Pfizer/BioNTech: conheça os bastidores da primeira vacina aprovada nos EUA e na Europa


História começou em um café da manhã entre dois pesquisadores, na Alemanha. Desenvolvida em tempo recorde, a vacina depende de vidros especiais, super refrigeradores, logística complexa e um forte sistema de segurança armada. Enfermeira segura frasco de vacina da Pfizer no Reino Unido.
Jacob King/Pool via REUTERS/File Photo
Numa manhã de inverno, em uma cozinha na Alemanha, um casal de pesquisadores toma o café da manhã. Özlem Türeci e Ugur Sahin, à frente da emergente empresa de biotecnologia BioNTech, concordam: “Precisamos dar o pontapé inicial nas pesquisas de uma vacina contra um novo vírus detectado na China”. É o ponto de partida de uma saga que levará ao desenvolvimento da primeira vacina contra a Covid-19 que foi autorizada no mundo ocidental. Uma proeza realizada em tempo recorde.
Ugur Sahin acabara de ler uma publicação científica que descrevia a propagação desse vírus em Wuhan. “Ele concluiu que havia boas chances de uma pandemia ser iminente”, conta sua esposa, Özlem Türeci.
Em 24 de janeiro de 2020, a empresa decide que todos seus recursos, até então focados na pesquisa de imunoterapias contra o câncer, serão dedicados ao desenvolvimento de um medicamento para essa pneumonia viral de origem desconhecida. É preciso agir rápido. A operação se chama “Velocidade da luz”. “A partir daquela data, não houve um único dia em que não trabalhássemos nesse projeto”, afirma Türeci.
Quatro dias depois, em 28 de janeiro, a Alemanha confirma em seu território o primeiro caso conhecido de transmissão entre pessoas em solo europeu.
Menos de duas semanas mais tarde, a Organização Mundial da Saúde (OMS) pela primeira vez dá nome à nova doença: Covid-19.
Produtora de frascos de vidro
A primavera começa a florescer em Mainz, uma pitoresca cidade de casas de madeira onde está localizada a sede da BioNTech, enquanto a epidemia originada na China se transforma em uma crise de saúde global.
As infecções disparam e os governos são forçados a fechar fronteiras, escolas, instituições culturais e esportivas, serviços. O mundo praticamente para.
Frasco da vacina da Pfizer que recebeu autorização de uso de emergência, no George Washington University Hospital
Jacquelyn Martin/Pool via Reuters
Na verdade, a “Mittlestand”, rede de pequenas e médias empresas alemãs, começa a se preparar para enfrentar o desafio que se aproxima.
A poucos passos da sede da BioNTech, uma empresa com 130 anos de existência acelera o ritmo de suas cadeias de produção.
Embora não seja muito conhecida, a especialista em vidros Schott despontou na indústria farmacêutica, devido aos milhões de frascos que fabrica, utilizados em pesquisas clínicas sobre o vírus.
O vidro borossilicato no qual a empresa se especializou tem uma grande demanda, devido à sua forte resistência a temperaturas extremas, de -80ºC a 500ºC. Propriedade que se revelaria indispensável, já que a vacina BioNTech/Pfizer deve ser armazenada a -70 ºC.
Até o final de 2021, a Schott espera fabricar ampolas suficientes para 2 bilhões de doses de vacinas.
A companhia sofre com a Covid-19. Uma importante central de produção localizada em Mitterleich, na Baviera, acabou no centro da pandemia, pois a cidade se tornou um dos primeiros focos do novo coronavírus após um festival de cerveja frequentado por uma multidão.
Transporte farmacêutico
Ainda assim, no centro farmacêutico da transportadora Lufthansa Cargo, localizado no aeroporto de Frankfurt, a atividade se acelera e o estresse se multiplica. É o maior centro europeu dedicado ao transporte farmacêutico, que no ano passado movimentou 120 mil toneladas de carga. Agora, se prepara para transportar milhões de doses da vacina.
No total, o local possui 12 mil m² climatizados reservados para esse tipo de produto. As temperaturas necessárias são alcançadas em recipientes especiais graças a blocos de gelo carbônico, de CO2 no estado sólido a -78,9 ºC.
Mas a Fraport, administradora do aeroporto de Frankfurt, não é a única empresa que investiu na cadeia refrigerada.
No estado de Baden-Württemberg, entra em cena a Binder, outra empresa alemã desconhecida de muitos. Sua especialidade? “Super freezers” em que “faz mais frio que no Ártico”, segundo a imprensa alemã. Na verdade, a temperatura desses dispositivos pode chegar a -90 ºC.
