“Relevância da cultura em Joinville precisa ser resgatada”, diz James Schroeder

A série de entrevistas com os candidatos à prefeitura de Joinville continua e, nesta quinta-feira (15), James Schroeder (PDT) foi sabatinado pela NDTV Record Joinville e pelo portal ND+.

James Schroeder tem 53 anos, é engenheiro agrônomo pela UFSC e especialista em Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente pela Univille. Como servidor da prefeitura, teve passagens pela Fundema, Escola Agrícola Carlos Heins Funke, Secretaria de Desenvolvimento Rural, Fatma, Defesa Civil e como presidente da Fundação 25 de Julho. Está no terceiro mandato consecutivo na Câmara de Vereadores.

Entrevista com James Schroeder foi conduzida pela apresentadora Sabrina Aguiar – Foto: Luana Amorim/ND

Confira a entrevista:

Uma de suas propostas é reduzir a dívida da prefeitura com o Ipreville? Como fazer isso?

Inicialmente, não deixando a dívida aumentar. O compromisso da prefeitura é pagar em dia a cota patronal do Ipreville. Aí temos os parcelamentos que já estão aprovados e vamos pagando esses parcelamentos e mantendo em dia a cota patronal. Com isso, o débito diminui.

Em seu plano de governo, o senhor fala em implantar escolas de tempo e educação integrais. Isso também vale para a educação infantil? Com que recursos fazer isso?

Na verdade, são ideias separadas. Na educação infantil, a prefeitura deve contemplar todas as crianças de quatro anos até o ensino fundamental, isso é obrigação, não é nenhuma questão discricionária. Então, nós vamos buscar a universalização do serviço de quatro anos até o ensino fundamental. Já vagas de creche, nós vamos continuar a busca de vagas na iniciativa privada através da compra de vagas para um público mais específico que é a mãe trabalhadora.

Quanto à educação integral, nossa proposta vai na concepção de que temos hoje cinco regiões no município onde essas questões de exclusão e um certo desnivelamento do aproveitamento escolar comprometem os índices educacionais da cidade. A mesma qualidade de ensino que é dada num bairro mais estruturado, num bairro periférico tem um aproveitamento diferente pela condição socioeconômica dessa população.

Então, as escolas integrais tendem a nivelar isso, oferecendo nas escolas aquilo que falta nas casas desses jovens, como alimentação adequado, acesso à internet, oportunidade de fazer esportes, desenvolver cultura, teatro, dança e música, são escolas que vão ter um atendimento diferenciado para os alunos de situação socioeconômica menos favorável. Com isso, equilibramos, no geral, o potencial, a capacidade desses alunos de desenvolver o seu intelecto e suas habilidades.

São escolas com estrutura própria e diferenciada até porque os alunos vão passar o dia inteiro, então não são dois turnos, é um turno só.

Seriam escolas novas? Os recursos viriam de onde? Quais são essas regiões?

Seriam escolas novas, com recursos do Governo Federal através de editais, já que a gente vai ter uma equipe de técnicos fazendo esses projetos e prospectando esses editais de financiamento do Ministério da Educação.

Essas regiões vão ser melhor definidas a partir de um diagnóstico socioeconômico que nós vamos fazer nos primeiros meses de governo. Mas, via de regra, são regiões onde o noticiário policial costuma dar mais destaque. Eu vou otimizar os bairros para não estigmatizá-los, mas é fácil imaginar quais são.

Uma de suas propostas é implantar parques e praças. Como e onde pretende fazer isso? Com que recursos?

Existem vários terrenos públicos remanescentes de parcelamento de solo que muitas vezes são inadequados para um equipamento público, como uma escola ou um posto de saúde. Mas que poderiam oferecer condições de termos uma área de lazer.

Exemplificando, estivemos recentemente na região do Petrópolis e ali tem uma margem de rio em que, por ser margem de rio, nada pode ser edificado ali, conforme o código ambiental brasileiro. Mas que é uma área muito favorável para um parque linear, ao longo da margem deste rio, que é o Itaum, e que permite uma pista de caminhada, uma academia da melhor idade, é uma área bastante arborizada sem ser mata fechada. Então ali está tudo pronto para receber investimento.

E nós temos hoje, dentro da estrutura dos fundos do município, o Fundo Municipal do Meio Ambiente, que é um fundo que tem recursos que só podem ser revertidos para ações de meio ambiente. E as praças, nesse contexto, são, com certeza, uma ação de meio ambiente, de qualidade de vida. Então, os recursos viriam dali.

Você fala em articular investimentos junto aos governos estadual e federal para aprimorar a estrutura logística da região. Quais ações e obras você prevê nesse sentido?

