Máscara reduz seu risco e o do outro

No 39º episódio do podcast Luz no Fim da Quarentena, José Roberto de Toledo e Fernando Reinach explicam o estudo realizado com hamsters que demonstrou que o uso de máscara cirúrgica reduz pela metade as chances de contaminação; se o contaminado usar, perigo cai de 67% para 17%. Ouça o episódio completo aqui.    

José Roberto de Toledo: Opa! Eu sou José Roberto de Toledo e este é Luz no Fim da Quarentena, uma coprodução da revista piauí com a Rádio Novelo. Infectamos o canal do Foro de Teresina para discutir pesquisas científicas que ajudam a atravessar o túnel em que a pandemia nos meteu. 

A gente sabe que as máscaras ajudam a prevenir a Covid-19. Será que dá pra calcular o quanto? Com humanos ainda mais não, mas com hamsters já temos uma boa ideia. Cientistas da Universidade de Hong Kong calcularam quão menor é o risco de contaminação pelo Sars-CoV-2 se um infectado usar máscara cirúrgica ou se, ao contrário, ela for usada por quem ainda não foi contaminado. Como vocês perceberão, os resultados são bem diferentes. Agora, como os cientistas convenceram os simpáticos hamsters a usar máscara? Eles construíram uma máquina pra isso. Fernando Reinach explica como. 

Fernando Reinach, estamos aqui no 39º Luz no Fim da Quarentena e dessa vez vamos falar num dos temas prediletos dos nossos ouvintes: máscaras. 

Fernando Reinach: Pois é, Toledo. Tanto que você insistiu que nós achamos mais um paper sobre máscaras.

José Roberto de Toledo: Muito interessante o paper de pesquisadores na Universidade de Hong Kong. Foi publicado no finalzinho de maio no jornal Clinical Infectious Diseases da editora da Universidade de Oxford na Inglaterra. Diferentemente do outro paper sobre o qual a gente comentou, que aliás depois deu detalhes no final do programa – mas fui alertado por um dos nossos ouvintes de que erros foram constatados e admitidos pelos autores depois – esse paper sobre o qual nós vamos falar hoje envolve seres vivos e não apenas máquinas. Então conta pra gente como é que foi feito esse experimento.

Fernando Reinach: Na verdade, pra saber se uma máscara funciona ou não, você tem que ver se ela impede a contaminação ou reduz a contaminação de uma pessoa para outra. Isso é muito difícil de medir num ambiente normal, teria que fazer experimentos com seres humanos. Pegar uma pessoa contaminada e outra não, pôr as duas para conversar meia hora com máscara, sem máscara e ver quantos desses pares se contaminam. Isso não é eticamente aceitável. Então o que as pessoas fazem, o que os cientistas fazem para evitar esse problema, é desenvolver modelos animais.

José Roberto de Toledo: Modelo animal nada mais é do que achar uma cobaia, né?

Fernando Reinach: Só que nesse caso a cobaia é um hamster. Esse pessoal da Universidade de Hong Kong descobriu hamsters dourados, aqueles bonitinhos que a gente criava quando era criança, eles se contaminam com Sars-CoV-2, transmitem de um deles para o outro e transmitem para pessoas também. Então, se você pega um hamster contaminado e põe numa gaiola cheia de hamsters, depois de um certo tempo todos se contaminam. Você consegue medir o vírus por PCR no nariz do hamster, você consegue medir anticorpos no sangue do hamster. Morre, inclusive, tem falta de ar, fica quietinho no canto. 

Claro, não é exatamente igual porque esses não são seres humanos, mas o que a gente chama de um modelo biológico para essa doença. Aí, com esse modelo, o que você pode fazer? Você pode, por exemplo, colocar os hamsters todos numa gaiola e ver se um contamina o outro e qual a taxa de contaminação, você pode medir r0, pode fazer um monte de coisa. Se você não estiver satisfeito com isso, você pode tentar medir como um hamster contamina o outro hamster colocando eles em gaiolas diferentes, por exemplo, dentro da mesma sala. Ou será que o vírus passa de uma gaiola para outra pelo ar? Eles já mostraram que passa. É um sistema, é um modelo biológico com o qual todos esses parâmetros que a gente não pode medir em seres humanos, você pode medir em hamster.

José Roberto de Toledo: E eles fizeram ali no paper. Você me mostrou as fotos. Eles construíram uma máquina de fazer experimento com um hamster sobre Covid-19 aparentemente. 

