Região de Presidente Prudente vivencia exclusão pautada no racismo estrutural, diz pesquisadora


Em entrevista ao G1, Larissa Costa, presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB, afirma que “interior tem falsa ideia de que ações racistas não são concretas por aqui”. Larissa Costa, presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB em Presidente Prudente, afirma que “interior tem falsa ideia de que ações racistas não são concretas por aqui”
Arquivo pessoal
Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro, data oficializada em 2011 e escolhida pela morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, negro símbolo da luta e resistência de escravizados no Brasil. Data que também simboliza a luta por direitos de afro-brasileiros. Depois de séculos da sua morte, e anos da instituição oficial da data no Brasil, a sociedade ainda esbarra em questões de racismo.
O G1 entrevistou a presidente da Comissão de Igualdade Racial na OAB de Presidente Prudente, Larissa Costa, que também é mestra em Direito, especialista em Penal e Processo Penal e professora de Prática Jurídica Penal, sobre a situação do negro no Brasil e na região de Presidente Prudente. Segundo Larissa, um dos fatores mais comuns presentes é o racismo estrutural.
“Ainda vivenciamos no Brasil um panorama de racismo estrutural. Então, todas as relações sociais, sejam elas no mercado de trabalho, no campo afetivo, no campo acadêmico, são repletas de violências simbólicas e negações de direitos, pautados do elemento racial. Na nossa região, como estamos no interior, temos a falsa ideia de que o racismo não se manifesta de forma concreta aqui, como se a natura acolhedora do povo brasileiro, ainda mais no interior, não permitisse a discriminação racial, mas não podemos nos enganar. Os indicadores e a realidade social escancaram a exclusão dos corpos negros dos mais variados espaços de poder. Então, em Presidente Prudente e na nossa região ainda vivenciamos um panorama de exclusão pautado no racismo estrutural, onde a experiência dos corpos negros é subalternizada”, disse Costa, ao G1.
De acordo com advogada, no interior, uma das principais formas de discriminação que os negros sofrem é a dificuldade de afirmar-se como sujeitos políticos, de serem reconhecidos como pessoas que têm o exercício da cidadania e possibilidades de estar e trabalhar em qualquer ambiente, situação que estabelece um padrão de exclusão.
“Os corpos negros, como eu, uma mulher, advogada e pesquisadora negra, estruturalmente são excluídas porque nossa submissão tem sido parte integrante do projeto político deste país ao longo de toda sua história. Não somos valorizados da mesma forma que os membros do grupo racial dominante, não possuímos as mesmas condições de existência, porque somos sempre excluídos de oportunidades materiais e as consequências da discriminação racial sistemática se estendem ao longo do tempo, criando um ciclo de exclusão. Por isso que compreender que o racismo é estrutural, e não um ato isolado de um indivíduo ou de um grupo, nos torna ainda mais responsáveis pelo combate ao racismo e aos racistas”, afirmou Costa, ao G1.
Larissa Costa, presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB em Presidente Prudente, afirma que “interior tem falsa ideia de que ações racistas não são concretas por aqui”
Arquivo pessoal
Público e privado
Larissa Costa explicou ao G1 que, além de ações afirmativas por parte do Estado, as empresas têm um papel importante e devem contribuir para a superação do racismo estrutural.
“Ser uma pessoa negra em um país que tem as suas relações sociais travadas por meio do racismo estrutural, significa estar submetido a um sistema de subordinação, que delimita papéis sociais. Por isso é preciso compreender que o racismo nas suas formas estruturais e institucionais produz uma segregação racial, que dificulta a mobilidade social dessa parcela da população. Enquanto sociedade que tem apreço pela pessoa humana, a centralidade do princípio da dignidade humana no ordenamento jurídico brasileiro indica que as instituições sociais não podem seguir reproduzindo estigmas raciais, pois isso impede que os corpos negros sejam reconhecidos como pessoas socialmente competentes”, explicou ao G1.
“O que ainda nos preocupa é que os processos de discriminação são contundentes e persistentes e, ainda assim, mesmo quando o Estado ou as empresas buscam implementar programas de promoção da igualdade e combate a discriminação, a sociedade não reconhece a importância e a necessidade de tal medida”, acrescentou Costa, ao G1.
Larissa Costa, presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB em Presidente Prudente, afirma que “interior tem falsa ideia de que ações racistas não são concretas por aqui”
Arquivo pessoal
Falar sobre racismo
A pesquisadora também explicou ao G1 que uma das formas de combater esse tipo de racismo é justamente falar sobre ele.
“A igualdade vem para garantir a emancipação dos corpos negros em condições objetivas de participação na acadêmica, política, jurídica, médica, e tantos outros lugares de destaque. Sem dúvida precisamos discutir mais sobre os reflexos do racismo na vida das pessoas negras e de toda a sociedade. Reconhecer que é um problema de todos, pois afeta o desenvolvimento democrático. O primeiro passo é não negar o racismo”, disse Costa, ao G1.
Larissa Costa, presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB em Presidente Prudente, afirma que “interior tem falsa ideia de que ações racistas não são concretas por aqui”
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Palestra
A Comissão de Igualdade Racial na OAB de Presidente Prudente realiza neste mês o “Novembro da Consciência Negra”, que é um ciclo de palestras com o objetivo de discutir temáticas sobre a equidade racial.
Na próxima quinta-feira, 26, às 18h, o tema da última palestra será Epistemicídio e Intelectualidade Negra, com Everton Neves, OAB/MT. A palestra será apresentada pelo Instagram da Comissão de Igualdade Racial na OAB de Presidente Prudente.
Larissa Costa, presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB em Presidente Prudente
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