‘Violência contra mulheres surdas também cresceu’, diz baiana que criou canal de orientações jurídicas em libras


Laiza Rabouças criou o canal na internet chamado JusLibras para incentivar pessoas surdas a buscarem seus direitos. Laiza tem graduação em Letras e em Direito
Arquivo Pessoal
Uma professora baiana, com formação em Direito e em Letras, criou um canal no youtube e em outras redes sociais para tirar dúvidas jurídicas utilizando a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Laiza Rebouças atua no Centro de Capacitação de Profissionais da Educação (CAS) Wilson Lins, em Salvador, e utiliza as redes sociais para ajudar pessoas surdas em todo estado.
A ideia surgiu porque Laiza, além de professora de Libras, é formada em Direito. Ela conta que muita gente da comunidade surda lhe pedia orientações depois de saber da sua formação acadêmica.
“Criei esse canal para distribuir informações jurídicas em Libras, pois muitos surdos não tem conhecimento de onde podem buscar informações sobre seus direitos”, explica.
A bacharel em Direito conta que sempre conversava com pessoas individualmente mas com o tempo percebeu que poderia facilitar o acesso se disponibilizasse as respostas em vídeos na Internet. Foi assim que criou o canal JusLibras, (sigla de Justiça em Libras), onde responde as perguntas e fala sobre os temas mais procurados pelas pessoas surdas.
“O que me motivou a criar foi a comunidade surda. Somos guetos grandes e muito unidos para lutar por nossos direitos e nossa língua (Libras). Muitos sabem que sou professora de Libras e também sabem a minha formação em Direito (acho sou única surda formada em Direito na Bahia). Por conta disso ficavam me procurando para pedir orientações”, conta.
Diagnosticada surda quando criança, Laiza ressalta que encontrou um novo universo quando começou a se comunicar com outros surdos, aos 16 anos.
“No início, usava apenas sinais e gestos, mas a comunidade foi me ensinando, até ficar fluente em Libras. O contato com eles foi ótimo e me inspirou, descobri a minha identidade, me senti segura. Assim, comecei a estudar Letras pela Língua Brasileira de Sinais, e a minha visão se abriu para um novo horizonte”, recorda.
Hoje, Laiza busca ajudar a comunidade com tudo que aprendeu. As principais dificuldades que as pessoas tem para resolver questões jurídicas, conta a professora, se referem principalmente ao acesso a informações e dificuldades para se comunicar.
“As principais dificuldades jurídicas são a falta de acesso a informações na língua dos surdos. Além disso, tem poucas pessoas para traduzir audiências. Muitos profissionais de Libras são intimados para traduzir”, explica.
Canal JusLibras está presente no Youtube e outras redes sociais
Reprodução
Violência doméstica
Desde que começou a dar orientações jurídicas, a professora Laiza notou que um dos principais tópicos tem sido sobre violência doméstica. A bacharel conta que o problema afeta muitas pessoas surdas, especialmente mulheres, que a procuram quando não conseguem denunciar por telefone.
“A maioria são mulheres surdas, não apenas na Bahia, mas no Brasil todo. Elas não conseguem ligar para a polícia, então falam comigo. Para denunciar, fazer BO [boletim de ocorrência] ou registrar no IML (agressões físicas), espaços onde geralmente não tem acessibilidade em Libras”, ressalta.
Além disso, conta a professora, assim como para as mulheres não surdas, o isolamento provocado pela pandemia contribuiu a diminuição das denúncias e aumento da violência contra mulheres surdas. Laiza conta que dá orientações às vítimas sobre como proceder.
“Como eu não trabalho na área penal e nem criminalista, eu apenas converso com quem me procura e tento orientar o melhor caminho para buscar seus direitos”, explica.
Acessibilidade em concursos
Laiza Rebouças dá aulas de Libras
Arquivo Pessoal
Laiza Rebouças é formada em Letras Libras, pela Universidade Federal de Santa Catarinae e em Direito pela Universidade Católica do Salvador. Ela conta que passar pela graduação não foi fácil por conta das dificuldades para compreender os conteúdos passados em Língua Portuguesa.
“Foi muito difícil, muito esforço, muitas leituras. Perdi e recuperei as matérias. Até conseguir me formar, foram seis anos de graduação. Com acompanhamentos de profissionais intérpretes de Libras, e também ajuda de alguns colegas queridos que me deixavam copiar seus cadernos”, recorda.
Depois da graduação em Direito, Laiza se deparou com outro desafio. O Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), obrigatório para exercer a profissão de advogada em todo território nacional.
Laiza conta que fez a prova apenas uma vez, mas não se sentiu confortável. “Senti um bloqueio, motivado por não poder acessar o exame na minha língua natural. Minha primeira língua é Libras, a segunda é Português”, explica.
“O exame proficiência da OAB não tem prova acessível como vídeos em Libras. Há a presença de um intérprete para acompanhar e ajudar com informações dadas no momento na prova. Mas isso não é suficiente”, afirma.
O G1 pediu informações para a OAB sobre a acessibilidade nos exames mas até a publicação desta reportagem não obteve resposta.
Laiza conta que atualmente luta para que este exame seja realizado da mesma forma que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), com vídeoprova em Libras. De acordo com informações do Ministério da Educação, no Enem, esta modalidade passou a ser oferecida em 2017.
“Meus objetivos agora são passar no Exame da OAB e em um concurso público na área jurídica. Além disso, recebi mensagens e pedidos para promover cursos para surdos sobre as leis, os direitos e a acessibilidade em Libras. Estou elaborando os vídeos, com inauguração prevista para final de novembro”, conta.
Veja mais notícias do estado no G1 Bahia.
Assista aos vídeos do BATV
Tags .Adicionar aos favoritos o Link permanente.