte disso, não somente através de palavras soltas, e sim envolvendo uma série de coisas relacionadas à língua, inclusive, ampliando o vocabulário”.
Outras palavras e expressões como “preterido”, “buraco negro”, “mercado negro”, sempre o adjetivo “negro” é usado de forma negativa. Para Maurício, a primeira dessas atitudes é consumir obras produzidas por autores pretos.
“Quantos autores negros as pessoas conhecem? E, dos que conhecem, quantos já leu? Nas escolas, cursos de Letras, o que os estudantes aprendem sobre escritores africanos de língua portuguesa? É necessário estarmos cada vez mais entranhados nesse universo que faz parte da nossa construção enquanto povo e sociedade”.
Além disso, o professor destaca a importância de disseminar livros que coloquem pretos em posição de protagonismo, não de modo caricato. “Isso também é racismo, retratar o negro de forma quase folclórica. Devemos buscar histórias que não sejam estigmatizadas. Isso é uma forma de empoderamento”, pontua, acrescentando que o movimento negro está cada vez mais comprometido tornar essas obras mais acessíveis.
Doutor em Letras na área de Linguística, e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Gabriel Nascimento lançou, há pouco mais de um ano, o livro “Racismo Linguístico”, termo que ele define como “a maneira com que o racismo estrutura a língua e como o racismo é alimentado também por ela” – ou seja, são processos que se retroalimentam.
Professor Gabriel Nascimento, autor do livro Racismo Linguístico
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“A linguagem atua de duplo modo: tanto é o suporte desse racismo atuando na sociedade brasileira, quanto também é aquilo com o qual o racismo se utiliza para atuar na vida das pessoas. A língua está na base de toda a nossa existência, a gente existe através dela, mas não reflete sobre ela. Daí a importância de mudarmos esse falar, esse vocabulário, mas não somente isso. É preciso também alterar outras coisas”.
O livro é fruto da tese de doutorado de Gabriel, que já está preparando outra obra, que destrincha o mesmo tema. Nas pesquisas, Gabriel conclui que, muitas vezes, o negro é visto como um povo sem língua, ou como transmissor de mensagens inapropriadas, já que muitas vezes, o povo preto que vive em periferias tem um linguajar próprio, particular. “A gente não diz que Sérgio Moro não tem linguagem porque fala ‘conje’, mas diz que o preto que ‘fala colé de mermo’, é incompetente, ou algo do tipo”, compara.
Todavia, ele lembra que os povos que foram escravizados no Brasil vieram de diferentes partes do continente africano, e que por isso devem ser considerados povos multilíngues. “Na verdade, temos mais possibilidades de aprendizado por causa dessas variedades que nos são ancestrais, mas faltam oportunidades, estímulos, falta ampliar o acesso a esse conhecimento”.
Educação
Para Gabriel, a força das expressões racistas no Brasil têm a ver com a ausência dos pretos nos espaços de poder.
“Quando os negros ocupam esses postos, o racismo é obrigado a se sofisticar, mas a gente também é obrigado a reformar a linguagem. Estamos falando de onde os negros possam mais falar e onde os outros possam mais ouvir e possam mudar suas posturas, lutar por essa história também”. Para ocupar esses lugares de poder, complementa, é necessário investir em educação, especialmente de base.
Professor Gabriel Nascimento
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“A infância é o momento em que toda a perversidade se mostra. Na escola pública, ela é suavizada porque os negros estão em maior número. E se estamos falando de crianças e jovens pretos, é preciso produzir para elas uma educação que saia desses modelos europeus. Eles devem ser utilizados como referência, não de forma totalitária”, diz Gabriel. Ele ressalta que a formação do povo brasileiro é muito peculiar, tem influência indígena, africana e esses aspectos precisam ser levados em consideração.
“Se as escolas ensinam aulas de ballet, jazz, que tal ensinar break, rap? Ainda privilegiamos, na parte musical, canções de Chico Buarque, de Caetano Veloso. Temos que trabalhar com eles, sim, mas podemos também mostrar o rap, o hip hop, as músicas de Emicida, Criolo”, exemplifica o professor Maurício.
Para Gabriel, as leis que estabelecem o estudo sobre culturas negra e indígena no Brasil nas escolas ajudaram a fomentar esse conhecimento e “colocaram o dedo na ferida”. Porém, lembra que muitas escolas baianas não celebram o 20 de novembro, embora comemoram outras datas, como Halloween.
Maurício pondera que muitos professores não propõem algo por falta de diretriz das escolas, ou por falta de preparo. “Não existe uma formação voltada para valorizar a nossa ancestralidade. O profissional que tem isso, é por uma busca individual”. Outra questão, coloca, é a obrigatoriedade de manutenção de um ensino neutro, seja na rede pública ou na privada.
“O silêncio disfarçado de neutralidade é uma forma de racismo também e faz as nossas culturas morrerem, porque se você não fala sobre algo, aquilo deixa de existir. Então, para além das escolas, precisamos falar de cultura negra em todos os espaços”, diz Maurício.
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