A duplicação das nossas rodovias, melhorias no eixo industrial, na estrada Dona Francisca. Também o nosso aeroporto que precisa, efetivamente, assumir esse papel de um aeroporto de logística, já que ele hoje é um aeroporto de passageiros, mas que a lógica diz que deveria começar a assumir esse papel de aeroporto de carga também. E a conexão com a linha férrea, que vamos demandar, se possível, a conclusão desse projeto do desvio ferroviário do município. Esses são alguns dos temas envolvidos nessa ideia, que não são exclusividade do município e que demandam a participação do governo do estado e do governo federal.

Em seu plano de governo, você cita a proposta de adquirir uma usina móvel de asfalto como forma de recuperar a autonomia na manutenção das vias. Como isso ocorreria na prática?

Hoje, a prefeitura é refém do contrato com empresas terceirizadas e aconteceu, muito recentemente, uma situação em que, dos quatro lotes para ser feita a manutenção de vias, uma empresa ganhou três, jogando o preço lá embaixo e depois reclamando que o preço do asfalto era proibitivo pra manter aquele preço com o qual ela ganhou a licitação. Então, a prefeitura ficou seis meses discutindo isso na justiça e, enquanto isso, o cidadão ficou sem a manutenção da via.

Nós vamos ter essa usina móvel de asfalto para dar a capacidade da prefeitura de ter um pouco de autonomia nisso enquanto discute. Eu penso que pra fazer aquela arrumação geral da cidade, há necessidade ainda de contratar uma empreiteira, mas a usina pública de asfalto vai atender depois que a demanda reprimida foi resolvida e durante o momento em que há esses imbróglios judiciais com os empreiteiros que a prefeitura costuma contratar.

Então, é uma ferramenta de autonomia do poder público pra prestar serviço ao cidadão de imediato e não esperar que a justiça defina isso e, enquanto isso, o cidadão sofre com a buraqueira da cidade.

Uma de suas propostas é implantar um Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) para estimular a preservação das áreas rurais. Como isso funcionaria?

O Programa de Pagamento por Serviços Ambientais já é comum em várias regiões e nós temos que entender que a nossa cidade tem um fator limitante que é a água. Nós vamos nos desenvolver na medida em que tivermos condições de dar abastecimento para essa população crescente e também para o uso industrial. Nossos mananciais são finitos, porém, se cuidarmos desses mananciais, preservando as nascentes, a mata ciliar e evitando que sejam degradadas essas regiões com atividades poluentes, nós vamos conseguir minimamente estender a capacidade de abastecimento dos nossos mananciais.

Depois disso, teríamos que recorrer a mananciais mais distantes, como o rio Itapocu, a um alto custo de tratamento e de transporte dessa água até a cidade. Então, é imperioso que a cidade cuide dos seus mananciais, principalmente do Cubatão, Quiriri e Piraí. E quem preserva essa região são os agricultores, que têm hoje uma certa dificuldade de ganho em escala no contexto de uma economia globalizada.

Então, o pagamento por serviços ambientais seria uma forma de remunerar esses proprietários rurais para fazerem um serviço para toda a cidade, que é manter de pé as suas florestas em vez de desmatar para plantar banana ou arroz, por exemplo. Eles seriam remunerados por esse serviço dentro de um programa específico e através do Fundo de Meio Ambiente, seria uma cota anual de valores encaminhados pra eles, muitas vezes até em prestação de serviços, já que eles requerem máquinas pra fazer serviços dentro da propriedade, alguma obra como uma esterqueira, e o custeio pode ser na forma desse incentivo.

As obras do rio Mathias estão suspensas e devem ser um desafio para o próximo prefeito. Como você pretende lidar com a questão?

Um ponto é pacífico: essas obras precisam ser concluídas. Não é admissível que tenha sido investido ali R$ 60 milhões e agora isso tudo fique enterrado sem funcionar. Então, nós precisamos concluir essas obras. Com o cancelamento do contrato, a gente é obrigado a refazer o projeto a partir do que está posto e o que falta ainda pra concluir a proposta original.

Esse novo projeto passará, necessariamente, por um novo edital de licitação, em que iremos contratar uma equipe com capacidade técnica pra executar a obra, diferentemente do que aconteceu até aqui, e vamos reiniciar essas obras. Considerando os prazos normais pra projeto, licenciamento, licitação e contratação, estamos falando da segunda metade do mandato. Até o final do mandato que vem espero que essas obras estejam concluídas e que o Centro esteja efetivamente recuperado.

Hoje, Joinville não tem nenhum espaço público dedicado exclusivamente ao esporte que possa receber um grande número de pessoas. Na época do Festival de Dança, por exemplo, os jogos de basquete e futsal são interrompidos no Centreventos. Como resolver esse déficit?

