População em situação de rua cresce mais de 70% em Santos em 10 anos, diz censo


Estudo, produzido pela Universidade Federal de São Paulo, em parceria com a prefeitura, analisa origem e motivação dessa população. Coleta de dados foi feita em outubro de 2019 em Santos, SP
Divulgação/Prefeitura de Santos
Um relatório parcial do novo Censo da População em Situação de Rua em Santos, no litoral de São Paulo, foi divulgado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo, realizado em parceria com a prefeitura, apontou que, em dez anos, o número de pessoas vivendo em situação de rua cresceu 71,2% na cidade.
O censo, realizado em parceria com a administração municipal, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social, é parte de um projeto maior, que visa conhecer e propor políticas públicas para melhorar as condições de vida nas ruas, de acordo com o divulgado pela Unifesp na terça-feira (15).
A pesquisa de campo foi realizada em 24 de outubro de 2019, entre 20h e 6h do dia seguinte. Professores, estudantes e profissionais das secretarias de Desenvolvimento Social de Santos (Seds), de Saúde (SMS) e de Segurança (Seseg) percorreram os pontos de pernoite, coletando os dados de cada pessoa em situação de rua.
O relatório parcial aponta que, entre 2009 e 2019, houve crescimento de 71,2% de pessoas em situação de rua na cidade. O relatório final deve ser divulgado pela universidade no primeiro semestre de 2021.
Motivação
Em entrevista ao G1, a professora e coordenadora do Projeto Integrado de Pesquisa e Extensão sobre População em Situação de Rua em Santos, Luzia Baierl, apontou que o crescimento na cidade não difere de outras regiões do país, e que revela, na verdade, o que leva as pessoas às ruas.
No total, foram contadas 868 pessoas nessa condição. Entre os principais motivos apontados pelos entrevistados para o desabrigo, estão conflitos familiares (46,5% dos entrevistados), desemprego (37,1%), uso abusivo de álcool e drogas (32,4%) e perda de moradia (14,1%).
“Não são motivos simplesmente individuais”, disse a coordenadora. “As motivações têm a ver com as crises econômicas, que geram desemprego, que fazem as pessoas perderem suas residências, que levam ao uso abusivo de drogas e álcool e geram conflito familiar. Quem produz essa população de rua é nossa sociedade capitalista, que gera desigualdade”.
Origem
Segundo apontado no relatório parcial, 59,7% dessas pessoas nasceram no Estado de São Paulo. Destas, 38,2% nasceram em Santos, enquanto o restante se divide entre as outras cidades da Baixada Santista, Capital, Grande ABC, litoral e interior paulista (veja o gráfico abaixo).
Para a coordenadora do projeto, o mais importante nestes números de origem é apontar aqueles que vêm da própria cidade. “Isso ajuda a gente a descontruir preconceitos, pois existe uma imagem de que morador de rua é alguém de fora. Existe uma perspectiva higienista de mandar para o lugar de origem essas pessoas, mas, e quando são daqui?”, questiona a professora.
Políticas públicas
O objetivo do censo é aprimorar os programas municipais direcionados a essa população. “Mas, tem limites. Dá para avançar em algumas propostas, mas, só podemos avançar mais se essas respostas forem intersetoriais e envolverem várias pastas municipais”, analisa.
“Não é resposta de uma única secretaria, e também não é de um único município. É muito mais amplo. Esses dados ajudam a rever muitos programas, sem dúvida, e gerar debates para desconstruir preconceitos dessa população”, diz Luzia Baierl.
Censo de pessoas em situação de rua em Santos foi realizado pela Unifesp, em parceria com a prefeitura
Divulgação/Prefeitura de Santos
Prefeitura de Santos
O número de pessoas em situação de rua em Santos teve crescimento inferior ao observado no país, segundo divulgado pela Prefeitura de Santos. “No período de 2009 a 2019, o município teve incremento de 71% dessa parcela da população, enquanto o volume nacional subiu 140% em oito anos”, diz um trecho do texto enviado à imprensa.
A pesquisa ainda mostra que, das 107 pessoas que usam os serviços de acolhimento, a maioria está no Seacolhe (41%) e no Albergue Noturno (35%). Em Santos, há 21 unidades de acolhimento, sendo nove governamentais e 12 não-governamentais, que fazem parte da Rede Socioassistencial do Município, atendendo população em situação de rua, crianças, adolescentes, adultos e idosos, mulheres vítimas de violência e pessoas com paralisia cerebral.
“O censo é uma ferramenta fundamental de gestão pública, que nos embasa para um planejamento em conjunto com a sociedade civil, com o propósito de melhorar os serviços de acolhimento à população de rua, dentro das normativas federais e critérios do município. Esta questão requer não apenas a atualização da contagem daqueles que vivem nas ruas, mas o conhecimento de suas condições de vida e desigualdades”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Social, Carlos Mota, em texto enviado à imprensa.
Mota ressaltou, ainda, que a população de rua foi diretamente afetada pela pandemia, e que a administração municipal adotou medidas emergenciais, como ampliação de vagas nos serviços de acolhimento e do Centro Pop, do Bom Prato, e articulação entre as políticas públicas.
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