Um ano após chacina com motoristas por aplicativo em Salvador, categoria reclama que falta segurança


De acordo com sindicato, Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) tem registrados oficialmente apenas 30% do total de crimes cometidos contra motoristas por aplicativo na capital baiana. Morte de motoristas por aplicativo no bairro do Jardim Santo Inácio completa um ano
Motoristas por aplicativo de Salvador reclamam de falta de segurança durante o trabalho. No domingo (13), a chacina que terminou com quatro motoristas assassinados, após serem atraídos para uma emboscada, no bairro de Santo Inácio, em Salvador, completou um ano.
Sávio da Silva Dias, Alisson Silva Damasceno, Daniel Santos da Silva e Genivaldo da Silva Félix receberam chamados para corrida que começaria no bairro, mas todos foram levados para um cativeiro onde foram torturados e mortos. Um quinto motorista que também foi vítima dos criminosos conseguiu sobreviver porque fugiu.
Um ano depois do episódio violento contra motoristas por aplicativo, a categoria continua clamando por mais segurança. De acordo com o sindicato, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) tem registrados oficialmente apenas 30% do total de crimes cometidos contra motoristas por aplicativo em Salvador.
Os dados da SSP apontam que em 2020 foram registradas 309 ocorrências contra transporte por aplicativo. Já o sindicato tem registro de 1.843 crimes contra motoristas por aplicativo.
Lucas Silva, diretor do Sindicato dos Motoristas por Aplicativo, dirige para os aplicativos mais usados na capital. O motorista, que já ficou sob a mira de uma arma durante oito horas enquanto dava volta com criminosos pela cidade, faz investimentos no veículo, para conforto dos passageiros, mas tem medo de ser vítima de novo.
“Foram três pessoas. Levaram o meu celular, valores e levaram o carro, mas o carro achei em questão de 20 minutos depois. [Uma situação] Complicada, bem terrível”, disse o motorista por aplicativo.
O motorista afirma que a categoria acaba sendo alvo fácil de bandidos, porque os aplicativos não têm critérios para aceitar clientes. Qualquer pessoa que se cadastra pode solicitar uma corrida.
“Hoje para você ser motorista por aplicativo, nossos documentos como identidade mais antecedentes criminais e dentre outros documentos. É um critério muito grande. Hoje para a pessoa ser passageiro de qualquer aplicativo de mobilidade basta fazer um cadastro, no máximo algumas empresas, elas fazem consultas no SPC Serasa, não fazem uma pesquisa mais aprofundada”, reclamou.
Para tentar driblar a insegurança, a categoria se uniu através de grupos de mensagens. Durante todo o dia eles trocam informações sobre ocorrências, regiões perigosas e sinalizam quando estão em perigo.
“Saímos e não sabemos se vamos chegar toda vez é isso entregue na mão de Deus mesmo porque qualquer um é suspeito”, reclamou o motorista por aplicativo, Edson Santos, outro que já foi alvo de criminosos.
Outra medida de segurança que acaba também gerando prejuízo para esses trabalhadores é o cancelamento de corridas que partem ou que tem como destino regiões da cidade que os motoristas consideram perigosas. Se os cancelamentos são recorrentes, o motorista pode ser banido do aplicativo para o qual presta serviço.
Crime
O crime ocorreu na Rua do Nepal, no bairro do Jardim Santo Inácio, no dia 13 de dezembro de 2019. Quatro motoristas foram assassinados após aceitarem corridas que tinham a localidade como ponto de partida. Os corpos das vítimas tinham sinais de tortura e estavam enrolados em lonas de plástico.
Um outro motorista conseguiu fugir. Ele foi medicado e liberado após o crime, porém foi hospitalizado novamente pouco tempo depois. [Veja relato do sobrevivente abaixo]
No mesmo bairro, três carros que seriam dos motoristas foram localizados. Outro veículo foi achado no pedágio da cidade de Simões Filho, na região metropolitana de Salvador. Não há informações sobre o quinto carro.
Sávio da Silva Dias, Alisson Silva Damasceno, Daniel Santos da Silva e Genivaldo da Silva Félix foram mortos em Salvador
Arte G1
Uma das linhas de investigação da polícia, que foi apontada quatro dias depois do crime pelo Governador da Bahia, Rui Costa (PT), é de que o mandante do crime teria iniciado o ataque após a mãe dele ter uma corrida cancelada. A hipótese, no entanto, estava em investigação na época e não foi confirmada ainda como a verdadeira.
Os mortos são:
Sávio da Silva Dias, de 23 anos
Alisson Silva Damasceno, de 27 anos
Daniel Santos da Silva, de 31 anos
Genivaldo da Silva Félix, de 48 anos
Os suspeitos identificados até então são:
Jeferson Palmeira Soares Santos, conhecido como “Jel”: apontado como mandante do crime
Antônio Carlos Santos de Carvalho, de 19 anos: apontado por envolvimento
Marcos Moura de Jesus, de 30 anos: apontado por envolvimento
O quarto preso não teve o nome divulgado, apontado por envolvimento
Único sobrevivente
Motorista que sobreviveu a chacina em Salvador revela trauma e tortura em ação de criminosos
Reprodução/TV Bahia
Em entrevista exclusiva à TV Bahia, pouco após o crime, o sobrevivente da chacina contou que não conseguia dormir por causa do trauma. Ele também relembrou como foi abordado pelos criminosos, disse que pediu para não ser morto e falou do momento em que foi torturado.
O motorista conseguiu escapar dos bandidos depois que uma das vítimas lutou com os suspeitos. Foi ele que chamou a polícia.
A vítima contou que saiu às 5h para abastecer o carro e começou a trabalhar. A primeira corrida foi no bairro de Pau da Lima, também na capital baiana. Em seguida ele foi para o bairro de Santo Inácio, onde foi abordado pelos criminosos.
O homem disse que quando chegou em um barraco, viu uma pessoa deitada, morta, e outro rapaz com pés e mãos amarrados. O motorista disse que pediu para não morrer, e um dos criminosos perguntou se ele ele tinha dinheiro. Diante da negativa da vítima, o homem disse: “Então você vai morrer”.
“A todo momento eu percebia que eles tinham a intenção só de matar. Porque eles deixavam ver o rosto deles. Diziam: ‘Olhe pra mim. Olhe pra mim, que você vai pro inferno primeiro e depois, num dia, a gente se encontra lá na frente’”, contou.
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Corpos foram achados em um matagal no bairro de Santo Inácio, em Salvador
Arte/ G1
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