Shows no drive-in: artistas falam sobre sensação de cantar para fãs em carros

 


Jota Quest, Ivo Meirelles, Leo Chaves, Turma do Pagode e Rastapé comentam experiência de tocar para fãs em carros. Podcast explica limitações do formato nos tempos de pandemia. Cada vez mais artistas estão fazendo shows drive-in. Mas eles ainda não se acostumaram totalmente com o som das buzinas e o piscar dos faróis dos primeiros shows no Brasil após a pandemia da Covid-19.
Os shows, muitos com ingressos esgotados, são para cerca de 300 carros em estádios ou estacionamentos pelo Brasil. Veja depoimentos de artistas que já se apresentaram neste formato.
Rogério Flausino, do Jota Quest
Jota Quest se apresenta no Arena Sessions, evento com shows drive-in em São Paulo

“Foi uma experiência muito interessante, muito especial. Chegamos ao estádio e fomos sendo apresentados para tudo o que iria acontecer. Foi crescendo aquela vontade. Passamos som e, obviamente, estava todo mundo… Faltava só aquela coisa de subir no palco mesmo. ‘Como é que vai ser isso, cara? A galera vai cantar junto… nós não vamos ouvir. Como é que vai ser isso?’
Antes de a gente entrar, o pessoal passou uns vídeos de segurança e o pessoal do Arena Sessions, do drive-in, subiu ao palco para repassar com a galera as normas de segurança. Assim que eles terminaram e falaram ‘agora com vocês o Jota Quest’, rolou o primeiro buzinaço. E eu tava assim, ‘como é que vai ser essa parada?’, será que vai ser muito alto? Será que a gente vai conseguir cantar com esse barulho?’ As proporções do estádio são muito grandes, né? É um estádio gigante. E a quantidade de carros ali presente, com todos os carros buzinando e batendo o farol, não conseguiram, na verdade, superar o som que estava saindo. Então, acho que foi uma dinâmica boa.
Na hora que eu senti aquilo, eu falei ‘cara, vamo lá’. Entramos cantando a primeira música. Quando terminou a primeira música, a galera batendo sinal e buzinando eu falei: ‘Cara, isso é o aplauso. Isso é o sorriso da rapaziada’. Aplausos e sorrisos agora são faróis altos e buzinaço e tal. A gente ficou muito emocionado, cara. A gente estava muito angustiado de estar em casa. A gente estava ali, de alguma forma, representando toda a classe artística.
As lives são interessantes, mas elas não tem a plateia, não tem a buzina, não tem o farol alto. Isso foi acontecendo aos poucos. Talvez na oitava música, na nona música do show, eu já tava ‘rapaz, que que é isso? estamos fazendo um showzão aqui no Allianz Parque gigante. A galera tá curtindo muito, o som tá ótimo’. Tanto que era pra ser um show de uma hora e meia e fizemos de duas horas e vinte show. Tocamos músicas pra caramba.”
Buzinas em vez de aplausos: como funcionam os shows drive-in durante pandemia
Caramelo, da Turma do Pagode
Turma do Pagode faz show drive-in no estádio do Palmeiras
Divulgação/Wadson Henrique
“A gente não sabia o que esperar, né? Os carros parados lá e a gente não sabia como ia ser principalmente a interação, né? Mas a gente ficou ansioso para vivenciar essa experiência e, cara, foi muito interessante mesmo. A galera interagindo com a buzina, a buzina que normalmente é uma coisa meio negativa, coisa de trânsito.
Enfim, se tornou uma coisa totalmente interativa e do bem, sabe? A gente acabava as músicas e o pessoal buzinava ou fazia farol pra outras músicas. Foi muito legal. Fazia bastante tempo, desde primeiro de março que a gente não subia em um palco pra cantar pras pessoas. Então, a gente tinha esse caráter da saudade de fazer show.
É engraçado, porque parece que ninguém tá curtindo. É como se os carros estivessem te olhando, não pessoas. Mas a partir de certo momento, as pessoas começam a cantar mais alto, não sei o que acontece e aí você consegue sentir o calor humano. Transcendem os carros, consegue atravessar e aí você começa a sentir a reação das pessoas mesmo.
Eu vi vídeos de gente relatando ‘cara, a gente tem vontade de sair do carro, é desesperador. Porque a gente está em um show e o ritmo de vocês não combina estar sentado em um carro e curtindo’. Eu acredito que os ritmos mais agitados, mais dançantes, eles sofram um pouco por conta desse “problema” da pessoa querer sair do carro. Ela não quer ficar sentada, quer dançar, curtir, levantar a mão.
