‘Tem sido mais trabalhoso’: professores falam sobre rotina e desafios durante a pandemia no Maranhão


15/10, Dia do Professor: de misturar rotina de trabalho com vida pessoal à dificuldade de manter os alunos conectados, educadores descrevem experiências com ensino durante crise sanitária. Jocelma Duarte é professora da educação infantil em São Luís
Divulgação/Colégio Crescimento
Ao falar de cancelamento das aulas presenciais, ensino remoto e alternativas para o futuro da educação, o aluno costuma ser o protagonista de todas essas discussões. Mas por trás de toda essa incerteza, estão milhares de professores maranhenses que, durante todo período de isolamento social, ficaram encarregados de pensar em soluções para amenizar o prejuízo ao ano letivo dos alunos. Logo, se a rotina dos estudantes mudou radicalmente, a deles também.
“É preciso muito mais tempo de planejamento para dar conta da adaptação das aulas. Além disso, o momento da aula em si requer do professor uma habilidade maior para, ao mesmo tempo, interagir com os alunos na sala virtual e apresentar o conteúdo. Parece simples, mas na verdade tem sido mais trabalhoso”, explica o professor universitário Márcio Monteiro, de 37 anos.
O perfil das aulas também precisou mudar. Segundo Márcio, a postura do aluno conta muito mais no ensino remoto do que antes e explorar as ferramentas tecnológicas disponíveis é praticamente indispensável para prender a atenção do estudante.
“Agora a gente precisa que o aluno tenha uma postura muito mais autônoma e tenha muito mais iniciativa, no sentido de fazer as leituras e tarefas dentro do prazo curto que temos até o fim do semestre. Então não dá pra ocupar toda a aula remota com aula expositiva, a gente recorre bem mais que antes a textos, filmes, vídeos, podcasts etc”, explica.
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Mas como aproveitar esses recursos quando a maior parte dos professores não dominava essas ferramentas? Um levantamento do Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), ao qual o G1 teve acesso, mostra que quase 90% dos professores não tinham experiência com aulas remotas antes da pandemia.
Professores falam sobre rotina e desafios durante a pandemia no Maranhão
Divulgação/Maple Bear
A professora Joelly Coimbra, que leciona inglês, disse que precisou não só estudar as ferramentas e novas estratégias de ensino como adaptar a própria casa para lecionar à distância. “Precisei adaptar um cômodo da minha casa e transformá-lo em minha sala de aula. A escola foi muito parceira e me deu todo suporte com os materiais necessários para que eu pudesse desenvolver o meu trabalho. Eu precisei estudar ainda mais, buscando novas estratégias e informações para desenvolver minha aula nesse novo formato”, conta a professora.
Joelly trabalha na mesma escola de Analéa Marques, professora de português, onde trabalha com turmas de alunos de 5 e 6 anos. Se antes, encontrar uma dinâmica de aula que conseguisse manter atenção de alunos tão pequenos já era desafiador, fazer tudo online, então, exigiu muito mais esforço.
“Precisamos nos adaptar e usar novos recursos on-line, como jogos da memória, atividades que os incentivassem a se locomover dentro de casa, a construção de jogos e brinquedos envolvendo a família, além das contações de história, utilizando fantoches, livros etc”, conta a professora da Maple Bear.
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Fora toda dedicação para amenizar o prejuízo ao ano letivo dos alunos, assim como eles, os professores também estiveram expostos aos reflexos pessoais que crise sanitária teve na vida de todos os cidadãos. A ansiedade é um desses reflexos.
“Assim como as crianças, eu também me senti inicialmente ansiosa. Por mais que a tecnologia já fizesse parte do nosso cotidiano, o nosso novo cenário fez com tudo passasse a ser vivenciado diferente de tudo que vivemos até então. Emocionalmente, todos fomos afetados por esse distanciamento do contanto físico, olho a olho, as interações. Na Educação Infantil, as relações são de muita proximidade, toques e escuta. Não sabia se conseguiria alcançá-los e mantê-los perto de mim por meio do on-line. Um passo a cada dia e fomos nos habituando, buscando ajuda mútua, eu de cá e cada um de lá, no seu lar”, disse a professora Jocelma Duarte, do Crescimento.
A necessidade do isolamento tem, ainda, repercussão na vida pessoal dos profissionais. “Penso que todos fomos obrigados, de um jeito ou de outro, a reconfigurar nossa relação com o trabalho e isso trouxe muitos prejuízos para a vida pessoal. Trazer o trabalho para dentro do lar não é tão agradável ou vantajoso quanto parecia”, acrescenta o professor Márcio Monteiro.
Rafael Carlos é professor do ensino público e privado, em São Luís e Itapecuru-Mirim
Arquivo Pessoal
No início do mês de outubro, o governador Flávio Dino (PCDoB), afirmou em entrevista coletiva que não é viável o retorno das aulas presenciais na rede estadual ainda este ano. A maioria das famílias e dos profissionais de educação continuam inseguros e não desejam a retomada das aulas nesse momento.
Para o professor Rafael Carlos, que dá aulas em turmas do ensino médio na rede pública e privada, dar aulas para uma geração já adaptada ao uso da tecnologia facilitou a rotina nas salas virtuais. “A opção mais imediata [no começo da pandemia no Maranhão] foi a transmissão das aulas online ou até mesmo a gravação das aulas para serem upadas em plataformas próprias das escolas/cursos ou ainda no Youtube e plataformas de vídeos diversas. Após essa primeira fase, as aulas em formato híbrido [parte da turma presencial e parte online] começaram a acontecer também”, relembra o professor.
Para o futuro, essa adaptação forçada pela pandemia e as incertezas do futuro têm levantado debates sobre as possibilidades da tecnologia como aliada à educação no pós-pandemia. “Acredito que uma das heranças seja a percepção do potencial que o uso da tecnologia tem para a dinamicidade da transmissão dos conteúdo de forma mais atrativa e interativa aos alunos, além de criar possibilidades para o professor explorar tais recursos de maneira mais direta e efetiva”, reflete o professor.
A educadora Jocelma acrescenta, ainda, que o contexto de crise ressignificou a educação: “Eu acredito que o ser humano sempre precisará do outro para a superação de qualquer desafio. O principal legado é que a educação, seja ela presencial ou virtual, continua e sempre será a mola propulsora para superar qualquer desafio”.
Professores superam desafio no ensino imposto por isolamento social no Maranhão
Divulgação/Maple Bear
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