Região do Sistema Cantareira tem déficit de 20% de chuva em um ano; seca pode indicar desabastecimento de água em 2021, diz especialista


Se compararmos o período de 2016 até novembro de 2020, choveu apenas 85% do previsto, de acordo com dados da Sabesp; uma das causas é o desmatamento na Amazônia, explica especialista. Menos água também encarece conta de luz. Estiagem de 2014 fez o Sistema Cantareira viver o seu pior momento na história: alerta sobre o uso consciente da água e respeito a essas fontes de vida
Adriano Rosa
Choveu 20% a menos do que o previsto na região do Sistema Cantareira, no interior de São Paulo, de 2019 a novembro de 2020.
Se levarmos em conta o período que se inicia em 2016 e vai até novembro de 2020, choveu apenas 85% do previsto para o período, de acordo com dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e analisados por Pedro Luiz Côrtes, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP).
Nesta quinta-feira (17), o Cantareira opera com 33,8% de sua capacidade. Em 2013, período pré-crise hídrica, o Sistema Cantareira operava com uma média de 44,11% de sua capacidade.
O baixo nível de água no Sistema Cantareira pode indicar problemas de abastecimento de água em 2021 caso não haja economia da população e chuvas suficientes. E com menos água disponível, a conta de luz fica mais cara, já que a redução de capacidade de geração hidroelétrica faz com que usemos mais a geração térmica, que tem custo operacional maior.
O Sistema Cantareira é o maior reservatório de água da região metropolitana e abastece cerca de 7,5 milhões de pessoas por dia, 46% da população da região metropolitana de São Paulo, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), órgão que regulamenta o setor.
Um dos motivos para as chuvas terem diminuído na região Sudeste é o aumento do desmatamento na Amazônia (veja abaixo).
E não é só no Cantareira que tem menos água. Atualmente há uma redução de 12% no volume agregado de todos os reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo, quando comparado a 2019, de acordo com dados da Sabesp analisados por Côrtes.
E, segundo o professor, o prognóstico do que vem por aí de chuvas preocupa, apesar dos próximos meses de verão terem tradicionalmente um volume maior.
“Vamos ter uma certa recomposição dos volumes em dezembro e janeiro, mas ela não será suficiente para reverter o cenário atual. E o prognóstico para 2021, ao menos até a metade do ano, é de redução nos volumes mensais de chuva a partir de março. Portanto, não se descarta problemas de abastecimento no segundo semestre de 2021. Por isso, devemos ficar atentos aos volumes dos reservatórios e priorizar o uso racional da água.”
Déficit de chuvas
Em 2016, o déficit de chuvas na região do Sistema Cantareira foi considerado pequeno (apenas 13,2 mm) e foi bem maior nos anos seguintes. Veja o comparativo:
2016 – 13,2 mm;
2017 – 252,1 mm;
2018 – 318,6mm;
2019 – 192,5mm;
2020 (até novembro) – 369,3mm.
Fonte: Sabesp
De acordo com Côrtes, desde a crise hídrica, o Sistema Cantareira vem encontrando dificuldades de se recuperar plenamente.
“Se antes da crise ele chegava a apresentar, em alguns anos, volumes anuais superiores a 80% de sua capacidade, hoje ele mal consegue ultrapassar 60%. Em 2016, desde que a crise hídrica terminou, o Sistema Cantareira tem apresentado déficits consecutivos no volume anual de chuvas comparativamente ao que seria esperado pelas médias históricas”, afirma.
Em maio de 2014, período da crise hídrica, o volume do Sistema Cantareira atingiu 29,6% de sua capacidade, e a Sabesp passou a operar bombeando água de seu volume morto.
Trata-se de uma reserva com 480 bilhões de litros de água situado abaixo das comportas das represas do Cantareira. Até então, essa água nunca tinha sido usada para atender a população.
