Salvador tem apartheid simbólico, diz neta de Marighella, eleita vereadora

Ela carrega o sobrenome de um dos principais líderes da luta armada contra a ditadura. Com a mesma verve combativa do revolucionário de outrora, quer encampar propostas em defesa da democracia e por igualdade de direitos.

Aos 44 anos, Maria Fernandes Marighella (PT), neta de Carlos Marighella (1911-1969), foi eleita vereadora de Salvador sob a promessa de uma atuação feminista, antirracista e socialmente justa.

Alcançou a vaga após obter 4.837 votos, em uma campanha embalada por um movimento intitulado “ManifestA ColetivA”, a favor de um mandato com ampla participação popular. Sua estreia na política, no entanto, se dá em um momento menos dramático do que o vivenciado pelo avô, morto a tiros por agentes do regime militar.

Ainda assim, a neta do guerrilheiro que passou à história como o inimigo número um da repressão faz questão de exaltar o simbolismo de sua conquista —que diz ser o mesmo de negros, quilombolas e, sobretudo, transexuais.

“São vitórias que devem ser celebradas por todas e todos nós. Mostra que, em um contexto adverso, a principal força de enfrentamento ao retrocesso representado pelo bolsonarismo vem desses corpos”, diz, em entrevista ao UOL.

“Se lembrarmos que vivemos em um país onde mais se mata travestis e transexuais no mundo, essas vitórias são ainda mais expressivas.”

Nascida na capital baiana, Maria representa a terceira geração dos Marighella a ingressar na atividade política. Carlos Marighella, o avô, militou durante 33 anos no PCB (Partido Comunista Brasileiro), sigla pela qual se tornou deputado federal pela Bahia, em 1946. Já o pai dela, Carlos Augusto Marighella, o Carlinhos, foi deputado estadual nos anos 1980.

Preso na ditadura de Getúlio Vargas, Carlos Marighella foi ainda líder da ALN (Ação Libertadora Nacional). O grupo foi responsável por assaltos a bancos e carros-fortes e, em 1969, pelo sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, que seria trocado por presos políticos.

Maria, que na adolescência participou da Juventude Comunista, só viria a se filiar a um partido político neste ano. Ela conta ter escolhido o PT em homenagem à avó, Clara Charf, viúva do guerrilheiro e uma das fundadoras da legenda.

Apesar do êxito pessoal, Maria Marighella critica o fato de a capital baiana ter eleito no domingo o atual vice-prefeito, Bruno Reis (DEM). Ela define o resultado como “um homem branco” na “cidade mais negra fora de África”.

“Lamento profundamente. Primeiro porque Salvador tem essa dívida com sua história. A população negra reivindica mais representação e enfrenta essa situação nas diversas esferas de poder. É inadmissível não termos tido nunca um(a) negro(a) chefe do Executivo eleito na cidade mais negra fora de África. Segundo, porque foi eleito alguém que é alinhado aos mandatários do poder da cidade: o homem branco”, diz.

É um homem branco cujo projeto de cidade propõe manter a lógica da Salvador mercadoria e que não se volta para o bem-estar da sua população.
Maria Marighella, eleita vereadora

Ao definir Salvador como uma metrópole “complexa e cheia de contradições”, Maria vê na profunda desigualdade social o seu problema mais urgente.

“Há um verdadeiro apartheid simbólico na cidade. Não podemos aceitar a lógica que mantém bolsões de pobreza em nossa cidade. O poder público tem o dever de apresentar um projeto que torne Salvador mais igualitária. E aí é fundamental formular programas que deem mais atenção aos mais pobres”, opina.

Para tanto, sugere alternativas: “Não podemos ignorar ainda que as desigualdades caminham de mãos dadas com o racismo e o machismo. As políticas que combatam as desigualdades precisam incluir as pautas do antirracismo e do feminismo, dando conta das questões de raça e gênero. Salvador precisa ser uma cidade promotora de encontro e mundo comum”.

[A eleição de Bruno Reis] É um resultado de as oposições não terem conseguido apresentar um projeto alternativo de cidade.
Maria Marighella, eleita vereadora

Ela reconhece que encontrará dificuldades para emplacar suas proposições num Legislativo composto por maioria governista.

“A Câmara acompanha, sem questionamento, os interesses do prefeito, mesmo que não correspondam ao interesse majoritário da cidade. Os exemplos dos últimos anos são muitos: concessão do transporte público, que favorece empresários, PDDU [Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano], projeto do BRT, que foi agressivo ao meio ambiente e à paisagem urbana. Só para citar alguns”, diz.

“Na legislatura que se inicia no próximo ano, a oposição não terá uma situação de tranquilidade. De 43 vereadores, apenas 12 são da oposição ou da bancada independente. Tenho nitidez que uma das principais ações da futura oposição, e essa é a posição que defenderei junto à bancada, é que nós temos a responsabilidade de abrir a Casa para a participação popular e apresentar um projeto alternativo de cidade, que atenda aos interesses da população. Um projeto mais justo e igualitário.”

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