Nós temos alguns equipamentos, como a própria Arena e o Centreventos, que são grandes locais para grandes eventos. É fundamental que a gente faça uma parceria público-privada nesses locais. Não compete à prefeitura gerir e manter espaços como esses, eles têm que servir a algo. Mesmo com a gestão pública, é cobrado ingresso para qualquer evento que se faça. Então, por que não terceirizar, parceirizar, a exemplo do que foi feito com a Expoville?

A prefeitura tem uma dificuldade inerente à própria gestão pública de ser ágil, são imóveis comerciais, precisam gerar renda e emprego com uma dinâmica que o serviço público não consegue fazer. Então, a minha concepção é parceirizar para que esses equipamentos sejam geridos com a dinâmica que eles merecem e atendam à finalidade que é utilizar e gerar emprego e renda.

Agora, nós falamos também de espaços de esporte e lazer para a população. E também é necessário que lá nos bairros mais afastados esses espaços existam. O problema é que quando o poder público faz um espaço desses e não cuida, ele sofre depredação e isso é de se esperar. Então, a parceria nesse caso será com as associações de moradores. Nós vamos potencializar esses espaços de esporte e lazer com as associações de moradores e oferecer algum respaldo, através da Secretaria de Esportes, para fomentar escolas de iniciação desportiva.

Como você pretende resolver o impasse do transporte coletivo em Joinville?

A licitação terá que acontecer, até por uma decisão judicial, no ano de 2023, ao longo do mandato. Até lá, nós precisamos repensar todo o sistema de transporte coletivo da cidade porque ele, hoje, vem perdendo passageiros ao longo dos anos pelo alto preço, pela demora das linhas, pela falta de conforto. Isso fez com que os passageiros começassem a migrar para outras formas, como o transporte por aplicativo ou uma moto, cuja prestação parcelada é mais baixa do que o preço da passagem somada ao longo do mês.

A gente tem que reverter isso, tornar de novo o transporte coletivo interessante. E pra isso, tem que se fazer toda uma revisão usando tecnologia de informação para otimizar viagens. Pensamos na integração temporal, em que a pessoa desembarca na área que deseja e pode voltar no período de tempo de duas horas, tornando a sua viagem com escala uma só, diminuindo o custo final, e em corredores de ônibus.

Devemos aproveitar que a cidade se distribui no eixo norte-sul e é plana para estabelecer vias dedicadas de ônibus, a exemplo de Curitiba, com os conceitos de BRTs, que é um metrô de superfície sobre pneus, que é uma forma de ganhar velocidade, e aí nas estações das pontas fazemos a distribuição com linhas normais e até com a integração do modal bicicleta. O terminal terá locais para colocar bicicleta ou até mesmo bicicletas públicas alugadas nos terminais. Isso tudo é um plano que precisa ser bem estudado até que, em 2023, esse modelo seja definido pra lançar o edital de licitação.

Entrevista foi transmitida no programa Balanço Geral – Foto: Luana Amorim/ND

Os profissionais da cultura reclamam da extinção da Fundação Cultural de Joinville e sua unificação com a secretaria de turismo. O senhor pretende manter esse formato?

Não. A gente quer voltar a dar relevância para a cultura, voltar às origens do Simdec (Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura). A cultura tem que ser entendida como mais que entretenimento, mas sim uma atividade geradora de emprego, renda e impostos. Então, essa relevância da cultura na cidade precisa ser resgatada. Hoje, nós temos poucos gestores de cultura na Secretaria de Cultura e Turismo, o turismo prevalece. Ele também é uma atividade importantíssima e as duas podem estar ligadas, mas a cultura precisa ter uma dinâmica própria.

Nas origens do Simdec está o mecenato e o fomento e nós vamos simplificar novamente as regras, tornando possível que uma manifestação popular de cultura, como um boi-de-mamão lá no Morro do Amaral, possa acessar esses recursos da mesma maneira que um grande empreendimento cultural, como o Bolshoi. Então, nós vamos ter a cultura de novo, se não com uma unidade fundacional, mas sim com uma pasta autônoma, focada, e não mais disputando espaços e orçamento com turismo. O turismo terá sua importância e a cultura a sua luz própria.

Por que o eleitor joinvilense deve votar em você?

Porque eu quero ver a minha cidade sorrir novamente, é isso que me move. Eu sou servidor público de carreira, minha missão é o serviço público, e eu penso que acumulei experiência política com três mandatos de vereador, e experiência administrativa, tendo já administrado o orçamento público equivalente ao orçamento da prefeitura de Garuva.

Então, conheço os meandros da prefeitura, sei onde estão os nós da burocracia e estou num momento da minha vida em que tenho força, vontade e motivação pra trabalhar pela minha cidade, que me viu nascer e crescer.

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