Conta de luz mais cara
A redução de chuvas entretanto, não é um fenômeno exclusivo do Sistema Cantareira e dos demais da região metropolitana. Ele vem ocorrendo em outros reservatórios de usinas hidroelétricas importantes na região central do Brasil como Furnas, em Minas Gerais; Serra da Mesa, em Goiás; Emborcação, na divisa dos Estados de Goiás e Minas Gerais; e Nova Ponte, também em Minas Gerais, por exemplo.
De acordo com Côrtes, essas usinas vêm sofrendo há pelo menos dez anos com uma redução no volume anual de chuvas, daí a conta de luz mais cara.
“É por isso que estamos sob a bandeira vermelha (patamar 2) pois, diante da redução de capacidade de geração hidroelétrica, estamos utilizando mais a geração térmica que tem custo operacional superior. Considerando os cinco primeiros anos de adoção do sistema de bandeiras tarifárias (2015-2019), verifica-se que em 47% das vezes estivemos sob bandeira vermelha. Sempre que isso ocorre a [Agência Nacional de Energia Elétrica] Aneel indica a existência de risco hidrológico (baixo volume nos reservatórios).”
Por que chove menos?
O desmatamento da Amazônia é uma das causas para que esteja chovendo menos no sudeste. Entre agosto de 2019 e julho de 2020, a área desmatada na Amazônia foi de 11.088 km², aumento de 9,5% em relação ao período anterior, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A diminuição de chuvas acontece devido à diminuição da umidade transportada pelos Rios Voadores, que são fluxos concentrados de vapores atmosféricos formados por massas de ar, são invisíveis em determinada região da Amazônia e sobrevoam em meio a copa das árvores.
De acordo com Côrtes, os ventos alísios – que sopram na região equatorial de leste para oeste – levam umidade do Oceano Atlântico para o interior da Amazônia. Lá, essa umidade precipita sob a forma de chuva e irriga o solo. As árvores de grande porte conseguem drenar essa água do subsolo profundo e repõem, com a transpiração, a umidade na atmosfera.
Com isso, o ciclo vai se repetindo floresta adentro. Quando ocorre o desmatamento, a pastagem ou o cultivo não têm raízes profundas e não conseguem repor a umidade na atmosfera.
Como resultado, os ventos continuam soprando, mas ficam secos. Quando esses ventos encontram os Andes, eles são direcionados para o Centro-Oeste e para a região central do Brasil, gerando chuvas nessas regiões. Os rios voadores chegam até o Uruguai e norte da Argentina.
“Prova disso foi a ocorrência das chuvas negras em São Paulo e Santa Catarina. Foram chuvas que vieram da região Amazônica e estavam carregadas com muita fuligem das queimadas”, explica Côrtes.
Mudanças na gestão
Entre as medidas adotadas pela Sabesp para enfrentar a crise hídrica estavam a concessão de bônus ou aplicação de multas ao consumidor, a captação de menos água das represas e de mais água de rios e a interligação dos sistemas de captação.
No período, a Sabesp fez diversas obras para otimizar o sistema hídrico da região. Entre elas, uma obra no município de Rio Grande da Serra que interligou os sistemas Rio Grande e Alto Tietê. A interligação tem mais de dez quilômetros de extensão, custou R$ 130 milhões e beneficia mais de um milhão de pessoas.
Além disso, o Cantareira passou a contar com uma fonte adicional de água, a bacia do rio Paraíba do Sul, com uma obra de transposição iniciada ainda durante a crise.
Em 2018, a Sabesp passou a economizar água do sistema, retirando menos água do que o limite máximo estipulado pela Agência Nacional de Águas (ANA).
Apesar dessas mudanças na gestão desde a crise, Côrtes alerta que o Cantareira segue com dificuldade de se recuperar.
“É importante considerar que essa dificuldade ocorre mesmo com a Sabesp tendo mudado o sistema de gestão após a crise. Atualmente, na medida em que o nível vai diminuindo, ela reduz o volume de água captado, procurando manter o sistema em condições adequadas. Outra alteração importante é que o Cantareira passou a receber água da bacia do rio Paraíba do Sul com uma obra de transposição iniciada ainda durante a crise. E um terceiro ponto importante a ser considerado é que saímos da crise economizando água”, afirma.
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