Ubirany, o ritmista que revolucionou o samba nos anos 1970 sem fazer alarde


Integrante do grupo carioca Fundo de Quintal por quatro décadas, o criador casual do repique de mão também lega obra como cantor e compositor ao morrer vítima de covid-19. ♪ OBITUÁRIO – A morte do ritmista, cantor e compositor carioca Ubirany Félix do Nascimento (16 de maio de 1940 – 11 de dezembro de 2020), aos 80 anos, vítima de covid-19, representa uma das maiores perdas do samba nestes 114 anos de existência (oficial) do gênero musical nascido entre Rio de Janeiro e Bahia no início do século XX.
Integrante do Fundo de Quintal, grupo carioca que renovou o toque do samba em álbum histórico da cantora Beth Carvalho (1946 – 2019), De pé no chão (1978), Ubirany contribuiu decisivamente para essa revolução sonora feita sem alarde nos pagodes realizados na quadra do bloco carnavalesco Cacique de Ramos, na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro (RJ).
A criação do repique de mão foi a proeza que coube a Ubirany nesse movimento de renovação do samba, capturado pelo olhar sempre atento de Beth Carvalho. A cantora descobriu o grupo em 1977 e já o convidou para gravar no ano seguinte, propagando em todo o Brasil a nova forma de tocar samba.
Além do repique de mão, o Fundo de Quintal pôs na roda o banjo – instrumento criado por Almir Guineto (1946 – 2017), integrante da formação original do Fundo de Quintal com o auxílio de Mussum (1941 – 1994) – e o tantã, instrumento de percussão já pré-existente, mas reapresentado por Sereno com outra batida.
Com Ubirany, Sereno e Bira Presidente – este celebrado pela notória habilidade no toque do pandeiro – formavam o trio de ouro que fundou o Fundo de Quintal e que permaneceu à frente do grupo ao longo de 40 anos e diversas formações.
Até então tocado com instrumentos como surdo, agogô, reco-reco, tamborim, pandeiro e cavaco, o samba se renovou com o tempero preciso da cozinha do Fundo de Quintal, cuja discografia foi iniciada em 1980 com a edição do álbum Samba é no Fundo de Quintal.
Ubirany fica lembrado como o ritmista que introduziu o repique de mão no universo do samba
Divulgação
A revolução de Ubirany jamais foi intencional. Em festa regada a samba e cerveja, Ubirany criou o repique de mão casualmente a partir de repinique, pequeno tambor, com peles em ambos os lados, tocado com a baqueta na mão.
Ubirany eliminou a baqueta, tirou as peles (de um dos lados), pôs abafadores de madeira e rebaixou o aro para facilitar o manuseio do instrumento com a mão, sendo que, nessa última inovação, o ritmista contou com a ajuda de comerciantes de loja carioca de instrumentos de percussão que fabricou o repique de mão em escala industrial.
Com o repique de mão, que Ubirany sabia tocar nas pontas dos dedos, como deve ser feito, sem martelar o instrumento, o ritmista caía no suingue, macio, em interação harmoniosa com o tantã de Sereno.
Depois de 1978, foi difícil imaginar o samba tocado sem o repique de mão criado por Ubirany. Por isso mesmo, o grande valor de Ubirany Félix do Nascimento precisa ser corretamente dimensionado quando se historia o legado do artista na triste saída de cena do sambista.
Sempre ligado ao bloco Cacique de Ramos, o ritmista foi um revolucionário que mudou o mundo do samba sem fazer barulho. O único barulho feito por Ubirany foi com o toque do repique de mão. Como compositor, o artista deixa cerca de 15 sambas, alguns compostos anos antes do Fundo de Quintal.
A obra autoral do sambista inclui Amor maior (parceria com Arlindo Cruz lançada em 1987 pelo grupo), Nova esperança (composição de 1984 assinada com Adilson Victor e Mauro Diniz) e Sempre Brasil (parceria com Neoci Dias apresentada e disco de 1971).
Além de compor e tocar, Ubirany sempre cantou no Fundo de Quintal, mas sem protagonismo, unindo a voz às dos outros ritmistas. Como nas melhores rodas de samba.
Adicionar aos favoritos o Link permanente.