Tour revive cenários e paisagens que se transformaram ao longo dos 123 anos de Belo Horizonte


Com ajuda de fotos históricas e registros da literatura, grupos são levados a passeio por memórias da capital aniversariante. Igreja da Boa Viagem é ponto de partida do tour pelo passado de Belo Horizonte
Luísa Dalcin/Arquivo Pessoal
A sombra de fícus frondosos na Avenida Afonso Pena, bondes percorrendo a Rua da Bahia, uma igreja colonial localizada em um dos principais pontos da cidade. Cenários assim se transformaram ao longo desses 123 anos que Belo Horizonte completa neste sábado (12).
Essas paisagens deram a lugar a uma realidade mais árida, a outros estilos de construções e a meios de transportes mais modernos. Mas a capital que não existe mais segue viva na história, nas páginas de livros e agora também em um tour.
Durante a pandemia, a companhia de autores que eternizaram a imagem dessa Belo Horizonte recém-inaugurada se tornou mais constante para o belo-horizontino Rafael Sette Câmara. Junto à gaúcha Luísa Dalcin, ele criou um passeio pela boemia e pela literatura dos anos 1920.
“É um tour pelo passado de Belo Horizonte, que começa lá em Curral Del-Rei ainda e entra nas primeiras décadas de Belo Horizonte. Tem um foco grande nessa primeira geração literária, principalmente por meio de Carlos Drummond [de Andrade], do Pedro Nava, do Afonso Arinos”, conta Rafael.
A caminhada pelo passado da capital aniversariante, que começou a ser realizada neste mês, tem como ponto de partida a Igreja da Boa Viagem. E a escolha não foi por acaso.
“A Igreja da Boa Viagem é o marco zero, não oficialmente até hoje. Mas era a primeira praça central do Curral Del-Rei e tem muito material do Pedro Nava falando da antiga igreja da Boa Viagem”, disse Rafael.
Ao centro das ruas Timbiras, Sergipe, Aimorés e Alagoas, a devoção à santa é centenária, mas a imponente catedral erguida no local, não. A construção é da segunda década do século passado e substituiu a antiga matriz, do século XVIII.
Praça da Liberdade recebe atenção especial de guias e também de quem participa da caminhada
Luísa Dalcim/Arquivo Pessoal
De lá, a caminhada segue para a Avenida João Pinheiro, antes conhecida como Alameda da Liberdade. “Era onde morava o eixo do poder de Belo Horizonte, no projeto original”, destaca Rafael. A Praça da Liberdade ganha atenção especial dos guias e dos grupos, que, devido à pandemia, recebem no máximo seis pessoas.
O passeio, feito aos fins de semana, segue pela Rua da Bahia, endereço que requer grande esforço da imaginação na tentativa de reconstruir o passado.
“Porque a Bahia é uma rua completamente diferente do que ela era. (…) Ela era o eixo de tudo, ligava a Praça da Estação, onde os viajantes chegavam, em uma linha reta, ao Palácio da Liberdade, aos órgãos públicos. Então as pessoas pegavam o bonde e subiam a Bahia”, descreve ele.
Além da circulação do bonde, Rafael destaca outra cena que não existe mais na Rua da Bahia. O edifício Maletta, tradicional ponto da boemia belo-horizontina até hoje, dava lugar ao principal hotel da cidade, onde se hospedavam os mais importantes nomes que estavam de passagem pela jovem capital.
As memórias do título de cidade-jardim recebido por Belo Horizonte também são revividas no tour. Assim como nos outros pontos, os guias se valem de fotos históricas para levar as pessoas a paisagens suprimidas, como a uma Avenida Afonso Pena repleta de fícus, cortados do dia para a noite nos anos 1960.
Outra imagem mostra como era a estação de bondes na Avenida Afonso Pena, onde atualmente a espera é por ônibus, que levam à diversas regiões da cidade. Ao todo, são cerca de 30 fotos coletadas em pesquisas na internet e também no Arquivo Público.
Avenida Afonso Pena se transformou ao longo da história de Belo Horizonte
Luísa Dalcin/Arquivo pessoal
O viaduto de Santa Tereza, que presenciou o destemor de Drummond ao cruzá-lo pelos arcos, é travessia para o fim do passeio. O tour se despede na Rua Sapucaí, endereço que teve a vista transformada nos últimos anos por enormes painéis multicoloridos.
“A mudança, a gente vai tendo a cada 20, 30 anos, e a cidade vai sendo outra completamente diferente, ao mesmo tempo que mantém um pouquinho do que era antes. E é esse pouquinho que a gente está atrás de ver, de conseguir ver o que ainda está ali e imaginar o que não está mais”, diz Rafael.
Os vídeos mais vistos do G1 Minas nesta semana:
Adicionar aos favoritos o Link permanente.