Fernando Reinach: A primeira coisa que eles fizeram foi uma espécie de uma câmera enorme toda isolada do meio ambiente porque o ar lá dentro pode ficar cheio de vírus. Tem uma colônia de hamsters saudáveis que eles mantêm num outro lugar. Criaram ou cresceram o Sars-CoV-2 nas células Vero, que são aquelas células que a pessoa vai usar para fazer a vacina do Butantã. Então eles têm um estoque de vírus, aí eles fizeram duas gaiolas de hamsters colocadas dentro de uma espécie de túnel de vento. Então você tem um ventilador que joga o vento de uma gaiola para outra constantemente, um fluxo de ar constante. Você pode pegar um hamster, anestesia ele, coloca o vírus no nariz dele, espera um dia para ele se recuperar e põe ele na gaiola que está mais perto do ventilador. Aí você põe um grupo de hamsters numa outra gaiola, mais longe do ventilador e deixa durante sete dias esse vento passando do hamster infectado para os hamster sadios.

José Roberto de Toledo: Muito mal comparando, seria como se houvesse duas salas num escritório e o ar passasse de uma para outra sempre numa direção só, que não voltasse, não circulasse.

Fernando Reinach: Exatamente! O ar limpo entra na sala do escritório que tem um sujeito contaminado e acaba na sala do escritório onde não tem as pessoas contaminadas. Bom, nesse experimento inicial fazendo isso, eles viram que, depois de sete dias, dois terços dos hamsters que não estavam contaminados se contaminaram. 67% de contaminação em sete dias.

José Roberto de Toledo: Então o primeiro fator aí é, que acho que vale a pena chamar a atenção, é que o tempo de exposição ao risco faz muita diferença. Precisamos de sete dias para contaminar dois terços dos sãos. 

Fernando Reinach: Exatamente. A uma distância tal, com o fluxo de ar tal e eles mediram cinco dias depois tinha menos infectados, depois tinha 66%, e talvez, se eles levassem para mais tempo, teria mais. Aí eles fizeram um sistema que finge que o ramo contaminado está com máscara. Como é que funciona isso? As máscaras cirúrgicas boas de qualidade que usa em sala cirúrgica, elas têm dois lados. Elas têm um lado azul e um lado branco. Você já deve ter visto na rua o pessoal usando essa máscara. O lado azul fica para fora, o lado branco para frente, um lado tem uma camada hidrofóbica que repele a água etc. Então se você põe entre as duas gaiolas um pedaço desse tecido de máscara, todo o ar que passa pela gaiola do hamster infectado pra chegar no hamster sadio tem que passar pela máscara. 

José Roberto de Toledo: E primeiro eles colocaram a parte branca voltada pro infectado. Ou seja, como se o infectado estivesse usando a máscara.

Fernando Reinach:  Exatamente. E aí fizeram tudo igual: mesmo período de tempo, examinaram os hamsters no período de cinco dias e sete dias e, quando você põe essa máscara no animal que está infectado, cai de 66,7% para 16,7%.  

José Roberto de Toledo: Ou seja, reduz praticamente um quarto o risco de contaminação quando a pessoa originalmente infectada usa a máscara. Pessoa não, hamster. 

Fernando Reinach: Quando o hamster infectado usa máscara, que não está bem usando máscara porque a máscara não está no narizinho dele, mas o ar que passa pela gaiola tem de passar pela máscara antes de chegar do outro lado, cai quatro vezes a infecção. Aí eles fizeram o contrário, repetiram o experimento mas virando a máscara. Então o lado azul da máscara estava para o hamster infectado e o lado branco para os hamsters sadios.

José Roberto de Toledo: Como se os sadios estivessem usando máscara. 

Fernando Reinach: E aí o que eles observaram é que o efeito é menor. Ele passa de 66% para 33%. Então metade dos sadios pegam o vírus se a pessoa que não está infectada usar a máscara e a pessoa infectada não usar a máscara, esse é o paralelo.

José Roberto de Toledo: Resumindo, então, Fernando, assumindo que os hamster, na falta de outro modelo biológico, de outra cobaia melhor, tenham um comportamento similar ao de seres humanos, o fato de você que está contaminado usar uma máscara para sair em público, pra se relacionar com outra pessoa, reduz em um quarto, ou seja reduz quatro vezes mais. Maior a chance de você contaminar alguém se você estiver sem máscara do que se você tiver com máscara.

Fernando Reinach: Seria imperdoável uma pessoa que acha que está contaminada não usar máscara. Já uma pessoa sadia, a máscara reduz à metade as chances de ela pegar o vírus se cruzar com alguém infectado na rua sem máscara.

José Roberto de Toledo: Mesmo que não saiba se você está contaminado ou não, você deveria sair de máscara ou usar máscara para se relacionar com alguém, porque você está reduzindo em quatro vezes a chance de contaminar essa pessoa, para a hipótese de você estar contaminado. E se você é egoísta e quer se proteger exclusivamente, também é inteligente você usar máscara: está reduzindo à metade as chances de você se contaminar caso você cruze com alguém sem máscara.

