Senador flagrado com dinheiro na cueca deixa vice-liderança do governo Bolsonaro

Caso gerou repercussão no meio político. Chico Rodrigues foi afastado por três meses do mandato. Ele e Bolsonaro mostravam proximidade desde as eleições de 2018. Senador flagrado com dinheiro na cueca deixa vice-liderança do governo Bolsonaro
O senador Chico Rodrigues tinha sido escolhido pelo presidente Bolsonaro como um dos representantes do governo no Congresso.
Enquanto a Polícia Federal flagrava o senador Chico Rodrigues escondendo dinheiro, na manhã desta quarta (14), o presidente Jair Bolsonaro fazia essa declaração a seus apoiadores na porta do Palácio da Alvorada: “Se acontecer alguma coisa, a gente bota para correr, está certo? Dá uma voadora no pescoço dele, mas não acredito que haja no meu governo”.
Cedo nesta quinta (15), Bolsonaro negou que haja corrupção em seu governo. Disse: “Essa investigação de ontem é o exemplo típico do meu governo, que não tem corrupção no meu governo. Não tem corrupção. E combate à corrupção seja de quem for”.
Bolsonaro disse também: “Nós destinamos aí dezenas de bilhões de reais para estados e municípios, tem as emendas parlamentares também. E, de vez em quando, não é muito raro, a pessoa faz uma malversação desses recursos”.
E ainda acrescentou: “Se um vereador faz algo de errado, eu não tenho nada a ver com isso. Ou melhor, eu tenho a ver para ir para cima dele com a Polícia Federal se for o caso, com apoio da CGU”.
O vice-líder do governo representa o governo no Congresso. É nomeado pelo presidente da República, assim como teve que ser desnomeado no ato publicado nesta quinta (15) em edição extra do Diário Oficial.
E não é de hoje o apreço de Bolsonaro por Chico Rodrigues. Em 2018, o então candidato Jair Bolsonaro mostrou o quanto eram próximos. “Alô, amigos de Roraima, estou aqui recebendo o Chico Rodrigues, que vocês todos conhecem. Chico, com a palavra”, diz Bolsonaro em vídeo.
“Eu quero aqui agradecer ao meu amigo Jair Bolsonaro, de 20 anos de Câmara dos Deputados, desde aqueles idos tempos…”, fala Chico Rodrigues. “É quase uma união estável, hein, Chico?”, ri Bolsonaro.
Os dois foram eleitos e Bolsonaro nomeou o amigo para vice-líder do governo no Senado. Um sobrinho do presidente, Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, ganhou um cargo no gabinete do senador; virou assessor parlamentar. Salário bruto de R$ 22.943.
Quando Bolsonaro tentou fazer do filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, embaixador nos Estados Unidos, Chico Rodrigues foi escolhido relator. Mas acabou não ajudando, porque o presidente desistiu da ideia de indicar Eduardo.
Em 2019, o senador que hoje é suspeito de corrupção fez discurso de combate ao crime. “E finalmente ordem para acabar com a corrupção que se instalou em tantos setores da vida do nosso tão amado Brasil, e que tem contaminado, pelo mau exemplo, levas e mais levas de políticos, servidores públicos e empresários que não têm o mínimo pudor e vergonha de causar tantos danos ao nosso povo”, disse Chico Rodrigues.
Em nota, o partido dele, Democratas, declarou que “havendo a comprovação da prática de atos ilícitos pelo parlamentar, a Executiva Nacional aplicará as sanções disciplinares previstas no estatuto do partido”. O Democratas também pediu ao ministro Luís Roberto Barroso, do STF, acesso ao inquérito.
No fim da tarde desta quinta, o sobrinho do presidente Bolsonaro pediu demissão do cargo no gabinete de Chico Rodrigues. Alguns senadores da oposição querem que o caso Chico Rodrigues seja levado ao Conselho de Ética do Senado.
Chico Rodrigues não é o primeiro representante do governo Bolsonaro que foi alvo de investigação. No mês passado, em outra operação, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, do PP, foi alvo do Ministério Público do Paraná em investigação sobre fraudes na contratação de energia eólica.
E, em setembro de 2019, o gabinete do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, do MDB, foi alvo de buscas na Operação Desintegração, da Polícia Federal, que investiga irregularidades em obras no Nordeste. Eles continuam nas funções.
O senador Chico Rodrigues disse que vai provar a inocência e que por 30 anos tem se dedicado ao povo.
Sobre a operação do mês passado, o deputado Ricardo Barros disse que tem conduta ilibada e colabora com as investigações.
O senador Fernando Bezerra Coelho disse que a operação de setembro do ano passado foi um excesso e que a verdade dos fatos será restabelecida. O inquérito tramita no STF.
O presidente Jair Bolsonaro usou uma rede social para falar sobre o caso do ex-vice-líder: “Alguns querem dizer que o caso de Roraima tem a ver com o meu governo, porque ele é meu vice-lider. Olha, pessoal, eu tenho, no total, 18 vice-líderes no Congresso: 15 na Câmara, que foram indicados pelos respectivos líderes partidários, e três no Senado, que é em comum acordo, tá? Esse senador, ora nesse caso em Roraima, é uma pessoa que gozava do prestígio, do carinho, de quase todos. Eu nunca vi ninguém falar nada contra ele. Aconteceu esse caso? Lamento. Hoje ele foi afastado da vice-liderança. Agora, querer vincular o fato dele ser vice-líder à corrupção do governo não tem nada a ver”.
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