Queda de vacinação ameaça ressurgimento de doenças mitigadas

Das nove vacinas aplicadas em recém-nascidos, cinco ficaram com cobertura abaixo das metas previstas em Santa Catarina no ano de 2019 – BCG, Febre Amarela, Hepatite B, Penta e Meta. Enquanto no ano anterior, apenas a vacinação da Febre Amarela não atingiu a meta determinada, segundo dados da Dive/SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica).

A queda da vacinação é um problema registrado nacionalmente e agravou durante a pandemia, quando foram suspensas muitas das campanhas de vacinação. A situação assusta, uma vez que ameaça a emergência de surtos de doença então mitigadas – como sarampo, meningite e outras.

Em 2019 nenhuma das metas nacionais de vacinação foi atingida. As taxas caem desde 2015 em todo o país – Foto: Freepik/Reprodução

No ano da pandemia, faltando três meses para o encerramento, nenhuma das metas para 2020 foi atingida em Santa Catarina. Até setembro, apenas 57,31% dos recém-nascidos foram vacinados contra tuberculose e 63,30% contra sarampo, caxumba e rubéola, por exemplo.

Para a pesquisadora Márcia Grisotti, pós-doutorada em Sociologia e especialista em Sociologia da Saúde pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), os pais ficaram mais acuados para vacinar os filhos durante a pandemia, em razão dos protocolos iniciais de isolamento.

“A recomendação oficial era para procurar os serviços de saúde só quando estivéssemos doentes. E isso impactou as mães, que evitaram levar os filhos a serem vacinados. O que diminuiu o fluxo, incluindo o das vacinas” afirma a professora.

Grisotti avalia esse protocolo inicial, que já foi revertido, como um erro. “A vacina nunca deveria ter sido deixada de lado. O poder público deveria pelo menos ter desenvolvido outros mecanismos para a vacinação, como realizar a domicílio” defende a pesquisadora.

Queda é registrada há cinco anos

As metas de vacinação anual são cumpridas pelo Ministério da Saúde através de campanhas anuais, e preveem metas de cobertura a depender da vacina. Quando a taxa não é cumprida, as campanhas devem ser refeitas para a população não ficar em risco.

Considerando estatísticas nacionais do Ministério da Saúde, a cobertura da vacinação vem registrando queda há cinco anos. Em 2019, ano mais grave, nenhuma das metas de vacinação foi cumprida em todo o país. Um fato inédito, nunca antes registrado neste milênio, como mostra reportagem da Agência Brasil.

“A política nacional de imunização vem sofrendo desfinanciamento e barreiras na condução do processo que impactam nos números” alerta o pesquisador Fabrício Augusto Menegon, do departamento de Saúde Pública da UFSC.

Ressurgimento de doenças mitigadas

Reflexo da queda de vacinação é, por exemplo, o ressurgimento de surtos de sarampo, aponta Menegon. Ao longo de 2019, Santa Catarina registrou 276 casos de sarampo, com 36 cidades enfrentando surtos ativos da doença – o maior surto de sarampo no Estado em 20 anos.

“Esse é o principal problema da queda de vacinação. E oferece risco de óbito principalmente aos extratos mais pobres” destaca Menegon. “Ainda não tivemos problemas como poliomielite, considerada extinta. Mas isso não significa que devemos parar de vacinar”.

Meningite é uma outra doença que ameaça ressurgir, caso as taxas continuarem a cair. “O último surto foi no final da década de 70. É uma doença que pode emergir, causar surto e levar a óbitos. Tudo depende da política nacional de imunização” afirma o pesquisador.

Desinformação e descaso contribuem

Desinformação, discursos confusos de lideranças políticas, queda no financiamento e descaso. Estes são alguns dos motivos apontados pelos especialistas para as quedas registradas.

Menegon exemplifica o desabastecimento em 2019 da vacina BCG, que protege contra a tuberculose. Santa Catarina foi um dos doze estados que sofreu com a falta da vacina – e conseguiu vacinar apenas 82,92% dos recém-nascidos, quando a meta era 90%. “O Ministério da Saúde não se programou, o que afetou os municípios” afirma o professor.

Além dos problemas na disponibilização da vacina, existe também negligência por parte da população, avalia o professor. Ela ocorre principalmente quando lideranças políticas produzem discursos ‘confusos’ e que dão a entender que a vacina é opcional.

Exemplo foi quando o presidente Jair Bolsonaro afirmou, no final de agosto, que a vacinação contra a Covid-19 é opcional, afirma o professor. “Palavras com sentido duplo podem incentivar o cidadão a não se vacinar. E a melhor forma de proteção é a vacinação”.

Hesitação vacinal

Apesar de agravado nos últimos anos, o atraso em aceitar ou a recusa da vacina, quando ela está disponível, não é um fenômeno novo e restrito ao Brasil. A OMS (Organização Mundial da Saúde) deu nome: hesitação vacinal. A organização marca como ponto chave o ano de 1998.

Naquele ano, a revista científica inglesa Lancet publicou estudo correlacionando a vacina do sarampo ao desenvolvimento do autismo, explica a Grisotti.

O estudo lançou a hipótese de que 12 crianças que haviam sido vacinadas desenvolveram comportamento autista. O que era hipótese, comprovada falsa anos depois, teve consequências profundas para o desenvolvimento de uma mentalidade antivacina.

“A incerteza que as pessoas constroem sobre saúde e ciência constrói esse comportamento de hesitação vacinal. Temos que pensar como construir esse movimento de conscientização, pensando, por exemplo, quantas mortes foram evitadas com as vacinas. A negação da vacina é um retrocesso muito grande”, conclui a pesquisadora.

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