Fernando Reinach: Esse estudo tem um monte de limitações. São robustas, não são seres humanos. Quando você põe o filtro no meio, o fluxo de ar diminui um pouco. Mas eles dizem que isso é normal porque, quando você usa máscara, o fluxo de ar também diminui. E no grupo de hamsters que se contamina do lado dos sadios, que vão se contaminando, você não tem certeza se todos pegaram o vírus da outra gaiola. Um pode ter pego e depois transmitido para o outro, esse também é um problema desse experimento.

José Roberto de Toledo: Mas isso é interessante também porque, voltando à analogia do escritório – agora que os escritórios estão voltando a funcionar etc. Voltando a essa analogia, quer dizer se você passar uma semana com um cara na sala ao lado usando ar condicionado e ele tiver sem máscara, tua chance aumenta em quatro vezes de se contaminar, e o único jeito, a proteção que você tem é usar a máscara,  porque isso reduziu pela metade esse risco, mas ainda não é desprezível.

Fernando Reinach: Acho que tem dois aspectos interessantes nesse trabalho. Um é que o tempo é importante, o tempo de exposição é importante, a distância entre as pessoas é importante. Também é outra coisa que eu acho mais importante nesse trabalho, que dos trabalhos que eu conheço é o primeiro que mede o desfecho final da coisa. Uma coisa você sabe: a gota passa pela máscara, o vírus passa pela máscara, uma gota grande passa, outra pequena passa, tudo bem. Isso é importante, mas o que importa mesmo é o desfecho final. Se um lado contaminado contamina o outro ou não. Então esse é um trabalho que leva a investigação ao ponto final, ao ponto que interessa. Contamina, não contamina, entendeu? Não está nem se perguntando qual o tamanho da gota, o que acontece e tal.  É contaminou ou não contaminou.

José Roberto de Toledo: A conclusão, pelo que eu entendi aqui, pelo que sei e você explicou, faz muita diferença você usar a máscara para se proteger. Você reduz à metade o seu risco, e faz quatro vezes mais diferença a pessoa que está contaminada usa a máscara para não contaminar outra pessoa, reduz em um quarto a chance de contaminar. Agora, nenhuma das duas é garantia de não contágio.

Fernando Reinach: Exatamente. Quer dizer, nenhuma dessas, pelo menos em hamsters, não existe uma situação onde baixou para zero.

José Roberto de Toledo: Se você ficar tempo suficiente exposto ao vírus, por menor que seja a quantidade, pode ser que se acabe contaminado, mesmo todo mundo usando máscara se ficar, sei lá, um mês. 

Fernando Reinach: Exatamente, é isso.

José Roberto de Toledo: Fica claro então que todo mundo deve usar máscara, sabendo ou não sabendo. Existe algum estudo definitivo que diga que a pessoa que está negativa, que já teve Covid, se curou de Covid, existe alguma chance, alguma possibilidade, mesmo que remota, de ela continuar sendo o vetor da doença mesmo já estando imune a ela?

Fernando Reinach: É difícil de saber. O que acontece é que o PCR às vezes fica positivo por um tempo maior, mas eles acham que é porque tem vírus morto ainda, tem epitélio soltando dentro da boca da pessoa, mas não se sabe mesmo. Agora, outra coisa que dá para fazer com esse tipo de equipamento é saber se o vírus passa por contato físico. Então, por exemplo, eu vou bolar um experimento aqui pra você, pra gente poder fazer um paper junto. Sabe aquelas rodinhas que os hamsters andam e ficam correndo atrás de rodinhas? Eu pego uma rodinha daquela, ponho na gaiola do hamster contaminado. Deixo ele correr na rodinha dez minutos. Aí eu tiro a rodinha com luvas, com todo o cuidado, e ponho na gaiola dos hamsters sadios que estão totalmente isolados e deixo eles correrem dez minutos. Aí eu falo: “será que o contato das patinhas do hamster na rodinha, e depois ele passa no narizinho, pega ou não pega? Então vamos trocar o material da rodinha. Vamos fazer agora as rodinhas de plástico? Vamos. Vamos fazer rodinha de aluminio? Vamos. Vamos aumentar o tempo na rodinha? Vamos.” Pega a rodinha depois, dá um banho de álcool gel, põe ela do outro lado. Passa ou não passa. E um bom modelo animal, permite que um monte de coisas sejam investigadas. Agora sempre fica aquela dúvida. É um modelo animal, não são seres humanos. Eu acho que esse é o mais importante de a gente se lembrar.

José Roberto de Toledo: Fernando Reinach, muito obrigado! Muito boa sua explicação sobre as máscaras e os hamsters. Um abração. 

Fernando Reinach: Falou, Toledo, até a próxima, abraço!

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