Volta às aulas presenciais: Alunos, pais e professores falam dos desafios; mais de 460 escolas de SC foram afetadas por ciclone e tornados


Desigualdade entre estudantes nas atividades remotas deve ser ponto de atenção na retomada, diz professora. Ensino médio terá apoio pedagógico presencial a partir do dia 19 em quatro regiões catarinenses. Escolas estaduais recebem termômetros e equipamentos em Blumenau
Os professores da rede estadual das regiões catarinenses em risco alto voltam ao poucos ao trabalho presencial para a retomada das aulas a partir de segunda-feira (19), oito meses após serem suspensas. Cada escola, seja das redes públicas estadual e municipais ou da rede particular, têm autonomia para definir a escala de estudantes que vão voltar.
Para professores, um dos desafios será tentar superar a desigualdade entre os alunos que tiveram acesso aos materiais on-line e os que tiveram materiais impressos ou a nenhum conteúdo durante as atividades remotas da rede estadual.
Aproximadamente 3% dos mais de 500 mil estudantes não acessaram nenhum material desde março, mesmo o estado realizando busca ativa às famílias. Essa diferença poderá provocar impactos na aprendizagem, segundo os professores.
“A gente começa as diferenças gritantes na educação, a perceber a desigualdade e que a meritocracia são privilégios. […] A defasagem na educação tem tudo a ver com os recursos que os alunos têm. A escola é pública, é para incluir todos, não só os que tiveram recursos”, diz Jania Sucupira, professora de artes da educação estadual.
Professora de SC fala das dificuldades enfrentadas para ensinar durante a pandemia
As aulas em Santa Catarina foram suspensas por causa da pandemia em 19 de março. Agora, os estudantes podem voltar a estudar presencialmente apenas nas escolas que ficam em regiões em risco moderado ou alto para o coronavírus, de acordo com o mapa de risco do governo, que nesta quinta-feira (15) foi atualizado e tem quatros regiões em risco alto e 12 em situação grave.
Todos os alunos, independente de retornar ou não as aulas presenciais, seguem com atividades remotas. Os alunos das séries iniciais do ensino fundamental da rede estadual não devem voltar a ter aulas presenciais neste ano.
O retorno a partir de segunda-feira (19) será para apoio pedagógico pelos alunos do ensino médio que estavam com dificuldades de acesso. Com isso, as aulas nas redes municipais podem iniciar depois. Até a noite de quarta-feira (14), nenhuma escola havia validado o plano individual de retomada junto à rede estadual de educação.
“O município não faz ensino médio e pode até aguardar. As escolas particulares também têm essa autonomia, com o regramento que devem iniciar pelos maiores, e movimentos semanais aumentando o número de alunos no ambiente escolar”, diz o secretário de Estado da Educação, Natalino Uggioni.
Secretário estadual de Educação, Natalino Uggioni
Reprodução/ NSC TV
Algumas associações municipais se manifestaram contra o retorno das aulas presenciais e esse também é o posicionamento do Sindicato dos Trabalhadores em Educação na Rede Pública de Ensino do Estado de Santa Catarina (Sinte/SC).
“Sabemos que não mudou a situação, existe regiões desacelerando e outras aumentando. Não vamos correr esse risco. Tem escola que ainda não criou comitê [para definição das regras]”, justificou Luiz Carlos Vieira, diretor do Sinte-SC em entrevista ao Bom Dia Santa Catarina desta quinta-feira (15).
Para ele, além das condições dos alunos, o desafio de manter a saúde todos não pode ser deixado de lado e uma reunião entre professores deve ser realizada na sexta-feira (16) para discutir o assunto – veja a entrevista completa no vídeo abaixo. A entidade participou de todas as reuniões com o Estado e 15 entidades sobre a retomada.
Das 21 associações de municípios de SC, seis são contrárias ao retorno das aulas
Como o retorno será gradual e semanal, a partir dos terceiro ano até chegar ao ensino fundamental, deve ser organizado um painel com histórico de cada um dos alunos da rede estadual para decidir quem será aprovado no fim do ano.
Além de Santa Catarina, pelo menos outros oito estados definiram as datas de retomada
Mais de 460 escolas afetadas por fenômenos climáticos
Telhados e mobiliários de dezenas de escolas ficaram danificados com passagem de ciclone bomba
SED-SC/Divulgação
Para o Estado, além do desafio de garantir o cumprimento das medidas de prevenção contra o coronavírus, houve ainda a recuperação de escolas atingidas pelos fenômenos climáticos que ocorreram no estado durante a pandemia.
Houve destelhamentos de salas, ginásios, paredes e muros danificados, além de danos no mobiliário.
Das 1.065 escolas da rede estadual, 412 foram afetadas pelo ciclone bomba no fim de junho em diferentes regiões de Santa Catarina e 72 pelos tornados em agosto.
Segundo o estado, em levantamento feito em setembro, no total foram 468 unidades da rede estadual afetadas pelos dois eventos climáticos e pelo menos 38 dessas escolas estavam em obras por causa do ciclone quando foram atingidas pelos tornados. Teve ainda outras unidades de ensino municipais também afetadas e não contabilizadas pela pasta.
A maior parte dessas escolas já foi reformada, mas em seis o retorno não será possível em 19 de outubro por causa das obras, segundo dados da secretaria do início deste mês. A atualização da situação deve ser feita na próxima semana. No caso de unidades que estiverem autorizados a retornar e ainda estarem em obras, os estudantes devem ser realocados para outras unidades.
