Jovens mortos após blitz policial no RJ são enterrados; ‘Não podem andar de moto só porque são pretos?’, diz mãe


Clima era de consternação entre amigos e familiares na cerimônia de despedida. Em depoimento, PMs presos alegaram que não atiraram contra Edson e Jordan, de 20 e 18 anos. DHBF investiga o caso. Jordan Luiz Natividade, de 18 anos, e Edson Arguinez Junior, de 20, foram mortos durante abordagem policial em Belford Roxo, na Baixada Fluminense
Reprodução
Os dois jovens que apareceram mortos após passarem por uma abordagem policial em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, foram enterrados nesta segunda-feira (14). O clima era de consternação entre amigos e familiares que estiveram presentes na cerimônia de despedida.
A mãe de Edson Arguinez Junior, de 20 anos, afirmou que seu filho e a outra vítima, Jordan Luiz Natividade, de 18 anos, não estavam fazendo nada ilícito no momento em que foram parados pelos policiais.
“Dois rapazes não podem andar numa moto só por que são pretos? Que isso? Onde a gente está? Alguém viu meu filho roubando? Ou fazendo alguma coisa ilícita? Meu filho não estava com nada, nem o colega dele. Eles foram covardemente assassinados”, afirmou a mãe de Edson, Renata.
Em tom de revolta, a mãe da vítima afirmou que o sentimento é de que se tivessem tirado uma parte dela. Ela afirmou ainda que os jovens foram “covardemente assassinados”.
“A troco de que fizeram essa covardia com meu filho? Esses crápulas, que dizem que são policiais. Na verdade, não são nem seres humanos a meu ver. Tiraram um pedaço de mim. Olha quantas pessoas tem aqui, se meu filho fosse uma má pessoa, não teria nem metade de quem está aqui. Foram covardemente assassinados pelos policiais”.
‘Ação extremamente errada, diz porta-voz da PM
Câmeras de segurança registraram os jovens algemados por policiais, antes de serem executados.
O porta-voz da Polícia Militar, major Ivan Blaz, disse na manhã desta segunda-feira (14) que a foi uma “ação extremamente errada”. As vítimas foram Edson Arguinez Junior, de 20 anos, e Jordan Luiz Natividade, de 18 anos.
“Infelizmente, esses jovens policiais colocaram suas carreiras em risco por conta de uma ação extremamente errada”, afirmou, em entrevista ao vivo no RJTV.
O cabo Júlio Cesar Ferreira dos Santos e o soldado Jorge Luiz Custódio da Costa – responsáveis pela abordagem dos rapazes – foram presos preventivamente. Um vídeo registrou o momento em que eles encontram os jovens na motocicleta.
O que mostram as imagens
Nas imagens, é possível ver que um policial atira em direção aos dois jovens que passam de moto. Em seguida, os dois caem.
Um PM dá um chute nas costas de um deles. Logo depois, o carro branco que estava parado atrás do da polícia deixa o local.
Um policial leva um dos jovens para o outro lado da rua. O outro se arrasta para o mesmo lugar. Os policiais ficam minutos ali. Um deles desaparece da imagem.
Outra câmera mostra o momento em que os jovens são algemados e levados pelos policiais. Edson e Jordan foram encontrados em outro local, distante do ponto onde foi feita a abordagem.
No carro dos policiais, a perícia encontrou o que acredita ser manchas de sangue no chão e no tapete do veículo.
Na primeira câmera, o policial aparece subindo na moto e deixando o local. O outro PM entra no carro e também dá a partida.
Em depoimento, os dois policiais disseram que o piloto da moto perdeu o controle e eles caíram, e que não houve nenhum disparo.
O cabo Júlio Cesar disse ainda que os rapazes foram algemados para levá-los até a delegacia e, por isso, o soldado foi dirigindo a moto com os dois algemados no banco de trás.
Eles disseram ainda no depoimento que uns 40 metros depois resolveram liberá-los porque concluíram que nem os jovens e nem a motocicleta tinham problemas.
A prisão dos policiais foi concedida pelo juiz de plantão com o agravante de não terem informado ao comandante do Batalhão o que havia ocorrido. O soldado Jorge Luiz afirmou no depoimento “não ter o que relatar”.
Família dos jovens
Jordan Luiz Natividade, de 18 anos morava com a mãe, o padrasto e a irmã menor em São Bernardo, Belford Roxo. Ele ajudava o padrasto e cursava o ensino médio, fazendo aulas online na Escola Municipal Manoel Gomes.
Natália Esteves, tia de Jordan, disse em entrevista ao telefone que a primeira informação que receberam era de que o sobrinho e seu amigo tinham sido presos.
“Esse é o sentimento de revolta. Porque ali na situação ele não reagiram em nada. Nada que os policiais pudessem se sentir ameaçados. Não tem resposta.”
Mãe fala em covardia
Renata, mãe de Edson, disse que o filho era brincalhão, alegre e amoroso, que gostava muito de jogar futebol. Ela também lamentou a atuação dos policiais.
“Em vez de proteger o cidadão, eles fazem covardia”, resumiu.
A Subsecretaria de Estado de Vitimados informou que ofereceu auxílio psicológico e social para as famílias dos rapazes.
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