O que é diferente de uma peça de teatro, ou um stand-up, que você assiste mais sentado, que combina mais. Mas por enquanto, para a nossa segurança e para continuidade do setor, a gente vai ter que se adaptar, e por enquanto é sambar sentado na poltrona do carro, pra gente poder passar, né? Logo mais a gente vai poder levantar, sair do carro, enfim, curtir junto.”
Jorge Filho, do Rastapé
“Pra gente, fui um turbilhão de emoções. Nós ficamos de quarentena, a família ficou de quarentena, como a organização pediu, o Ministério da Saúde, e a gente estava cumprindo a nossa. Também meu pai que também é da banda, que toca acordeom, ele é idoso, tem mais de 70 anos. A gente estava com todo esse cuidado do mundo, ficamos de quarentena durante mais de 90 dias.
O primeiro palco que nós pisamos após a quarentena foi lá no Arena Sessions, no Allianz. Pisar no palco e ver aquele monte de carro, eu tinha tanta coisa pra falar, porque nós ficamos tanto tempo sem fazer shows, só que na hora travou, porque você chega ali e a emoção bate. Você começa a ver os músicos que trabalhavam com a gente ali do seu lado todo mundo bem graças a Deus.
E aí você vê o público ali super afim de sair de casa, de ver um show do Rastapé, de cantar as nossas músicas, e tava ali todo mundo dentro do carro, foi uma coisa, uma emoção que eu não consigo explicar. Ao longo desses vinte anos de carreira, fizemos muitos shows bacanas, emocionantes, são vinte anos de carreira, né?
Só que ali no Palestra Itália foi fora do comum mesmo, eu percebi que a gente estava fazendo história em relação a tudo que aconteceu, e ali eu percebi que a gente não estava só. A gente fica de quarentena, isolado, falando só através de rede social. E não tem contato físico com as pessoas e nem com o público. A gente só estava fazendo transmissão com as nossas lives e tudo mais.
E de repente ver todo mundo ali, a gente percebe que não era só a gente que tava passando por isso, todo mundo estava passando pelo mesmo que a gente estava passando. Foi uma energia bacana. O pessoal cantando, buzinando, a novidade: gostou, buzina. Pisca alerta, não… Pisca alerta não pode. Pisca os faróis. Foi uma interação totalmente diferente, sem explicação. Foi uma coisa inédita que aconteceu com a gente do Rastapé.”
Ivo Mereillles
Ivo Meirelles durante show no formato drive-in em São Paulo
Divulgação/Specio Histórias Em Imagens/Murilo Nascimento
“Quando você entra no palco, não tem aplauso e nem buzina tem. Tem um estranhamento ali. Depois da segunda, terceira música, segue normal, com todo mundo já entendendo. Mas subir ao palco foi bem estranho.Tem que se concentrar no show.
Cada carro tem uma, duas, três pessoas vendo. Então, tem que fazer o show imaginando o semblante das pessoas nos faróis. Tem que estar focado nisso para não se perder.
E todo mundo tem que se flexibilizar em relação a cachê. A flexibilização é geral. Está todo mundo perdendo alguma coisa: os artistas, os músicos, a plateia que vai de carro. O motorista não pode beber… Você não pode ir de Uber ou de táxi, então tem sempre alguém se sacrificando.”
Leo Chaves
Leo Chaves faz show drive-in em Santa Catarina
Divulgação
“Tinha notícia de que muitos artistas não quiseram fazer. Obviamente que se trata de um risco quando se vai fazer um evento desse. Até porque ninguém conhece os moldes, é uma coisa que vai sendo adaptada.
Mas quando nós subimos ao palco e vimos a quantidade de carros, as pessoas colocando os braços para fora, muita gente saindo pelo teto solar, levantando, curtindo, foi meio que um alento pra um artista que está sem contato com o público, sem expressar sua arte no palco.
O grito do público é um combustível. No drive-in, você não consegue perceber isso fora os momentos em que você está no intervalo. Aí você consegue ouvir gritos isolados. Não é um grito de multidão. Mas é um formato diferente e a gente sempre quer inovação.”


Com Agências