Universitária de Itajaí criticou professor por conta de bandeira LGBT+

A postagem de uma aluna de psicologia da Univali do campus de Itajaí, na rede social Instagram, repercutiu nacionalmente nesta quarta-feira. Ana Paula Andrade Cruz, que cursa o 8º período de Psicologia, e se anuncia como “cristã”, acusou o professor de fazer “ideologia e doutrinação” porque ele apareceu numa live com a bandeirinha de arco-íris, que é símbolo da luta contra a homofobia.

Ana Paula afirmou estar incomodada com a imagem do professor, na sala da sua casa, com a bandeira da causa LGTBI. Por causa da pandemia, as aulas estão sendo remotas e transmitidas, ao vivo, da casa dos professores.

A universitária postou nos Stories do Instagram: “Crucifixos e sinais de fé não podem, e ok por isso, pois não fazem parte do contexto educacional. Mas símbolos e ideologias fora do mesmo contexto, que eles mesmo tanto reclamam, podem ser utilizadas. Afinal, a ideologia e doutrinação estão sempre presentes,” acusou Ana Paula.

A universitária disse que estava exercendo o direito à “liberdade de expressão” e afirmou que já sofreu preconceito por ser “cristã” e acusou o professor de “ideologia e doutrinação”. “Bem-vindo às instituições de ensino, onde eles podem militar por absolutamente tudo, e você tem que se calar. Pense bem onde vai colocar seu filho”, completou o post. Ela marcou a Univali no post publicado no Stories.

Colegas da aluna comentaram com o DIARINHO que após o post o professor não apareceu mais com a bandeira LGBTI+ nas suas lives. A decisão teria sido espontânea. Segundo os outros alunos, o professor teria se sentido constrangido com o post da aluna. Ele não quis conversar com a reportagem do DIARINHO sobre o caso.

Univali é contra o preconceito

A direção da Univali afirmou que não solicitou a retirada da bandeira exibida pelo professor. Em nota, a universidade disse que não compactua com declarações, atos, condutas ou manifestações que incitem discursos discriminatórios, autoritários ou preconceituosos. “Ao contrário, a instituição zela incondicionalmente pelo respeito à pluralidade de ideias, à livre expressão dos indivíduos, bem como à liberdade de manifestação do pensamento e do respeito às garantias individuais, sempre atuando de forma ética no relacionamento e na formação de profissionais de vanguarda”, diia a nota oficial da Univali.

O centro Acadêmico de Psicologia (Capsy) da Univali publicou nota de repúdio à postagem da aluna. O Capsy afirmou que é a favor da livre expressão das diversidades e contrário a toda e qualquer discriminação LGBTfóbica. “O Capsy manifesta pesar pelo ocorrido, e espera que o professor em questão possa se expressar sem censura por parte da Univali e de qualquer outra pessoa. O Capsy espera que instâncias da Univali tomem medidas de combate à discriminação, e que este tipo de violência, que afeta não só professores, mas também acadêmicos da Univali, seja combatida”, disse a nota.

Os representantes do centro acadêmico explicaram vão encaminhar notas ao colegiado do curso de Psicologia e à coordenação pedindo providências. Os alunos lembraram que o Brasil é um dos países onde homossexuais mais são vítimas de violência no mundo.

O DIARINHO procurou Ana Paula pelas redes sociais e também pelo WhatsApp. Ela respondeu que estava em contato com a advogada e que em breve responderia, mas não o fez até o fechamento desta matéria.

“Sala de aula é um lugar para todos e o professor, como formador de opinião, tem que ter cuidado com o que ele coloca e expõe,” disse Ana Paula em novo post na mesma rede social. Ela alega ter sofrido “preconceito em sala de aula por ser cristã e de direita”.

Ela alega que não pediu para o professor tirar a bandeira da sua live. “A única coisa que eu fiz foi questionar, mas para a militância o questionamento é visto como um ataque. O questionamento foi o suficiente para explodir a bomba. Quem sou eu pra mandar na casa do próprio professor”, diz.

Apoio de outras universidades

O centro universitário Dante (Unidante), da Uniasselve de Blumenau, diz que recebeu “aterrorizado” a notícia de LGBTfobia por parte de uma estudante de psicologia da Univali. Eles citaram a resolução nº 001/99, do Conselho Federal de Psicologia, que deixa claro que os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, “para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas”.

“Dessa forma, salientamos que a psicologia como ciência é contrária a toda manifestação preconceituosa. Enquanto alunos nos solidarizamos com o professor envolvido e nos colocamos contra toda discriminação. LGBTfobia é crime enquadrado no artigo 20 da Lei Nº 7.716! LGBTfobia é contra a Declaração Universal dos Direitos Humanos! LGBTfobia é contra o Código de Ética Profissional do Psicólogo! LGBTfobia é contra tudo que a humanidade precisa para avançar!”, publicaram os alunos da universidade.

Universitária não sabe o que é ideologia, opina especialista

Otávio Zini, bacharel em Direito e presidente do coletivo Amigos e Tribos, que trabalha pelos direitos da população LGBTQI e de outras minorias, opina que a universitária mostrou no episódio total desconhecimento do que termo ideologia. “Ideologia é um conjunto de ideias das quais a gente escolhe fazer, ter ou acreditar. Quando se fala de sexualidade humana, não falamos de escolha. É uma característica intrínseca do ser humano e não uma escolha”, completa.

Otávio explica que a bandeirinha do arco-íris representa um movimento que trata das minorias. “Só que enquanto bandeira ela não representa uma ideologia. O primeiro erro é esse. Seria a mesma coisa que dizer que a bandeira do movimento negro é ideologia. O que a aluna cometeu é crime”, opinou.

Otávio pretende cobrar providências do Conselho Regional de Psicologia (CRP). “Porque daqui a um ano essa aluna estará pleiteando uma inscrição no conselho Regional de Psicologia e, para integrar qualquer conselho, é feito um processo checando a idoneidade da pessoa. E já se caracteriza um retrocesso ir contra as próprias portarias do CRP 12. Eu espero que o conselho tome providências e não forneça a credencial de psicóloga”, opinou.

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