Pescadores ajudam a identificar espécie de polvo misteriosa


Polvo-de-leste (Callistoctopus furvus) foi descrito novamente depois de 150 anos desaparecido da comunidade científica; foto ajudou pesquisadora a desvendar espécie. Polvo-do-leste foi redescrito depois de mais de 150 anos desaparecido.
Manuella Dultra/Arquivo Pessoal
Imagine um polvo diferente e colorido, morador das águas da Bahia e que só aparece durante uma época do ano: quando o vento muda e passa a soprar para o leste. Seria essa história uma verdade ou conversa de pescador?
Foi pensando em esclarecer essa descrição feita por pescadores locais que a bióloga e doutoranda Manuella Dultra começou um verdadeiro trabalho de investigação. “Em 2012 eu fazia mestrado e participava de estudos com outro polvo bem comum na região de Porto Seguro (BA) e bastante usado pelo comércio. Mas sempre ouvia os pescadores comentando desta outra espécie misteriosa, que não havia registros e ninguém sabia qual era”, conta.
O jeito para descobrir foi conversar com diversos pescadores da região e pedir para, caso alguém encontrasse o polvo misterioso, tirasse uma foto e entrasse em contato com a pesquisadora. Foi o que aconteceu em 2013. Edimilson Conceição, funcionário do projeto “Coral Vivo”, fez o primeiro registro em foto da espécie.
Primeira foto do polvo feita por Edimilson Conceição
Edimilson Conceição/Arquivo Pessoal
“A foto foi tudo que eu precisava para começar a organizar uma pesquisa de doutorado na Universidade Estadual de Santa Cruz, com parceria de faculdades como a Universidade Federal do Pará e a UNIFESP, totalmente voltada para essa espécie. De 2017 até 2019 percorri grande parte da costa brasileira para entender a identidade do bicho e onde ele ocorria”, explica Manuella.
Alexandre Schiavetti, pesquisador do “Coral Vivo” e orientador da pesquisa de Manuella, conta que ao se aproximar do final do estudo todos estavam quase convencidos de que se tratava de uma espécie nova.
“Foi aí que nossos parceiros, o zoólogo Prof. Dr. Rodrigo Silvestre Martins da UNIFESP, e o geneticista Prof. Dr. João Bráulio de Luna Sales da UFPA, encontraram documentos antigos que descreveram a espécie em 1852. Finalmente conseguimos descobrir que o nome do polvo era Callistoctopus furvus”, diz”
A espécie ficou literalmente esquecida desde o século XIX. Nos museus, nenhum exemplar ficou guardado, mas dados genéticos conseguiram comprovar que se tratava do mesmo animal.
Em novembro a espécie foi redescrita em um artigo aceito pela revista Frontiers in Marine Science, que reconheceu o nome popular de polvo-de-leste, em homenagem aos pescadores que contribuíram para a pesquisa.
Foi uma surpresa muito grande achar uma espécie que estava desaparecida cientificamente há mais de 150 anos. Um presente que surgiu da curiosidade
Carlos Henrique Lacerda, coordenador regional de pesquisa do projeto “Coral Vivo” da região do Sul da Bahia ainda complementa. “Nós do projeto ficamos felizes em ter contribuído, principalmente com a foto inicial que possibilitou o começo de todo estudo do polvo. A ciência cidadã tem muito a contribuir com descobertas e divulgações científicas”.
Acredita-se que o polvo-de-leste ocorra do Norte ao Sul da costa brasileira.
Manuella Dultra/Arquivo Pessoal
Polvo-de-leste (Callistoctopus furvus)
Pouco ainda se sabe sobre o polvo-de-leste ou polvo-de-areia, como também é chamado.
Com a pesquisa, comprovou-se que há relatos do animal de Pernambuco à Santa Catarina, principalmente no recôncavo baiano. “Entretanto ela também pode ser vista no México e na Colômbia, por isso acreditamos que ela se estenda por todo Atlântico Sul”, explica Alexandre.
Espécie pode variar de cor através da camuflagem.
Manuella Dultra/Arquivo Pessoal
O polvo-de-leste tem hábitos noturnos e gosta de ficar tanto em locais rochosos com em arenosos. Magro, não possui valor comercial. Não há diferença na coloração natural entre machos e fêmeas.
“Esperamos que a minha pesquisa abra espaço para várias outras sobre essa espécie. Só provamos como sabemos pouco da biodiversidade marinha brasileira e o quanto há ainda para ser descoberto”, finaliza Manuella.
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