Semana da Consciência Negra: documentarista e professora do DF busca espaço para narrativas que abordem questões sociais


Edileuza Penha de Souza conquistou júri da 25ª edição do Festival É Tudo Verdade com ‘Filhas de Lavadeiras’. Ela chegou em Brasília, há 15 anos, para ajudar implementar lei que determina ensino da História e Cultura Afro-Brasileira na educação básica, mas acredita que ainda há muito o que fazer. Professora Edileuza Penha de Souza
Lauro Vasconcelos/Seduc-MA
Negra, professora, escritora, documentarista e mãe de seis filhos, Edileuza Penha de Souza tem na trajetória de vida a marca da luta por um ensino que inclua narrativas e protagonismo da população negra. Mais recentemente, ela também tem ocupado o cinema com histórias que abordam questões raciais.
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O filme “Filhas de Lavadeiras” conquistou o júri da 25ª edição do Festival É Tudo Verdade – um dos eventos mais importantes para o cinema documental da América Latina.
Capixaba de nascença, a professora mora em Brasília há mais de 15 anos. Ela veio para a capital federal, a convite do Ministério da Educação (MEC), para ajudar implementar a Lei 10.639, de 2003 – que determina o ensino da “História e Cultura Afro-Brasileira” na educação básica.
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Reprodução
Edileuza Penha de Souza trabalhou na formação de professores e na produção de material didático. Um dos resultados, foi o livro “Negritude, Cinema e Educação”, onde ela compartilha a própria experiência que já adotava em sala de aula, como professora da educação básica (veja detalhes abaixo).
“Quando eu venho para trabalhar no Ministério da Educação, uma das queixas dos professores era a falta de material para implementação da Lei 10.639, o que me levou a este livro”, relembra.
“O livro tem uma parte de análise de um filme. Na outra parte, ele vem como receita de bolo mesmo: como o professor pode usar aquele filme, que é sobre protagonismo negro, em sala de aula”, conta.
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Professora de professores
Estudantes com livros durante aula sobre história e cultura afro-brasileira, em imagem de arquivo
Paulo Chiari/EPTV
Para a docente, o professor sai da faculdade sem o preparo necessário para a sala de aula, “em especial quando é para abordar a população negra”, aponta. “A Universidade de Brasília (UnB), a primeira a adotar cotas raciais, não tem um disciplina sobre negritude para os cursos de licenciatura, por exemplo”, diz ela.
“Nós vivemos numa sociedade racista e esse racismo, que é estrutural, ele se reflete em todos os âmbitos, inclusive nas universidades e nas escolas”, diz Edileuza.
Ela lembra que, durante o doutorado, na UnB, podia contar a quantidade de alunos negros. “Durante o tempo em que eu passei na UnB, eu fui a primeira professora negra de muitos estudantes”.
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Ao ser questionada sobre a importância do Dia da Consciência Negra, celebrado nesta sexta-feira (20), Edileuza diz que se trata de uma data para “lembrar da dívida que o Brasil tem com o povo negro”.
“Quando a gente fala de pessoas negras, estamos falando de trabalhadores e trabalhadoras que construíram esse país. É um dia para reflexão e para tomar consciência das questões raciais.”
Sala de aula, sala de cinema
Documentarista Edileuza Penha fala sobre a mostra de cinema negro
Após se formar em história, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), antes de se mudar para Brasília, Edileuza foi professora da educação básica em periferias, onde a maioria dos alunos era formada por negros.
Naquela época, década de 1990, a educadora usava a sala de aula para falar sobre questões raciais e, por meio de filmes mostrava o protagonismo negro. Segundo ela, “a visibilidade é fundamental na formação”
“O audiovisual é um ótimo recurso didático e pedagógico”, diz a documentarista e professora.
De professora que usava filmes para dar aulas, à produção de documentários, foi um longo trajeto. Mas ela nunca duvidou da força do audiovisual.
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Cena do filme “Filhas de Lavadeiras”, de Edileuza Penha de Souza
IFB/ Divulgação
Com dois filmes na carreira – “Mulheres de Barro” e Filhas de Lavadeiras” – ela levou para as telas parte da história das mulheres negras no Brasil. Edileuza conta que o ponto de partida, para passar para o outro lado, foi o seguinte questionamento: “Por que o cinema, como maior propagador do amor romântico, não contempla as mulheres negras?”.
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“Bell Hooks vai dizer que o amor é revolucionário, acho que é isso. Pensar que existem muitas histórias de mulheres negras que precisam ser contadas. Até então, não tinha ninguém contando, e eu fui buscar esse lugar de contar essas histórias a partir do audiovisual”, conta.
Participantes da III Mostra Competitiva de Cinema Negro Adélia Sampaio, em imagem de arquivo
Divulgação
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Edileuza pesquisa e incentiva o cinema negro desde 2006. Foi por meio desses estudos que fez o doutorado na UnB, onde ajudou a criar a Mostra Competitiva de Cineastas e Produtoras Negras Adélia Sampaio, que chegou à terceira edição em 2019.
Atualmente, Edileuza também dá aulas no Instituto Federal de Brasília (IFB), no Recanto das Emas. Ela relata que lá, encontra professores negros, “mas ainda se conta nos dedos das mãos”, lamenta.
Histórias de mulheres negras
Cena do documentário Mulheres de Barro, de Edileuza Penha de Souza
Reprodução/Documentário Mulheres de Barro
O primeiro curta-metragem da professora foi “Mulheres de Barro”. Nele, ela dá espaço para o relato de 12 mulheres paneleiras e congueiras de Goiabeiras Velhas (ES).
Assista aqui “Mulheres de Barro”
Já o filme “Filhas de Lavadeiras” conta a história de mulheres negras que, graças ao trabalho árduo de suas mães, puderam ir para a escola. Ele é inspirado na obra de Maria Helena Vargas, mulher negra que foi escritora, pedagoga e professora, e que viveu em Brasília.
O curta-documentário conquistou o júri da 25ª edição do Festival É Tudo Verdade. No mesmo dia, a cineasta levou para casa o Prêmio Aquisição Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem, no valor de R$ 15 mil. Esses títulos somam-se a outros, como:
Troféu Tesourinha de Júri Popular no 8º Festival Internacional de Curtas de Brasília
Melhor filme pelo júri popular
Melhor filme pela região Centro-oeste, Norte e Nordeste (Conne) no 7° Festival de Cinema Feminino – Tudo sobre Mulheres, em Cuiabá-MT
Menção Honrosa no 4° Cine Tamoio – Festival de Cinema de São Gonçalo/RJ de 2019
O documentário foi produzido com apoio do Fundo de Apoio à Cultura, da Secretaria de Cultura do Distrito Federal.
*Sob supervisão de Maria Helena Martinho
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