Sem coleta seletiva na pandemia, BH desperdiça 3.600 toneladas de recicláveis

Em setembro de 2019, os catadores de recicláveis de Belo Horizonte tiveram um motivo para comemorar: a prefeitura da capital celebrou um contrato com as associações e cooperativas do setor para que elas se tornassem as responsáveis pela coleta seletiva de na cidade e recebessem por esse trabalho. Passado um ano do acordo, entretanto, a coleta segue paralisada há seis meses, devido à pandemia de Covid-19. Nesse cenário, a renda dos catadores desapareceu e cerca de 3.600 tonelados de lixo deixaram de ser recicladas na cidade.

Em conjunto, seis associações e cooperativas vinham recolhendo cerca de 608 toneladas de materiais recicláveis, como papel e vidro, todos os meses. O recolhimento era realizado em 45 bairros da capital, abrangendo pelo menos 390 mil pessoas e 125 mil domicílios, segundo a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU). Desde o final de março, entretanto, o trabalho foi suspenso para proteger os trabalhadores que lidam com a triagem do material nos galpões das associações, de acordo com a SLU. Com isso, conforme está descrito no contrato das cooperativas com a prefeitura, elas deixaram de ser pagas pelo governo municipal.

Foi a interrupção de um projeto que vinha dando bons resultados, diz a integrante do Fórum Lixo e Cidadania e catadora de recicláveis na Cooperativa Solidária dos Recicladores e Grupos Produtivos do Barreiro e Região (Coopersoli Barreiro), Neli Medeiros. “É triste, porque a gente estava fazendo uma campanha de conscientização da população e conseguindo coletar o material, mas agora isso se perdeu e vai para o aterro. A comunidade dos próprios bairros estava pedindo para passarmos em mais lugares. Esse novo normal tem deixado a gente com muito medo, porque vamos ter que refazer todo o processo de conscientização”, aponta.

Por ora, os materiais recicláveis são encaminhados ao aterro da Central de Tratamento de Resíduos Macaúbas, em Sabará, na região metropolitana de BH, junto ao restante do lixo gerado na capital. Mesmo antes da pandemia, os recicláveis recolhidos na coleta seletiva já eram minoria: 608 toneladas por mês, contra 2.230 toneladas de lixo em geral produzidas em um único dia na cidade.

Prefeitura não estabelece data para retorno da coleta seletiva

Os protocolos de segurança para o retorno da coleta e triagem de recicláveis nos galpões das associações está em fase final de aprovação, segundo a prefeitura da capital. Enquanto isso, cerca de 300 catadores associados em cooperativas da cidade estão assistindo a um curso online de 10 horas sobre novas normas sanitárias dos galpões, detalha Neli Medeiros, do Fórum Lixo e Cidadania.

Entre elas, está a “quarentena” dos itens recebidos, que serão borrifados com material sanitizante ao chegarem ao balcão e embalados em lonas durante sete dias, antes de ser manuseados. Além disso, os catadores seguirão utilizando luvas, máscaras e protetores faciais. A prefeitura ainda não informa quando o trabalho será retomado, mas afirma que pretende reiniciar as atividades “o mais rápido possível”. A expectativa de Medeiros é que a coleta seletiva retorne em outubro.

O engenheiro ambiental e sanitarista Igor Santiago, que assessora quatro das seis associações de coleta seletiva, explica que elas reivindicam que a própria prefeitura pague pelos materiais de higienização.

Renda de catadores de recicláveis desaparece com interrupção do trabalho

Até o retorno das atividades, a catadora de recicláveis Elisângela da Silva, 43, ainda não sabe como vai manter a renda da família. Com a interrupção das atividades da cooperativa onde trabalha, ela deixou de pagar o aluguel de onde morava e foi despejada. Agora, divide uma casa com outros oito familiares, no endereço de um dos filhos mais velhos.

“Antes (de a coleta seletiva parar) eu estava tirando um salário mínimo, o trabalho estava ficando melhor, mas aí a pandemia atrapalhou tudo. Os meus meninos fazem uns biquinhos e um recebe o auxílio de R$ 600, mas isso dá pra quê?”, questiona. Ela se diz ansiosa para retornar ao trabalho, quando isso for possível.

Como a recomendação entre as cooperativas é que trabalhadores do grupo de risco para complicações da Covid-19 não voltem ao trabalho imediatamente, uma parcela deles ainda não terá renda fixa. Para driblar essa dificuldade, a Coopersoli Barreiro, por exemplo, decidiu que o montante levantado por quem reiniciar as atividades será dividido com os profissionais afastados.

Para driblar a crise financeira, alguns catadores, membros de associações e cooperativas, recorrem a trabalhos particulares e estão recolhendo os recicláveis em empresas e condomínios, o que é autorizado pela prefeitura. “O preço da venda aumentou, mas os materiais diminuíram, então não é o bastante”, aponta um deles, Adriano Barbosa, 35.

A SLU informa que os catadores recebem cestas básicas e kits de limpeza e higiene da Prefeitura de Belo Horizonte durante a pandemia.

Brasil perdeu R$ 9,1 bilhões em vendas de recicláveis durante pandemia, diz associação

O Brasil deixa de gerar R$ 14 bilhões com a comercialização de recicláveis por ano, de acordo com estimativas da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Considerando uma média similar em 2020, o país deixou de ganhar R$ 9,1 bilhões com o material durante a pandemia, que já dura seis meses. Isso porque, além dos R$ 7 bilhões usuais calculados para o período, a quantidade de recicláveis jogadas no lixo no país, entre março e junho, aumentou cerca de 30%, segundo a associação.

É uma situação que pode se agravar no futuro próximo, na perspectiva do diretor-presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho. “Sem poder contar com esses materiais como matéria-prima, a indústria vai buscar outros materiais e matéria-prima virgem. Voltar com a cultura da utilização de recicláveis e a reinserção desses materiais vai demandar tempo”, diz.

Silva Filho opõe-se ao fechamento dos galpões de triagem de material reciclável, como ocorreu em Belo Horizonte. “Não há risco nos resíduos sólidos, com adoção de luvas e máscara na triagem. No começo da pandemia, não fazia sentido interromper e atividade e, agora, menos ainda, passados seis meses e com os impactos que essa suspensão causou, a perda econômica e a ambiental”, pontua.

Já Neli Medeiros, catadora e membro do Fórum Lixo e Cidadania de BH, concorda que a o fechamento foi necessário, mesmo ansiosa para retomar o trabalho.  “Chegavam máscaras e luvas no lixo. Achamos o decreto (de interrupção da atividade) correto demais e paramos o trabalho”, elabora.

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