Joinvilense perdeu o pai e a mãe em dois dias para a Covid-19

Já são 431 mortes pela Covid-19 em Joinville, no Norte de Santa Catarina. Para as estatísticas, são números, para os familiares, foram vidas e sonhos interrompidos sem aviso prévio. Para Bruna Burg de Souza há quase 10 dias a dor da saudade e da perda se multiplicou. Em dois dias, a jovem de 24 anos perdeu o pai e a mãe para a doença.

Antônio Carlos de Souza e Maria Helena Burg morreram de Covid-19 em Joinville

Em dois dias, Bruna Burg de Souza perdeu o pai e a mãe, vítimas da Covid-19 em Joinville – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Aos 64 anos, Antônio Carlos de Souza, conhecido como Carlão, foi levado da família pelo coronavírus. O pai de Bruna era ex-motorista do JEC e aprendeu a amar o time e os “guris que só faziam bagunça no ônibus”. Carlão morreu no dia 6 de dezembro, cerca de uma semana depois de apresentar os primeiros sintomas.

Dois dias depois, antes mesmo de conseguir superar a perda do pai, Bruna recebeu a notícia de que a mãe, Maria Helena Burg, de 59 anos, não havia resistido às complicações da Covid-19. Ela ficou cerca de 10 dias internada.

Bruna conta que o pai sempre foi motorista de caminhão e se aventurou por mais de um ano na “boleia” do ônibus do JEC. Apesar de não ser torcedor fanático, a experiência aflorou o amor pelo time da cidade, pelos jogadores e funcionários do clube. Carlão havia se desligado durante a pandemia, em abril, mas continuava transportando os atletas ocasionalmente.

“Ele falava muito das amizades do JEC, do massagista, roupeiro. Quando ele começou, não era viciado, mas ficou. Começou a pegar gosto pela coisa. Ele sempre falava que tocava o terror na gurizada que sujava o ônibus”, lembra.

Carlão foi internado para realizar uma cirurgia e não voltou mais para casa. O procedimento cirúrgico correu bem, mas o motorista contraiu o coronavírus e as complicações não o deixaram voltar para casa com o a famosa simpatia. “Ele sempre foi um homem carismático, de bem com a vida. Nunca víamos ele emburrado e, se alguém precisasse de qualquer favor, ele estava lá”, conta.

Natural de Santos, Carlão morava há quase três décadas em Joinville, mas uma das lembranças que Bruna guardará são as histórias que o pai contava da própria infância no litoral paulista. “Ele adorava contar as histórias da época da infância, de como Santos era antigamente. Era um pai muito presente e que fazia qualquer coisa por mim”, diz.

Apesar de ter comorbidades, como pressão alta e diabetes, a filha conta que Carlão não tinha problemas graves de saúde e “nunca ficava doente”. “Nós tínhamos esperança e por isso foi triste, por isso o baque. Ele nunca ficava doente, não esperávamos porque ele não tinha saúde debilitada, nunca reclamava de dor”, lamenta.

Internado e ainda sem saber o diagnóstico após a cirurgia, Carlão recebeu visitas da família e, embora todo o cuidado tenha sido tomado, os familiares também foram infectados e a mãe, não resistiu.

Maria Helena passou cerca de 10 dias internada desde os sintomas mais severos até o falecimento. “Ainda é difícil falar. Não é fácil. Nós sabemos que sempre vai ser importante, mas estávamos em uma fase de curtir muito a vida. Nós choramos, mas não é de remorso, é por saber que o sofrimento acabou e, ao mesmo tempo, de saudade”, finaliza.

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