A líder de mercado primeiro supriu os laboratórios, depois a logística, e agora trabalha com as autoridades alemãs para equipar os centros de vacinação.
“Tudo começou em agosto, quando recebemos pedidos de empresas de logística que diziam: ‘temos que equipar nossos armazéns com freezers’”, diz Anne Lenze, responsável pela comunicação. Desde então, “a procura é tão alta que trabalhamos 24 horas por dia, contratamos funcionários e continuamos à procura de mais”, ressalta.
Em 18 de novembro, apenas dez meses após a decisão de embarcar na aventura, a BioNTech anuncia, junto com sua parceira Pfizer, que sua vacina tem 95% de eficácia. Nível semelhante ao da vacina da americana Moderna, com quem rivaliza no desenvolvimento da tecnologia baseada em RNA mensageiro.
Os mercados de ações saltam e todo o mundo recupera a confiança.
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Xícara de chá para comemorar
Em Mainz, porém, eles preferem não ceder à euforia. Para comemorar o acontecimento, o casal Türeci e Sahin se permite tomar… uma xícara de chá. De qualquer forma, “champanhe não é a nossa praia”, brinca Sahin durante a entrevista à AFP.
Enquanto toma seu chá, o casal, na casa dos 50 anos, filhos de imigrantes turcos, “pensa em tudo o que aconteceu e no que vai acontecer”.
A 600 km dali, na capital alemã, o bombeiro aposentado Albrecht Broemme, um homem robusto de 66 anos de cabelos grisalhos espessos, está muito ocupado com uma caixa de Lego.
Broemme, encarregado de supervisionar os seis centros de vacinação que Berlim quer implementar em uma campanha nacional, constrói uma mini-estação de vacinação com um balcão de registro e vários corredores de circulação.
“Elaborei um sistema pensando nos espaços necessários para não criar ‘engarrafamentos’”, explica este especialista em gestão de emergências, em frente ao antigo aeroporto de Tegel, um dos locais onde os berlinenses poderão ser vacinados.
Cerca de 450 postos de vacinação foram instalados em todo o país. O maior deles, localizado em Hamburgo, terá capacidade para realizar até 7.000 injeções diárias. Tanto em Hamburgo quanto em Berlim, os visitantes devem seguir um circuito, desde a verificação de identidade até a vacinação em si.
A aplicação será precedida de uma consulta médica e, ao final do processo, os pacientes poderão descansar em uma “sala de espera” onde será verificado se tudo correu bem. Em 2 de dezembro, o Reino Unido se torna o primeiro país ocidental a licenciar a vacina BioNTech/Pfizer.
Outros países seguem: Estados Unidos, Arábia Saudita, Singapura. A Alemanha, duramente atingida pela segunda onda de contágios, fica impaciente.
Berlim pressiona para que a autoridade reguladora, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), decida se autoriza o imunizante antes da data prevista. No dia 21, a EMA dá luz verde. Em seguida, a União Europeia anuncia que a campanha de vacinação começará em 27 de dezembro.
No centro de Hamburgo, as autoridades de saúde afirmam que estão preparadas, enquanto a BioNTech organiza treinamentos online com médicos e enfermeiros.
Policiais armados para proteger a vacina
Os primeiros caminhões carregados com as doses da vacina deixam o centro de produção da Pfizer na Bélgica na quarta-feira.
De lá seguem, entre outros destinos, para os 25 centros de distribuição indicados pelas autoridades alemãs, que os transportarão para os 294 distritos do país, segundo a BioNTech.
Instalação da Pfizer na Bélgica; estudos apontam que vacina tem eficácia de cerca de 95% para prevenir quadros de Covid-19.
Reuters
Ao longo de todo o percurso, o comboio é escoltado por policiais armados. A Alemanha teme uma possível sabotagem, já que o movimento antivacinas tem ganhado força.
Para a chanceler alemã Angela Merkel, cada injeção representa uma vida salva. “Quando olhamos para o número de pessoas que morreram por causa desse vírus, vemos quantas vidas a vacina pode salvar”.
Em todo o país, equipes médicas móveis viajarão para asilos para as primeiras vacinações, destinadas aos idosos acima dos 80 anos.
Enquanto isso, talvez Ölzem Türeci e Ugur Sahin estejam sentados à mesa, tomando sua xícara de chá no café da manhã.
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