Dificuldades de acesso
Desde março, sindicatos dos professores e educadores apontaram para casos em que famílias com outras prioridades durante a pandemia, como manter as contas em dia, e a internet para acessar conteúdos de aulas ficava em segundo plano.
Para a professora Jania Sucupira, que leciona artes em uma escola da rede estadual em São José, na Grande Florianópolis, no caso dos materiais impressos é necessário os educadores levarem em consideração as condições da escola onde trabalham, se possuem capacidade de imprimir tudo o que deseja, por exemplo.
“Todo esse contexto fez com que a gente parasse um pouco se sentindo mal em relação ao atual momento, que não é só a pandemia, tinha problema de renda, das crianças que não têm acesso, que não tem recursos em casa, que não há um olhar para essas diferenças. A gente não trabalhou isso. Infelizmente, agora deu para a gente perceber e felizmente, porque a gente pode pensar como vai ser daqui para frente”, afirma a professora Jania.
Ela percebeu dificuldade dos alunos principalmente com os pacotes de dados que não suportavam muitas vezes carregar vídeos, além de não poder disponibilizar aos alunos em material impresso o mesmo detalhamento do conteúdo online.
“Na plataforma, na aula de artes, eles podem visitar bibliotecas, museus, e no material impresso não”, exemplificou.
Importância dos professores
Nesta quinta-feira (15), Dia do Professor, a educadora Jania Sucupira reforça a necessidade de os pais e toda comunidade escolar e o Estado se unirem para enfrentar os desafios na retomada do ensino.
“A escola é formadora de cidadãos, a cidadania passa por levantar assuntos pertinentes junto com as comunidades para que sejam discutidas as soluções para os problemas da educação. Seria uma forma dos pais e comunidades participarem no enfrentamento das dificuldades no espaço escolar”, disse.
Desafio para os pais
Pais de alunos de SC falam sobre preocupações com aprendizado dos filhos e volta às aulas
As dificuldades de acesso e também para assimilação dos conteúdos também foi um desafio para os pais. Segundo Marieli Scarabotto, mãe de duas alunas da rede municipal de Florianópolis e um da rede estadual, toda família precisou se reorganizar na pandemia para os estudos.
“Importante parar para pensar o quão os profissionais da educação fizeram falta para nossas crianças e famílias”, diz a mãe. (Veja no vídeo acima o relato dela completo).
Marieli conta que em alguns casos foi necessário pedir ajuda para outras pessoas, especialmente no caso das aulas de exatas, como matemática.
“Temos condições de internet, computador em casa, mas a gente sabe que tem muitas crianças que não têm. Esse ano não tenho como ano perdido, mas sei que não aprenderam como dentro de uma escola”, afirma.
Um pai de aluno da rede particular ouvido pelo G1 também destacou que como seus filhos têm essa facilidade de acesso aos materiais e como a escola tem dado suporte e videoaulas, prefere que eles retornem quando houver vacina.
“Para nós não há dificuldade, acho que o retorno é mais por comodidade dos pais que não estão sabendo lidar com as crianças em casa”, conta Telis Fernandes.
No entanto, no caso das redes municipais e estadual, não houve ensino à distância, mas ocorreram atividades remotas porque não era obrigatório que todos os professores produzissem vídeos ou lives, por exemplo, que são feitas de acordo com as condições e ferramentas disponíveis.
Falta dos amigos
Os três alunos ouvidos pelo G1 relatam em vídeo preocupação com o retorno das aulas presenciais, mas ao mesmo tempo, todos eles sentem saudades da escola, principalmente dos amigos e dos professores.
“Sinto falta da escola é dos amigos, das brincadeiras, dos esportes, mas tem que se cuidar para não passar o coronavírus para os avós, para a família”, conta Gabriel Telis Fernandes, de 11 anos, estudante do 6º ano de uma escola particular na Grande Florianópolis (Veja o relato completo dele no vídeo abaixo).
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“A última vez que vi meus professores foi em videoconferência e foi muito legal, eles até fizeram um quiz”, conta Luara Scarabotto Kirch, estudante do 6º ano da rede municipal de Florianópolis.
Ela é uma das filhas de Marieli Scarabotto. Luara e a irmã estão apreensivas com o retorno, que no caso das séries delas, ainda não tem data certa para o retorno.
“Imagino que o retorno às aulas vai ser meio assustador, todo mundo tirando máscara porque tem pessoas não respeitam”, disse Luana.
Em Florianópolis, cada escola vai elaborar seu próprio plano de retomada. “Não imagino voltar as aulas, se voltar, acredito que vai ser estranho. Não me sinto confortável em voltar sabendo que ainda corremos perigo com o vírus”, afirma Eduarda Scarabotto Kirch, aluna do 8º ano da capital.
Segundo o secretário de Educação Municipal, Maurício Pereira, só em 2021 é que será possível saber o impacto de uma possível diferença da eficiência entre os planos de cada escola.
“Nesse momento o mapa de risco não nos permite o retorno às aulas. […] O ano que vem será de profunda avaliação e diagnósticos porque evidentemente tivemos dificuldades de uma ou outra criança”, disse o secretário (Veja a entrevista completa no vídeo abaixo).
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