Parque das Esculturas sofre com descaso e roubo de obras de Brennand: ‘o que foi feito por ele em vida é insubstituível’, diz filha


Um dos principais cartões-postais da cidade, o local foi inaugurado em 2000, celebrando os 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil. Algumas das peças de bronze podem ser refeitas, segundo a família do artista. Alvo de descaso e vandalismo, parte do Parque das Esculturas pode nunca ser recuperada
O Parque das Esculturas, projetado por Francisco Brennand, é um dos principais cartões-postais do Recife. Apesar do potencial turístico e do valor cultural, o local foi abandonado pelo poder público, o que fez com que as quase cem obras fossem desaparecendo entre furtos e atos de vandalismo. O roubo mais recente foi de uma serpente de bronze que tinha 20 metros de comprimento que, sem fiscalização, desapareceu quase que sem ser notada (veja vídeo acima).
A família lamentou imensamente o que vem acontecendo com um parque que foi criado para fazer a diferença no Recife, mas que virou o retrato mais fiel do abandono.
“Tristeza, indignação. O que é feito em cerâmica é difícil de replicar. O que foi roubado em bronze, que se tem um molde, a gente consegue reproduzir. Mas o que foi feito por ele em vida é insubstituível”, disse a filha e representante da família, Mariana Brennand.
O parque foi inaugurado sob clima de festa, em dezembro de 2000. O Recife acabava de ganhar um conjunto de monumentos como nenhum lugar do mundo tinha, com, no centro, a Torre de Cristal, uma coluna de 32 metros de altura, com uma flor no topo. Brennand liderou o processo e fez parceria com vários artistas e arquitetos para construir o local.
Parque das Esculturas teve obras de Francisco Brennand roubadas
Reprodução/TV Globo
O conjunto de monumentos foi entregue para marcar os 500 anos da chegada dos portugueses no Brasil. Na época, Francisco Brennand, que morreu em dezembro de 2019, disse que cada peça tinha significado especial.
“Quando eu fiz as cinco sereias, eu pensei que cada uma deveria representar 100 anos. Então, as cinco representariam os 500 anos. Tem uma sexta coluna branca e sem sereia que o que quer dizer? É o futuro, ainda não tem nada escrito, nem sereia nem coisa nenhuma. Vamos saber como é que nós vamos escrever esse futuro”, declarou ele na época.
O futuro, no entanto, foi muito mais sombrio do que Brennand podia imaginar. No projeto original havia quase 100 esculturas, muitas saídas do forno da Oficina Brennand. Além das obras, até mesmo o revestimento de cerâmica dos pedestais onde elas estavam instaladas desapareceu.
Azulejos do Parque das Esculturas, no Recife, foram retirados do local
Elvys Lopes/TV Globo
A serpente de bronze nasceu de um projeto do próprio Francisco Brennand, que convidou o artista plástico Jobson Figueiredo para executá-la. A forma, em fibra de vidro, está no jardim da casa de Jobson, que também guarda uma maquete, em bronze, que deu de presente de aniversário quando Brennand fez 90 anos.
Segundo Jobson Figueiredo, a serpente gigante pesava cerca de duas toneladas. A pedido de Brennand, ele também produziu, no próprio ateliê, 86 esculturas. Para carregar e fixar uma tartaruga, por exemplo, foi necessário quatro pessoas. Os 15 maçaricos, pássaros que, na leitura dos artistas, tinham pés humanos, estavam enfileirados no parque. Todos foram roubados. Cada um pesava entre 150 e 200 quilos.
“No final de 2015 foi iniciado um processo de degradação. Começaram a roubar peças, falta de luz, problema de iluminação, problemas de roubo. E fizemos várias notificações desses roubos, chegando ao ponto de, em 2017, produzirmos um boletim de ocorrência, que fala exatamente de todas as peças que haviam sido depredadas”, disse.
Serpente foi retirada do Parque das Esculturas, no Recife
Reprodução/WhatsApp
Os quatro portões de bronze, em estilo medieval, estão entre as peças que desapareceram. Até mesmo as placas que contavam a história do parque, inclusive as que estavam em lugares altos, foram levadas. Pelos cálculos do artista plástico, mais de 13 toneladas de bronze levados.
“O metal é muito caro, o trabalho é muito grande e a retirada, não há fiscalização. Então, as pessoas quebram e vendem como bronze. A outra, como são peças como maçarico, como aves, como coisas que foram executadas e que têm a marca do mestre Francisco, são peças dele, tem um valor internacional muito grande”, declarou.
Mariana Brennand representa a família e diz que não dá para estimar o valor das peças levadas, que Francisco Brennand deu de presente ao Recife, quando a prefeitura encomendou as obras para o parque.
“O Parque das Esculturas está localizado no Marco Zero do Recife, é parte de um projeto importantíssimo de Brennand junto com Cícero Dias, ‘Eu vi o mundo, ele começava no Recife’. Tem esse nome, de uma obra do Cícero Dias. Cícero e Brennand, dois artistas pernambucanos tão importantes para o Brasil. E a Torre de Cristal é um dos cartões-postais do Recife, então, a gente espera que as autoridades competentes e o poder público tenham uma atenção, um cuidado, e um zelo com esse patrimônio, que é da população”, afirmou.
Buracos e falta de refletores são realidade no Parque das Esculturas, um dos cartões-postais do Recife
Reprodução/TV Globo
Problemas
Além do vandalismo, o Parque das Esculturas também sofre com a falta de iluminação. À noite, mesmo se ainda houvessem esculturas salvas dos constantes roubos, não poderiam ser vistas, em meio à escuridão do local.
A TV Globo também encontrou, no local, carros e motos estacionados no meio do parque, um problema que, além de ser um desrespeito com o pouco que ainda resta, pode estragar o que ainda existe no local.
Sem refletores, Parque das Esculturas, no Recife, desaparece durante a noite
Reprodução/TV Globo
Por meio de nota, a prefeitura do Recife informou que vem fazendo a manutenção, inclusive com a troca de iluminação, e que fez a limpeza do parque. Sobre os roubos, a gestão afirmou que acionou a Secretaria de Defesa Social para que haja segurança no local. A prefeitura também afirmou que, apesar dos roubos e vandalismo, o parque faz parte do roteiro de ronda da Guarda Municipal.
Por fim, a prefeitura se colocou à disposição do Instituto Oficina Brennand para que possam conversar sobre o abandono em que se encontra o local.
A Polícia Militar, também por meio de nota, disse que apoia a Guarda Municipal do Recife no Parque das Esculturas com rondas em todos os turnos com policiais em moto e em carros. A Delegacia de Boa Viagem está investigando o roubo das dezenas de peças e forneceu um número de WhatsApp para que as pessoas possam enviar informações: (81) 9.9488.3455.
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