Justiça de SP aceita denúncia e PM vira réu acusado de matar artista após discussão na Vila Madalena


Sargento Ernest Decco Granaro é acusado de homicídio doloso contra artista plástico NegoVila no último dia 29 de novembro na Vila Madalena, bairro boêmio da Zona Oeste da capital. PM alega legítima defesa, mas continuará respondendo preso ao processo. O sargento da PM Ernest Decco Granaro responde preso pelo crime de homicídio doloso contra o artista plástico NegoVila em São Paulo
Reprodução/Arquivo pessoal/Redes sociais
A Justiça aceitou na semana passada a denúncia do Ministério Público (MP) e tornou réu o policial militar acusado de assassinar um artista plástico após discussão em 29 de novembro na Vila Madalena, bairro boêmio da Zona Oeste de São Paulo. Ele responde preso ao crime de homicídio doloso, aquele no qual há a intenção de matar.
Wellington Copido Benfati, conhecido como NegoVila Madalena, de 40 anos, foi morto com um tiro disparado pelo sargento da Polícia Militar (PM) Ernest Decco Granaro, de 34 anos, durante uma briga perto de uma distribuidora de bebidas e de um posto de combustíveis na região de Pinheiros.
O policial estava de folga e sem uniforme na data do crime, cometido de madrugada, após confusão entre os frequentadores do local, no cruzamento das ruas Deputado Lacerda Franco e Inácio Pereira da Rocha.
Apesar de ter alegado legítima defesa para atirar, Ernest foi preso em flagrante por outros policiais militares pelo crime de homicídio. Por decisão do juiz Adilson Paukoski Simoni, da 5ª Vara do Júri, o réu continuará detido preventivamente no presídio Romão Gomes da PM, na Zona Norte.
NegoVila trabalhava em produções de cinema e comerciais, segundo contou sua irmã
Divulgação/Arquivo pessoal
O magistrado marcará futuramente uma data para a audiência de instrução do caso, parte do processo no qual serão ouvidas as testemunhas e será feito o interrogatório do réu. Após essa etapa, o juiz decidirá se há indícios para levar o policial a julgamento popular.
O promotor Rogério Leão Zagallo, que fez a denúncia, acusa o sargento de querer matar NegoVila. Crimes dolosos contra a vida, como o homicídio doloso, são julgados por um júri popular. Cabendo a sete jurados decidir se condenam ou absolvem o acusado. Ao magistrado resta aplicar a sentença e pena a partir da decisão do júri.
O crime
Esquina das ruas Deputado Lacerda Franco com a Inácio Pereira da Rocha, região onde NegoVila foi morto por um policial militar à paisana após discussão em São Paulo
Reprodução/Google Maps
Testemunhas contaram à Polícia Civil que no dia do crime, NegoVila tentou apartar uma briga do amigo dele com outras pessoas. Em seguida, segundo os relatos, o PM, que estava à paisana, deu um soco no artista, que revidou.
As pessoas que estavam no local disseram ainda que viram Ernest atirar duas vezes: a primeira para o alto, para afastar a multidão, e a segunda contra o peito de NegoVila, que estava caído no chão, sem representar qualquer risco ao policial.
De acordo com testemunhas, o sargento iria atirar novamente em NegoVila, mas uma amiga da vítima se jogou sobre o artista para protege-lo e implorou para Ernest parar.
O G1 não conseguiu localizar a defesa do PM para comentar o assunto até a publicação desta reportagem. Os advogados do sargento queriam ainda que o juiz decretasse segredo de Justiça no caso, mas o magistrado negou o pedido.
Policiais militares em frente ao 14º Distrito Policial (DP), em Pinheiros, para onde o sargento foi levado preso após matar Nego Vila
Reprodução/Arquivo/TV Globo
Segundo o boletim de ocorrência do caso, registrado no 14º Distrito Policial (DP), o sargento alegou atirou no artista plástico em legítima defesa após ser cercado por pessoas que “tentavam ‘tomar’ sua arma de fogo, tendo o indiciado disparado sua pistola a fim de repelir a injusta agressão que estava sofrendo”.
Como o local do crime é próximo à delegacia, que fica na Rua Deputado Lacerda Franco, outros agentes da PM que estavam no distrito policial registrando uma ocorrência saíram após ouvir dois disparos de arma de fogo. E foram ver de onde vinha o barulho.
Os policiais militares contaram que chegando próximo a uma distribuidora de bebidas e um posto de combustíveis encontraram pessoas dizendo que um homem perto de uma árvore tinha atirado e ferido uma pessoa. E que estava apontando a arma para outras pessoas.
O atirador, “apresentando ainda dificuldade para falar e sinais de embriaguez”, se identificou como policial militar, mas não queria obedecer as ordens dos outros PMs para largar a arma e se entregar. Foi preciso que um outro policial militar o desarmasse. Em seguida, Ernest foi algemado e levado ao DP.
Enquanto isso, NegoVila estava caído no chão. Em seguida, uma ambulância o levou ferido ao Pronto Socorro da Lapa, onde ele não resistiu aos ferimentos e morreu.
Manifestações
Beco do Batman fica de luto após morte de artista plástico
O assassinato do artista causou indignação e manifestações artísticas na Vila Madalena.
Poucos dias após o crime, o Beco do Batman, tradicional reduto cultural da região, teve seus muros famosos pelos grafites coloridos pintados de preto por vários artistas, em sinal de luto e protesto, com frases pedindo Justiça pelo homicídio.
Para cobrar providências das autoridades, os amigos de NegoVila escreveram frases como “Justiça – Na Vila Madá, é assim: o samba e o rap não têm fim”.
Segundo a enfermeira Tatiane Benfati, de 43 anos, irmã de NegoVila, além de artista plástico, ele era rapper, skatista, grafiteiro e ajudava em produções e locações para filmes de cinema e comerciais. Ele deixa uma filha de 9 anos de idade, fruto de um relacionamento anterior.
‘Polícia, pare de nos matar’, diz frase escrita durante ato em homenagem a NegoVila
Arquivo pessoal
Familiares se uniram aos amigos do artista e fizeram protestos no Beco do Batman exibindo faixas e cartazes para pedir punição ao assassino.
“Não sei se o policial olhou nele [NegoVila] com raiva porque era negro ou porque meu irmão bateu nele. O que faria ele matar meu irmão?”, indaga Tatiane. “Por que a vida do meu irmão valeu tão pouco?”
Tatiane comentou que ainda não é possível saber se seu irmão foi morto por racismo, mas ela suspeita que isso possa ter ocorrido. O policial que atirou é branco.
“Eu não posso afirmar que teve racismo, mas não vejo outro motivo”, falou a enfermeira.
Durante a investigação o 14º DP não encontrou, no entanto, elementos de que NegoVila tenha sido morto por racismo. Para os policiais, o assassinato do artista ocorreu após uma discussão entre ele e o policial militar, que estava de folga.
Investigadores ainda tentam localizar câmeras de segurança que possam ter gravado o crime.
Homenagem ao artista NegoVila morto por um PM
Arquivo pessoal
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