Professora começa vaquinha e reforma casa de aluno no Complexo do Alemão

De mãos dadas com um de seus alunos, um menino autista muito carinhoso de 4 anos, a professora Elisângela Pereira, de 47 anos, entrou em meados de setembro na pequena casa em que ele vivia com os pais e dois irmãos no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. Depois do que viu, a educadora iniciou uma vaquinha online para juntar dinheiro e reformar o imóvel. Agora, após dois meses, uma parte da obra já ficou pronta e a família pode voltar a morar lá.

A casa de três cômodos estava cheia de infiltrações. O pequeno banheiro não tinha piso ou azulejos, mas paredes úmidas e um vaso sanitário quebrado.

“Saí dali com o meu coração partido. Fui chorando pela rua e pedindo orientação a Deus, eu precisava fazer algo por aquela família”, conta Elisângela.

A professora, que atua como auxiliar de creche, havia conhecido o caçula da família em 2019. Na ocasião, ele só entrou na escola por meio de uma decisão judicial, pois já não havia vaga para matrícula. O menino autista interagia com a professora sempre aos abraços: “Ele fala poucas palavras, mas é muito carinhoso e prestativo. Me apaixonei por essa criança. Sempre trabalhei com crianças especiais”.

Devido à pandemia do novo coronavírus, as crianças não frequentam a escola desde 15 de março. Durante o período, Elisângela passou a fazer videochamadas para ter notícias dos alunos. Ainda assim, quis ver o menino pessoalmente.

“Sou do grupo de risco porque tenho hipertensão e diabetes. Não podia sair de casa na pandemia, mas fugi da quarentena e fui visitar o menino na casa dele”, lembra a professora.

casa - Arquivo Pessoal/Elisângela Pereira - Arquivo Pessoal/Elisângela Pereira

Banheiro da casa de aluno da professora Elisângela Pereira no Complexo do Alemão, antes de passar por reforma

Imagem: Arquivo Pessoal/Elisângela Pereira

Desde então, a situação da família não saiu da cabeça da professora. “Pensei em fazer bingo, pedir de porta em porta até que veio a ideia da vaquinha.” Fixou meta de angariar R$ 6 mil. Quando tinha conseguido apenas R$ 505, uma moradora do Alemão que doou duas pias e um tanque comentou que um cunhado podia ajudar.

“Foi aí que um anjo entrou nessa história. Ele acreditou nas minhas palavras sem nunca ter me visto e abraçou a causa”, emociona-se a professora.

O anjo que Elisângela se refere é Flávio Ribeiro, de 39 anos, dono de uma oficina mecânica. Também morador do Alemão, ele foi até a casa da família e se comoveu com a história. Pai de duas meninas, de 12 e 6 anos, Ribeiro viu a caçula sofrer com um tumor no pescoço no começo do ano. Agora, a menina já está curada.

Durante o problema de saúde da filha, Ribeiro percebeu que “dinheiro paga as contas, mas não é tudo”. A princípio, ele calculou que gastaria em torno de R$ 3 mil com a reforma, mas, com o início das obras, o valor já chega a R$ 16 mil.

“Falei com pelo menos oito pessoas, das quais só duas se dispuseram a ajudar sem nada em troca. Meu pai doou R$ 400 e uma associação de seguros de carros deu R$ 2.500. O restante estou tirando do meu bolso”, diz Ribeiro.

As obras já estão na fase de alvenaria. A família chegou a passar um tempo na casa de parentes, mas já retornou e está vivendo em um dos cômodos já pronto. Além da sala, cozinha e banheiro, a casa agora terá dois quartos e uma pequena varanda.

A vaquinha online ainda segue arrecadando doações. Até a publicação deste texto, já levantou mais de R$ 2.200. O valor, que não foi usado na obra, será investido em móveis, eletrodomésticos e em uma pequena área de lazer para as crianças.

“As pessoas precisam ter mais empatia. Gostaria que essa história levasse outras pessoas a ajudar o próximo”, resume a professora.

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Elisângela Pereira, professora que levantou dinheiro para reformar a casa de um aluno, filho de Cleyton de Albuquerque (à dir.). No processo, ela contou com a ajuda de Flávio Ribeiro, dono de uma oficina mecânica na comunidade

Imagem: Arquivo Pessoal/Elisângela Pereira

Sonho de estabilidade

A família ajudada pela professora vive no local há sete anos. O casal Cleyton de Albuquerque, de 41 anos, e Ysis Spinelli, de 33 anos, tem cinco filhos. Com idades entre 13 e 4 anos, as crianças têm algum grau de autismo. Duas delas vivem com avó materna.

Albuquerque conta que trabalha com pequenos serviços de eletrônica e de informática. Já atuou como terceirizado, mas hoje conta com poucos clientes. Segundo o pai, o casal, além de ajuda com cestas básicas, recebe o auxílio emergencial do governo federal para o sustento da família.

Ainda conforme Albuquerque, todos os filhos fazem tratamento no Capsi (Centro de Atenção Psicossocial Infantil). No entanto, com a pandemia, as crianças têm passado os dias em casa.

“Sempre quis fazer alguma obra, mas nunca tive a oportunidade. Colava uma coisa quebrada aqui, outra ali. Jamais imaginei que iam aparecer pessoas para nos ajudar”, diz, emocionado.

Ao ser questionado sobre planos para o futuro, Albuquerque diz apenas sonhar com a “estabilidade”. Explica que isso seria possível se tivesse clientes fixos. No mais, quer que os filhos fiquem bem.

“Ficar com as crianças em casa todos os dias não está sendo fácil. É preciso muito jogo de cintura, mas quero que todos possam ter algo melhor no futuro.”

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