Reinfecção em Hong Kong reforça importância de vigilância genômica do coronavírus, diz braço da OMS

— Que impacto essa descoberta poderia ter nos planos de introdução de vacinas? Em primeiro lugar, destaca a importância de uma vigilância genômica do vírus, que se torna ainda mais importante agora — disse Sylvain Aldighieri, gerente de Incidentes para Covid-19 da Opas, em coletiva de imprensa transmitida on-line.

Aldighieri afirmou que é preciso “cautela” na interpretação das informações de Hong Kong, mas elogiou o detalhamento trazido pelos pesquisadores.

— Há uma diferença entre duas situações: uma é a recaída da infecção no mesmo paciente, como uma reativação do vírus, mas em que geneticamente é o mesmo vírus. E há outra situação, que é uma reinfecção, com um vírus geneticamente diferente. O artigo de Hong Kong é muito claro. Os pesquisadores sequenciaram o genoma de dois vírus diferentes — explicou.

Ele ressaltou que os vírus tendem a mudar com o tempo, mas que uma vacina “pode perfeitamente dar imunidade a uma parte do vírus que não muda”:

— Voltamos, mais uma vez, ao ponto da vigilância genômica dos vírus circulantes, que é chave para a informação e o acompanhamento da introdução de vacinas.

O médico brasileiro Jarbas Barbosa, vice-diretor da Opas, defendeu que ainda é preciso “entender melhor” as informações veiculadas de Hong Kong.

— Temos mais de 23 milhões de casos de Covid no mundo. E, até agora, apenas dois ou três relatos de reinfecção. Precisamos entender melhor o que aconteceu. E saber se eles estão relacionados a alguma modificação do vírus ou se se trata de alguma situação específica do sistema imunológico dessas pessoas — afirmou.

Barbosa também elogiou “os detalhes completos” dos pesquisadores de Hong Kong, com a ressalva de que é necessária maior compreensão científica — incluindo evidências de que uma alteração genômica do vírus influenciaria em sua transmissão ou na resposta imune das pessoas infectadas.

— O importante é que temos mais de 80 vacinas em fase 3 de testes. Há que se concluir essas fases, enquanto entendemos o que está acontecendo — opinou.

Alta entre jovens

Os diretores da Opas também alertaram sobre o aumento de casos e mortes pelo novo coronavírus nas Américas em um mês e meio, com novas infecções puxadas, principalmente, pela população mais jovem na região.

— Nos últimos seis meses, duplicaram as mortes e os casos nas Américas. Os casos passaram de cinco milhões no início de julho a doze milhões atualmente. Essa tendência indica uma necessidade urgente de medidas para desacelerar a propagação, como distanciamento, confinamento e limites de encontros sociais. Mas, nesse mesmo período, o que vimos foi justamente o contrário. Os países relaxaram restrições, retomaram atividades econômicas e alguns estão até voltando com as aulas nas escolas — criticou a diretora-geral da Opas, Carissa Etienne.

Carissa adverte sobre uma “desconexão” entre as normas seguidas por vários países e o que mostra a curva epidêmica:

— Só desejar que o vírus desapareça não é suficiente. Isso só levará a um maior número de casos. As autoridades sanitárias locais têm um papel-chave no ajuste das medidas de saúde pública à realidade de cada região.

Os diretores também relataram preocupação com uma “incidência descontrolada” de Covid entre jovens.

— A maioria dos casos está entre jovens de 20 e 59 anos. E 70% das mortes são em maiores de 60 anos. Isso indica que os mais jovens, principalmente, estão determinando a propagação da doença em nossa região. Muitos jovens que se infectam com o vírus não adoecem, mas podem contagiar outros que acabarão hospitalizados. Devemos dividir as responsabilidades — afirmou Carissa.

Segundo a diretora-geral da Opas, a região das Américas já soma mais de doze milhões de casos e 450 mil mortes.

— Estados Unidos, Brasil, Colômbia, Peru, Argentina e México continuam entre os países mais afetados do mundo — alertou. — Já nos acostumamos ao impacto dessa pandemia, e os números relatados ao longo das semanas podem nos tornar menos sensíveis ao tema. Mas não podemos ficar passivos diante de uma perda tão devastadora de vidas. Os números devem guiar nossa resposta.

Carissa afirmou que não se ganha o vírus “de uma vez”, e que ele ainda acompanhará a população até que haja uma vacina:

— Reabertura (de atividades) não significa o fim da luta — afirma ela, que defende o achatamento da curva de casos antes do relaxamento de restrições e retomada de atividades econômicas.

Segunda onda

Os diretores da Opas não descartaram a ocorrência de uma segunda onda de contágio em países que já vivem um momento posterior da infecção.

— A pandemia está afetando grupos cada vez mais jovens. Começou na Ásia, foi para a Europa, depois chegou às Américas. É importante que não descartemos a possibilidade de uma segunda onda. Pode acontecer — disse Marcos Espinal, diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis da Opas.

Ele ressaltou a diferença entre países e afirmou que, mesmo naqueles que demonstram controle regular da transmissão, as medidas de precaução devem ser mantidas:

— Ainda há países com alta incidência de casos novos, como Argentina e Costa Rica, mas há outros, como Chile e Uruguai, que achataram a curva e hoje relatam menos casos. Inclusive o Brasil mostra tendência à redução. Mas é bom não pensar que, por achatar a curva, o vírus não vai existir mais. Nunca poderemos descartar uma segunda onda.

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