O isolamento imposto por um vírus insolente provoca desatino

O isolamento imposto por um vírus insolente provoca desatino, mas também nos permite ler ou ouvir mais informações com reflexão, ao contrário de apenas degustá-las, como antes, sem preocupação com o tempero.

O vírus dá-nos lições” – Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado/ND

A velocidade ainda leva muita gente a descartar até o conhecimento, sem a percepção de que a noite se emenda na brevidade do sol. O vírus dá-nos lições e, através delas, vamos sentindo a vida todo dia um pouco mais, os detalhes da nossa natureza, do crescimento dos filhos, netos, livres das correntes que nos agrilhoam à tecnologia.

O equívoco é querer estar na velocidade da tecnologia, feita para trabalhar por nós. Com a pandemia, estamos descobrindo detalhes do nosso pequeno grande mundo.

ENQUANTO ISSO, NA PRAIA DA CACHOEIRA… 

– Ô Lelo, tô achando o peixe mais rápido. Logo logo desaparece o cardume!
–  Sabe o que é, Venanço, nós é que estamo mais devagá, tu entende? Olha só, lá aí vem chegando o dotô Frânio.
–  Bom dia, amigos, o que tem hoje: manjuva, cascudo ou tainhota?
– Antes desse a anchova, mas estamos discutindo aqui que os peixes estão mais rápidos. Ou é nós que andamos devagar?
–  Eu chamaria essa reflexão de culto do isolamento. Mas vocês sempre viveram desacelerados e, por isso, dão uma cadência ao tempo.
–  Querendo entender mas sem entender nada, o senhô acha então que estamô devagá. Então vai ter hora que não vamos mais alcançar o peixe?
–  Ká, ká, ká. Não Venâncio, vocês têm tempo e prazer de vigiar o peixe e olhar a natureza do alto de uma pedra ou conversando sentados na areia.
– Ah, aquele homem mais rico do Brasil morreu só com 82 anos. Ele acelerô demais foi?
– Meus amigos, não é a idade que mensura a felicidade; importante é a convicção da felicidade. E, para senti-la, é preciso dar valor à sua essência. Em alta velocidade, tornamo-nos incapazes de sentir, abraçar, valorizar o conhecimento humano, enfim saber se é melhor pescar e comer peixe, ou construir um império de R$ 1 trilhão.
– É, dotô Frânio, tanta gente morrendo e os laboratórios de olho na pescaria. O mundo não se gosta, né Venanço?

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